quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Carnaval da Política - II

_
Eça de Queiroz, em "UMA CAMPANHA ALEGRE, "As Farpas"" \ I Volume \ Lello & Irmão - Editores, Porto, 1965 \ reprodução da pág. 38 [comprado em Coimbra em Março do glorioso ano de 1969]

O Carnaval da Política - I

O blogue Thoughts on Mealhada, que há muito consta dos meus links da barra lateral ("blogues e sítios da Bairrada"), traz à baila mais uma recandidatura de César Carvalheira pelo PSD local, como candidato à Câmara.
Tal como refere o texto, trata-se de mais um vira-casacas do gaiteiro mundo da política. Conheci-o bem nos meus tempos de advocacia em Anadia, já lá vão 20 e tantos anos. Na altura, César Carvalheira ia à missa e aprendia catequese na escola do PS, crença que dava muito jeito a quem se dedicava essencialmente a empreitar obras de construção civil para o Estado e Autarquias Locais.
Mudaram-se os tempos políticos e com ele os actos de fé: Carvalheira passou a adorar outro bezerro de oiro...
O caso nem é virgem na região. Outro exemplar típico deste tipo de fauna é o Gilberto Madail da FPF, que também começou por ser catequista na igreja socialista.
Conheci-os ambos nesses tempos de fervorosa militância, que passava por umas agradáveis incursões pela noite aveirense...
Ainda recordo uma reunião duma distrital do PS [daquelas que se prolongavam madrugada adentro] e ouvir os camaradas chorar a perca de tão fervorosos adeptos; disse o que pensava, que gente daquela podia ser tudo menos desejada num partido de base humanista.
Comecei aí a despedir-me dum certo estilo e forma de estar na política e na vida.
No post seguinte faço questão de homenagear esse tipo de fauna.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ração de combate: os dias da fome

Era uma ou mais caixas destas que levávamos para as operações de 2, 3 e até 4 dias, mato adentro.
Safavam-me as latas sul-africanas de fruta em calda que comprava na cantina do buraco chamado "aquartelamento"; a maior parte do conteúdo das rações distribuía-o democraticamente pelos bravos do grupo de combate.
Tudo gente do melhor que havia ao cimo da terra, verdadeiros camaradas a quem tratava por "Sr. Silva", "Sr. Santiago" ou "Sr. Adão".

Gente a quem ensinei o que era a liberdade, a democracia e até a Convenção de Genebra (foram centenas os prisioneiros que fizemos em 26 meses de comissão). Mas também gente que decidiu não estar ali para morrer.
O stress das operações constantes e uma ementa destinada a quem não passava de carne para canhão tiveram o efeito desejado: uma úlcera duodenal atirou-me para o Hospital Militar de Luanda durante 40 dias.
Parece que a úlcera continua, que a guerra está para durar, durar...

terça-feira, 31 de março de 2009

Há que chamar os bois pelos nomes


- Poema de J. C. Ary dos Santos\Resumo\Edição do autor\ Distribuição Livraria Quadrante\1972.
[comprado em Coimbra na Unitas - Cooperativa Académica de Consumo, em 2/6/1972]

segunda-feira, 30 de março de 2009

O aniversário e a arte tumular

O fim de semana foi vivido num frenesim. Vai sendo um hábito que me dá muito gozo e se o corpo é que paga não faltam créditos a recuperá-lo. O pior é que desta vez a alma levou um rombo que vai custar a tapar: há sítios no espaço e no tempo capazes daquilo que as balas e as minas não foram capazes. E assim se vai indo o guerreiro que alguém diz que sou.


arte tumular

[clicar na imagem para ver + fotos]
[clicar AQUI para ver em VÍDEO com Requiem de Mozart]

Neste calor que a internet irradia custa menos lembrar gente de quem se gostou muito e é só por isso que daqui vai um abraço para o amigo e colega de escritório, Dr. Alípio da Assunção Sol.
Mais uns dias e concretizaria o sonho de conquistar definitivamente o direito à toga. Mais uns dois anos e, finalmente, a concretização doutro sonho: subir as escadarias do novo Tribunal Multiportas de Oliveira do Bairro de toga debaixo do braço.
Nestes anos de presidente da assembleia-geral do clube de adopção, a manhã dum dos dias das festividades vem sendo dedicada a uma romagem aos cemitérios do município onde repousam atletas e dirigentes do clube.
Parece fácil, mas desta vez nem a cor me defendeu no cemitério de Vila Verde, ali onde nos esperava um velho pai que viu morrer o filho. A vida carrega mortes que se alapam às mãos mais do que à alma.
A propósito dos pais que perdemos e a poesia que nasce, aqui vos deixo esta
Carta Aberta

Um homem progride, blindado e hirsuto
como um porco-espinho.
É o poeta no seu reduto
abrindo caminho.
Abrindo caminho com passos serenos
e clava na mão,
que as noites são grandes e os dias pequenos
nesta criação.
Esmagando as boninas, os cravos e os lírios,
cortando as carótidas às aves canoras.
Chegaram as horas
de acender os lírios,
de velar as ninfas no estreito caixão,
de enterrar as frases e as vozes incautas,
de oferecer a Lua para os astronautas
e as rosas fragrantes à destilação.
_
- Poema de António Gedeão [Linhas de Força\Carta aberta. Edição do Autor\1967].
- Sobre a ARTE TUMULAR em Portugal, ir ao excelente site de Ana Margarida Portela e Francisco Queiroz, neste link directo ao tema.

sexta-feira, 27 de março de 2009

AINDA ESTOU VIVO


Já perdi o medo

A morte já não me assusta
Chegará no seu dia
Hoje levanto-me mais cedo
Madrugar nada me custa.
*
Ontem, Carlos,
os teus Amigos,
voltaram a lembrar-te!

Como num poema teu,
mais uma vez
,
chamámos-te à vida,
quando tu, desiludido,
preferias morrer.


Por isso nos rimos da morte enquanto estamos vivos.

_
O 1º quinteto e a última estrofe foram extraídos de Ainda estou vivo, poema escrito pelo Carlos em 29.1.2004, 8 meses antes de se ir embora (27.9.2004).
O poema que chamei à vida, Acaso não somos Amigos?, foi escrito no Chioco (Moçambique) em 1971.
[CARLOS LUZIO - O PESCADOR DE SONHOS\ Edição dos Amigos\ 2005]

terça-feira, 24 de março de 2009

Devagar se vai ao citius

O CITIUS (do latim, mais rápido, mais célere) é uma plataforma que se encontra disponível na internet para uso dos diversos operadores judiciais: advogados, magistrados (CITIUS - Magistrados Judiciais) e funcionários judiciais (Habilus).
Esta nova ferramenta informática veio substituir o anterior Habilus.net e representa uma fase mais avançada da chamada desmaterialização dos processos nos tribunais judiciais. Em vez do uso do papel e do correio electrónico (1) os advogados passaram a beneficiar das seguintes funcionalidades do Citius:
- proceder à entrega electrónica das peças processuais (petições, contestações, requerimentos avulsos, apresentação de meios de prova, etc.) e seus documentos acompanhantes, bem como dos requerimentos de execução e de injunção;
- consultar os processos e as injunções, bem como a sua distribuição e andamento;
- consultar numa agenda electrónica as diligências que lhes foram marcadas nos vários processos em que intervêm;
- consultarem as notas de honorários a que têm direito.
A página do Citius contém ainda ligações úteis, como sejam os endereços dos tribunais e um calendário judicial com indicação das férias judiciais e feriados nacionais e municipais.
Para quem domina bem o uso dos computadores e os seus meandros, o CITIUS é uma verdadeira mina de ouro.
Como é dos usos e costumes, a página contém ainda os indispensáveis links destinados aos menos conhecedores dos segredos da net, com respostas às perguntas mais frequentes e ainda a costumeira barra de ajuda, o que tudo abre em separador próprio e sem dificuldade que se veja.
Não sobram razões de crítica em relação a muitas medidas tomadas pelo Sócrates [o meu padrinho, como tenho lembrado em tantos posts], sobretudo porque se mostram inócuas e/ou de aplicação enviesada.
Mas na área da Justiça [como na da Saúde, embora com a discordância de muita da classe ou casta, como queiram] este governo tem reformado como nenhum outro fez. Com duas excepções:
1ª - a diarreia legislativa, que não mostra sinais de abrandar e revela que o legislador pouco sabe da poda: são os boys, as girls, o aparelho - o raio do aparelho (2) e os engomadinhos ou pézinhos-moles que citei no post do passado dia 18 - apetece-me mais Shakespeare;
2ª - o limite de 3Mb de capacidade nas entregas electrónicas. Sobre este tema, já tinha alertado o meu padrinho, que confunde Mb com MB. Ainda há 2 dias me confrontei com a idiotice: bastam meia dúzia de anexos em formato pdf e lá temos de ir ou remeter para o tribunal em suporte de papel os documentos que deviam acompanhar o articulado.
Então não há outros formatos seguros? Só conhecem o pdf? Ou alguém teve comissão na escolha, como há muito acontece ou aconteceu com o hardware e o próprio software? E não dá para aumentar até aos 5Mb, pelo menos?

Adoro o CITIUS e todo o meu trabalho passa por lá. E só encaixo as críticas de quem continua a sobreviver a leste do paraíso que é a internet. As demais, não passam de interesses corporativos, próprios de quem não quer prestar contas ao Povo que lhes paga e exige eficiência, destreza e empenhamento pela coisa pública (a res publica das citações ocas).
Sim! Tal como disse em Oliveira do Bairro uma jovem, competente e trabalhadora Juíza na sua tomada de posse: A JUSTIÇA É DO POVO E PARA O POVO!!
E mais não digo, que se faz tarde.
_
1) Antes da actual plataforma era facultativo o envio de peças processuais através do correio electrónico desde que o advogado tivesse certificado digital fornecido pela Ordem dos Advogados. Foi o que sempre fiz durante os anos em que vigorou esse regime.
2) Quando era rapaz novo quiseram impingir-me uma placa no sítio de alguns dentes em falta; resultado: passei a odiar o aparelho.
- ABAIXO O APARELHO!
- VIVA A DENTADURA DO PROLETARIADO!
*
O Citius tem linhas telefónicas, de fax e email, para apoio aos menos avisados.
* Links sobre o Citius: http://www.tribunaisnet.mj.pt/ e portal do governo, este em PDF [toma que já almoçaste!]

Educação e Cidadania à porta de casa

Junho está por anunciar (não sei onde pára o Borda d'Água) e apesar de há muitos anos estar arredado das provas de vinhos, eis-me a retomar os sábados em cheio. Valha-nos isso.
1. Já tinha assistido a uma conferência sobre vitivinicultura no vizinho IEC (Instituto de Educação e Cidadania), implantado bem no centro da Mamarrosa, logo ali depois do Portinho onde continuo a ir partir pedra, às vezes na companhia do Milton Costa.
2. E se bem me lembro, o Milton acompanhou-me nessa conferência sobre a celebração dos néctares bairradinos/colheita de 2008. Ou talvez esteja enganado, que desconfio de andar com algum curto-circuito de efeitos retardados na minha complicada teia de neurónios; hei-de perguntar-lhe, que ele sabe da poda.
3. No penúltimo sábado foi a minha vez de o acompanhar no regresso ao IEC, desta vez para lhe escutar a aula sobre a origem da vida, inserida no ciclo de conferências sobre vida, saúde e ciência que o sublime IEC em boa hora vem promovendo.
4. Neste sábado passado e como o MC estava de afazeres do lar, levei outra companhia dos tempos dos bailaricos nas casas das nossas mães de Bustos. E se escasso foi o tempo para aprender sobre a reprodução da vida, tempo de sobra tive para conhecer um talento local.
Ainda estou para perceber como uma mamarrosense como a Maria da Graça Capela da Graça me pode ter escapado entre os dedos das raízes que me agarram ao nosso chão; até laços de afinidade nos ligam, quanto mais outros gostos e sabores.
Eu explico em três penadas:5. Na cave do IEC estava patente uma exposição permanente sobre Pintura em Porcelana/”Travessas Companhia das Índias”. Um mimo em rigor, pormenor e saber de mãos, coisa de encher o olho e emagrecer a carteira. Tem graça porque a Maria da Graça da Graça tem uma fixação pelas loiças da Companhia das Índias, esses preciosos vasos da nossa Dinastia Ming.
Escusam é de procurá-los na feira do Sobreiro aos dias 9 e 22 de cada mês…é melhor ir direitinhos à Mamarrosa e perguntar por uma senhora muito excêntrica e assumidamente mal ataviada e verão que logo vos apontam a casa.
Maria da Graça Capela, nascida e residida na Mamarrosa, é mulher para ter menos um ano do que eu, mais dia menos dia. É reformada da FAO/UN, onde labutou desde os anos 80 a partir da Itália; cabia-lhe organizar as conferências que a FAO fazia um pouco por todo o mundo e veio a ser a 1ª mulher a integrar os serviços de segurança da organização, então chefiados pelo general italiano Borlando.
6. A Maria da Graça pode ser uma excêntrica, mas também é das que sabe da poda: iniciou o seu gosto pela pintura no Olimpo dos Deuses Pintores que é a Itália, tendo iniciado os seus estudos em Roma com a prof.ª Alessandra Anhesi. Estudou na Bottega dell’arte sob a direcção da prof.ª Teresa Broglia, especialista em registos e detém um diploma da International School of H. Ceram.
De 92 a 94 frequentou a Escola Superior de Belas de Tirana onde foi orientada pelo famoso escultor e pintor Hekter Dules.
Regressada à terra-mãe, foi Mestra d’Artes na União Portuguesa de Arte em Porcelana (UPAP) e de que foi vice-Presidente, na Fábrica Campos de Aveiro, na Galeria Oficina Regina Affonso, em Oliveira de Azeméis e em Lisboa.
A Maria da Graça detesta a ribalta, pediu-me sigilo e discrição, mas deve ter percebido que eu sou de assobiar para o lado.7. Ah, já me esquecia de como se chega àqueles primores:
a) materiais usados: porcelana cozida em tons acinzentados, difícil de encontrar, pigmentos cerâmicos, esmalte, ouromate e óleos;
b) objectivo: reproduzir tão fielmente quanto possível a porcelana Companhia das Índias.
8. A Graça também restaura arte sacra e faz registos, uma arte muito elaborada e por isso conventual, que se revela em tecidos, ferros, caixas de vidro, em geral de conteúdo religioso.
9. E protege ferozmente os animais. Ad nauseam.
*
Palavras do Senhor
oscardebustos

domingo, 22 de março de 2009

MUNDOS (IM)PERFEITOS

Pequeno cartaz de divulgação da Exposição Colectiva de Fotografia, em curso na vizinha Palhaça.
Descritores
- Título: MUNDOS PERFEITOS - Exposição colectiva de fotografia
- Local: Associação Desportiva e Recreativa da Palhaça (ADREP)
- Período: de 22 de Março a 5 de Abril de 2009
- Dia/hora: de sexta a domingo, das 10H00 às 21H00; restantes dias, sob marcação - 939324235
- Organização: Dilsa Dias (V.N. de Gaia) e Diana Cura (ADREP/Palhaça)
- Fotógrafos: Albano Soares (Porto), Alberto Maia (Trofa), Carlos Mexedo (Porto), Carlos Tavares (Alemanha), Dilsa Dias (V.N.Gaia), Humberto Machado (Porto), Marcos Oliveira (Porto), Maria Isabel G. Silva (Cacém), Paulo Penicheiro (Leiria) e Rui Soldado (Évora).
_
Em Agosto próximo, as Festas de S. Lourenço de Bustos serão enriquecidas com um vasto programa de exposições, representações, conferências e o muito mais que a imaginação e o dever cívico impõem às nossas consciências de Cidadãos do Mundo e de Bustuenses com raízes.

sábado, 21 de março de 2009

Anda livre na rua e não conheças a tristeza

Poema das Águas
Entre tantos poemas
Este é feito de água apenas
Água benta
Para quando o diabo atormenta
Água potável
Para o corpo estar saudável
Água quente
Para um banho urgente
Água fria
Para começar bem o dia
Água de colónia
Para cheirar bem na cerimónia

Água do mar
Para lançar a rede e pescar
Água do rio
Para servir de caminho ao navio
Água salgada
Para aliviar os pés da longa caminhada
Água do Jordão
Para dar baptismo ao novo cristão
Água do Sena
Para inspirar este poema

Água canforada

Para que a dor seja ultrapassada
Aguarela
Para que o teu rosto fique pintado na tela
Gin com água tónica
Para uma viagem supersónica
Aguardente
Para bochechar quando dói o dente
Água mineral
Com bolachas de água e sal
Para quando o fígado andar mal
Água doce

Para matar a sede que o Verão trouxe

Água destilada
Para que a bateria não fique descarregada
Água oxigenada

para que a ferida fique sarada
Água inquinada
Que não serve mesmo para nada
Água da chuva
Que no Verão assenta como uma luva

Água pesada
Com uma força astronómica
Misturada com plutónio
Faz uma bomba infamemente atómica

Para nos queimar o último neurónio
Que nos reduz a nada
Pobre povo ancestral do Japão
Que ainda hoje não levanta os olhos do chão
Água do Tigre
Água do Eufrates
Onde se morre em estúpidos combates
E eu passeio-me triste e cabisbaixo
Vendo como o planeta vai por água abaixo...
_
Carlos Luzio\Pescador de Sonhos\"Poema das Águas", escrito a 26-5-2004\Livro editado pelos Amigos em 2005.
Soube tão bem ler-te este poema, ali onde sentes o odor dos cravos vermelhos!

Hoje é Dia de Santo Eugénio de Andrade

É o dia também
da nova poetisa de Bustos,
Marineide Santos
E é sempre dia do Carlos Luzio,
sempre
sempre
até sempre
*

Despertar

É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar
_
EUGÉNIO DE ANDRADE\Coração do Dia [1956-1958]

felinos

Ele há escolhas difíceis...
_
Custou-me 20€ e os olhos da cara, esta imagem.

quinta-feira, 19 de março de 2009

OS PAIS QUE PERDEMOS E A POESIA QUE NASCE

Perdi o Pai num Dia de Rei(s).
E um filho nos braços.
Só não perdi os meus filhos da guerra, porque os proibi de se irem de abalada sem ordens minhas: era proibido morrer.
Ironia: nenhum morreu (nunca mais esqueço: ó meu alferes, leve-me para a minha mãezinha, por amor de Deus!). E trazendo, levei, que o Ferreira era e é da terra do bom vinho.
Bem a propósito:
A minha conterrânea Marineide vai finalmente publicar o seu 1º livro de poemas. É já neste sábado - dia mundial da poesia, no Salão Nobre da Câmara de Oliveira do Bairro (e não na Biblioteca Municipal), pelas 10H00. Como é seu dever e propósito, o Notícias de Bustos vem lembrando o evento.
A Marineide perdeu o pai que tanto adorava, a maior razão de ser da sua vida.
O Mário ajudava-a estremosamente em tudo o que um filho carece quando as limitações físicas criam barreiras que parecem intransponíveis.
Há mortes que deviam ser proibidas por decreto divino. A do bom amigo Mário era uma delas.
Davam-me especial prazer os momentos de conversa, as mais das vezes à minha porta: tolerante ainda que empenhado política e religiosamente, o Mário era um cidadão duma postura, dignidade e abertura como pouco se vê.
Como admirava muito o meu Pai, hão-de estar juntos no sábado, a saborear lá de cima a concretização do sonho da Marineide.
Merecem ambos a melhor das tribunas, à mão esquerda de Deus como o meu Pai sempre quiz, que à direita os lugares têm outros donos.
Como escreveu o Carlitos Luzio, num dos muitos "bate-estradas" que me enviou de Moçambique, o que nos vale é ainda estarmos vivos
graças adeus.
E lúcidos.
_
Excerto dum dos poemas do livro da Marineide, Canto e Amanhece:
Espelhei nas palavras todo o meu Eu
Mesmo que as memórias me atormentassem
Viajei por Mundos cuja distância

Somente a Liberdade compreendeu
*
- NB (também pode ler-se noticiasdebustos), hora primeira do dia mundial da poesia:
Enquanto a malta anónima prefere ir desancando a torto e a direito nos comentários ao texto ali postado a 19 - Notas e desnotas duma reunião camarária, o altinod@poba persiste na causa mais do que nobre da POESIA/PÃO PARA A BOCA.
É Altino! E não é que somos uma espécie de combatentes da poesia!!
[e no teu Moçambique e do Carlitos, Altino, não se morria só de tédio, pois não?]
...
Já caminhei muita savana
Com uma espingarda na mão
Pesadas botas e a morrer de sede
Disparei contra ti com tanta gana
Metralha gasta em vão
Para acabar fuzilado contra a parede
Agora sou um guerrilheiro que já conheces
Desarmo minas com a ponta dos dedos...
Carlos Luzio, Pescador de Sonhos/Guerrilheiro, Ed. dos Amigos, Bustos 2005

hoje é o teu dia, pai



quarta-feira, 18 de março de 2009

adivinhem quem é uma flor?

_
1. Reprodução dum poema de Manuel Alegre, em O Canto e as Armas, Ed. Poesia Nosso Tempo, 1970, ano em que comprei o livro em Lisboa meio à sucapa, um ano depois da "operação flor" e da "operação balão", que fizeram as delícias da população de Coimbra.
Durante a crise académica de 1969 vieram de Lisboa colegas solidarizar-se com a nossa luta; defendiam formas de luta diferentes e violentas, em contraponto com a subtileza dos métodos da malta cá da província.
Exactamente em 1970 reencontrei-os em Lisboa; eram a cara chapada dos durões barrosos, saldanhas sanches, arnaldos de matos e outros radicais esquerdistóides que viriam a fazer furor 5/6 anos depois, a seguir ao 25 de Abril. Quem os viu e quem os vê...
2. Sobre 2 dos maiores líderes do movimento associativo de 1969, ver post de 20/9/2008 [a palavra e a mão] e ainda a interessante entrevista de Osvaldo de Castro ao jornal de parede do PS na Assembleia da República. Não levem a mal se vos mando para tais caminhos; um conselho amigo: ide fermosos e mui seguros.
3. Manuel Alegre terá ido beber o mote do poema ao também poeta Mao TseTung: "Deixem cem flores florir e cem escolas de pensamento lutar" [mao tse tung, Poemas, Editorial Futura, 1972].