Como vem sendo dos usos, os Guardiões
dos Sabores voltaram a reunir em Assembleia Geral, cuja ordem de trabalhos foi a degustação dos sabores dos nossos avós e aproveitar para fazer o ponto da
situação da gastronomia que defendemos e cultivamos, tudo enquanto íamos degustando ou alambazando-nos à grande e à portuguesa com a cozinha tradicional.
Desta vez, o local do creme foi a acolhedora moradia
da Zélia Canão/Carlos Leite, ali na Picada de Bustos. Presentes os
guardiãos/guardiões: Fernando
Silva, Joãozito Oliveira, Manuel Nunes, Carlos Leite, Adélio Reis, Milton
Costa, Manuel Agostinho (secretário e redator das atas e futuro 1º ministro do
reino dos sabores) e este vosso humilde escriba, Óscar Santos.
Faltaram, por motivos alheios à sua vontade -
como usam dizer os políticos quando fazem borrada e saem de cena - os
guardiãos António Romão, Rui Barata e João Libório. Como vem sendo hábito naquele poiso, fomos recebidos principescamente.
A Zélia e o Carlos levam o esmero ao extremo, com
recurso a uma equipa de verdadeiros gourmets: o cunhado do Carlos, Fernando
Pinto e a sua consorte e irmã do Carlos, Conceição Leite, vindos expressamente
de Oliveira de Azeméis, tal como de lá veio a deliciosa vitela, sacrificada no forno a
lenha existente no bonito anexo dedicado aos bons comeres e beberes em grupo.
A Alexandra, que vive em Bustos, veio dar uma
mãozinha, porque nunca somos demais para continuar o Portugal
gastronómico.Tudo sob a batuta e interação da Zélia.
A Conceição (ao centro, na foto) é uma exímia cozinheira. As suas batatas
salteadas, enriquecidas com alho, orégãos e o azeite dos usos, bem como os
pipis estufados, caíram no céu daquelas bocas já de si esmeradas e exigentes. Até
um bom queijo da serra a desfazer-se no palato ajudou ao preâmbulo do festim.
Não pensem que as delícias da terra (as do mar não
fazem cá falta) se ficaram por aqui:
O mulherio, com a ajuda e permanente atenção do Fernando Pinto, submeteu ao
lento crivo do forno a lenha 3 travessas de barro (houve uma 4ª, que não identifiquei), com a compositura que passo a
factualizar:
- Uma, de robalo médio (300/400gr, diz o escriba, que
já foi rei na matéria), recheado com pimentos vermelhos e verdes [a variedade é
essencial, confidenciou-me a Conceição do alto do seu saber], a que acresceu bacon,
orégãos e, desconfio, outros ingredientes que ficaram no segredo da deusa.
Para evitar o derrame do recheio, os robalos foram
esventrados pelo dorso lateral, após o que foram fechados com palitos, tudo para
evitar escorrências.
Na travessa de barro, os famosos e injustiçados robalos
assentaram numa “cama” de vinho branco, azeite, cebola, tomate e salsa, cama
essa que não se quer muito gorda, frisou a mestra.
Uma delícia! - rejubilaram os confrades, enquanto iam
falando mal da política e bem das mulheres.
- As outras duas, deram guarida à tenra vitela trazida
de Vale de Cambra, dos pastos dos lavradores locais que lá vão resistindo à
crise, bom grado os esforços da ministra Cristas, agora em fim de ciclo.
Chegados aqui, avancemos para o esmerado tempero com
que o jovem bovino foi regado.
Tudo vos relatarei até ao ínfimo pormenor, ó crentes e
incréus, salvo aqueles segredinhos que os experts e chefs não gostam de revelar, seja
aos crentes, seja aos ateus, agnósticos, ou mesmo aos da opus dei ou da maçonaria, seja qual for a loja em que aventalam:
Ele é alho, cebola, louro, sal, pimenta, uma
malagueta de piri-piri, vinho branco e até um poucochinho de água, não vá a carne
morrer à sede.
Outra delícia! - voltaram a rejubilar os confrades,
enquanto se iam repetindo a falar mal da política e bem das mulheres.
Não registei o pedigree dos excelentes tintos e
espumantes, que o tempo não deu para tudo, pois tive de me dividir entre a heurística
da cozinha e a hermenêutica da farta mesa. E ainda tive de fazer de fotógrafo de
serviço.
Mas dei nota das sobremesas, ainda que não sejam o meu
forte:
Pudim caseiro (nada de fudim plan), pão-de-ló de Ovar, bolo de chocolate com café e ainda natas do céu regadas com
ovos moles. Tudo matéria prima confecionada pelas mãos de fada da nossa Senhora da Conceição.
Mas que delícia! – rejubilaram de novo os confrades,
enquanto insistiam em falar mal da política e bem das mulheres.
Para fechar o repasto, só faltou a Ana Sofia,
filha da casa, brindar os convivas com uns acordes de flauta transversal em que é exímia, ela
que integra a Banda da Mamarrosa. Fica para a próxima, se e quando a timidez se for embora.
Entretanto e como é da praxe, o secretário Agostinho
lavrou a acta, que divulgarei na página do facebook dos GS, pois, ao contrário dos
políticos e outros beneficiários da manjedoura, a malta não tem nada a esconder
aos portugueses. Como mandam os códigos, depois de lida e achada conforme, foi a acta assinada por todos.
São encontros destes que nos fazem esquecer que o país
está de tanga para tantos e generoso demais para uns poucos.
Bem vistas as coisas, trata-se de contribuir para a recuperação, preservação
e divulgação da cozinha tradicional portuguesa. O governo - este e o que vem aí - podem cair. Os Guardiãos dos Sabores manter-se-ão de pedra e cal, que é como quem diz, de carne e peixe!
O
prometido é de vidro. Já
sabia que vocês se iam estar nas tintas para o enigma profusamente distribuído
no texto de domingo, o que só revela que são tão fingidores como o poeta do
Fernando Pessoa: um
fingidor/que finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que
deveras sente. Deu
para perceber que vocês, mais do que fingidores, são é uns grandes masoquistas: gritaram ao morto contra todos os cortes do Passos/Portas/Troika, excepto um:
os cortes na área da educação e da cultura.
Quanto
mais burros, melhor, é o vosso lema. Desde que haja dinheiro para umas bejecas, acompanhadas dumas bifanas aporcalhadas e o IVA da restauração desça para os 2,5%!
Façam
como eu: cozinhem em casa e bebam água do poço do aido, em vez duns tintos do
Douro que eu cá sei e que são o que de melhor se produz neste vale de lágrimas.
A
este propósito:
Eu e o Carlos do Pompeu dos Frangos temos várias divergências insanáveis que nos
unem, uma das quais se prende com a obsessão dele sobre o vinho da casta
(bairradina) baga: acha-o o melhor do mundo e arredores.
O
Carlitos tem dois amores:
1º
- O excelente baga, incluindo em versão espumante, sobretudo a produzida
pelas Caves Primavera e a que tenho acesso privilegiado por razões profissionais.
Enquanto ele só gosta de vinhos velhos; eu, prefiro-os mais novos.
2º
- O Sócrates, a que tive acesso privilegiado num célebre dia de 1994, ainda ele
não passava dum obscuro Secretário de Estado do Ambiente. Ele continua a gostar muito dele; a mim, essa febre já me passou há muito, quando tomei a vacina. Remédio santo.
Esse meu acesso/assédio ao apaixonado pela educação do povo aconteceu quando eu ainda usava o cartão de sócio do clube e assistia a algumas sessões de catequese, trauma que superei sem ter de recorrer a um dos dois psicanalistas da minha eleição:
A
Joana Amaral Dias e o Pedro Aleixo, irmão do meu colega e parceiro de
escritório, José Manuel Aleixo, os quais até nem são da família do famoso poeta
popular António Aleixo, referido na parte final do post de domingo.
*
Seja
como for, manda a bondade democrática aceitar que cada um come, bebe e cheira
do que gosta.
E
se vocês acham que cultura e alta-costura são uma e a mesma coisa, então o
problema é mesmo vosso.
A
minha solução é ficarmos mesmo por aqui.
Boa noite. Eu vou com as
aves. ____ - A imagem do vinho velho está reportada aqui, até porque tem direitos de autor.
Joana,
boa Joana, faça como eu: vá saindo, vá mas é
saindo. E se esse seu estado de alma persistir, aconselho-a a sentar-se no divã dum reputado psicanalista lisboeta que a Ana,
por razões profissionais, deve certamente conhecer e que eu também conheço, não
por razões profissionais, mas por ser irmão do meu colega de escritório, Morais Aleixo. * Li há pouco que nasceu em Angola, terra
onde não morri porque era proibido morrer.
O mundo é mesmo pequeno.
E eu com tantas histórias para lhe contar... ___ - P.S. (salvo seja) sobre o título: cá na terra trocamos os "bês" pelos "vês" .
As recentes chuvas vão acabar de vez com eles. Os que não racharem com o excesso de água irão perder aquele sabor adocicado e envolvente. Estão nas oitavas da festa, a modos de quem se despede até para o ano se Deus quiser.
Decidi o que fazer aos dióspiros que ainda restam na garbosa árvore do quintal: os que não tiverem préstimo para comer ofereço-os às galinhas, petisco que adoram, tal a ferocidade com que disputam os que lhes lanço às patas.
Os quintais das aldeias bairradinas são um alforge de fartura e riqueza frutícola: ele são as laranjas, os figos, as peras, os quivis, as ameixas das mais variadas qualidades, os limões e até as maçãs por quem passo como cão que não conhece dono.
As galinhas que ajudo a alimentar adoram a fruta que quase diariamente lhes ofereço. Ainda por cima não são esquisitas: comem do que lhes damos, não reclamam e, invariavelmente, são sacrificadas para satisfazer a nossa gula.
Bem vistas as coisas, há uma espécie de luta de classes entre os humanos e as aves de capoeira: a troco dum mísero salário vendem-nos a sua única força de trabalho, a carne gostosa e até os ovos cuja fartura vai minguando à medida que o frio aumenta.
Tanta riqueza gerada a troco de tão baixos custos de produção!
Como não me incluo no grupo dos capitalistas e exploradores, pago-lhes muito acima do salário mínimo nacional e não lhes reduzo nem corto os benefícios sociais.
Se alguém tem que pagar a crise que sejam os ricos e poderosos.
As galinhas é que não!
Não, não falo da famosa canção do Zeca Afonso. Nem dos boys em fim de ciclo, fatalmente à espera de serem reciclados por nova fornada, que as sondagens não costumam enganar-se.
Falo do oriolus oriolus, que todos conhecemos por papa-figos.
Podem dizer-me que são atraentes e tardios: queixa-se o avesdeportugal.info de que é um visitante estival que chega bastante tarde ao nosso país.
Detesto queixinhas. Por mim, passava bem sem eles. Longe da vista, longe do coração dos preciosos figos, que mal chegam para o meu apetite voraz.
Lembro-os porque me chegou às mãos uma boa pratada deles. São um regalo, da nobre casta pingo de mel e está na cara que não chegam para as encomendas.
Vai sendo tempo de ir a eles ao quintal do vizinho.
Depois do acto solene do sorteio das listas concorrentes às Autárquicas de Oliveira do Bairro fui almoçar ao imenso Papatudo, ali na Alagoa de Águeda.
Ademais, o amigo Fernando precisava dos serviços do escritório. Aproveitei para me fazer acompanhar das 2 (duas) candidatas da lista de Bustos, a tal nascida para a pedrada no charco da politiquice...
Às tantas, o sofá do 1º andar virou divã de psicanalista. Mal a longa conversa começou, comentei que o Fernando não precisava de mim nem do colega Aleixo, mas do irmão deste, psicanalista de renome em Lisboa. Perceberão porquê.
A história do Fernando trouxe-me à memória um texto que me saiu dos caboucos da alma e que aqui postei em 16/9/2008: morrer de morte matada. Dêm um salto AQUI, que o caso não é para menos.
Mas ouçamos o Fernando H:
" A minha vida começou aos 16 anos: um dia pedi ao meu pai dinheiro para cortar o cabelo. Quando cheguei a casa para lhe entregar o troco, encontrei o meu pai enforcado.
Comecei aqui a minha luta pela vida. Fui logo trabalhar num matadouro: esquartejava por dia 100 bois, 400 a 500 porcos e umas 300 ovelhas.
Cerca de um ano depois fui para a construção civil, como ajudante de carpinteiro, mas só uns meses. Entretanto, acabei o curso de desenho técnico na Escola Ratton, em Tomar.
A seguir veio a Suiça. Até que resolvi apanhar (em Sierre) um autocarro que vinha para Águeda. Porquê Águeda? - Porque sim, ele estava ali, como que à minha espera e, lembro-me tão bem, parou mesmo em frente à Escola Marques de Castilho. Trazia uma mala na mão e dinheiro para alugar uma casa.
Trabalhei numa fábrica de fibras (3 meses) e depois 5 anos na Metalcértima (Oliv.ª do Bairro).
Depois veio o Zip Zip e o casamento com a filha do dono (1); depois, o restaurante Artur, no Silveiro, a pensão Parreira em Aguada de Cima, o Artur 2/Espeto do Boi.
A restauração passou a ser a caçadeira de canos serrados do Fernando H/Faustino C.
Ao contrário do anti-herói que me arrebatou uma noite inteira para toda a vida, o Fernando merece a nossa piedade e o nosso respeito.(2)
E muita amizade.
Para toda a vida.
__
(1) Antes dum divórcio, há sempre um casamento ao virar da esquina. E disso percebemos nós, não é, Fernando?
(2) In, NOTA EXPLICATIVA de "VIDA E MORTES DE FAUSTINO CAVACO", da autoria de ROGÉRIO RODRIGUES.
- VIDA E MORTES DE FAUSTINO CAVACO: Organização de Rogério Rodrigues / Editora ER Heptágono, por subcedência de direitos de Euroclube, SA / Capa de Vitorino Martins / Composição: M. Esther - Gab. de Fotocomposição / Impressão e acabamento: Printer Portuguesa / Depósito legal n.º 27 480/89.
Com a devida vénia, que é muita e mais do que merecida.
Depois de meses a dividir-me entre o trabalho e a realização das Festas em Honra de S. Lourenço de Bustos (um sucesso) e duma curta mas intensa incursão na preparação e apresentação duma lista para a Assembleia de Freguesia (uma pedrada no charco da política local)...
...só mesmo um dia de bonança.
E logo ontem que a minha mãezinha se lembrou outra vez de desfazer anos.
Presenteei-a com uma caldeirada de peixe divinal, que fiz acompanhar dum excelente espumante da Adega Cooperativa de Cantanhede.
A restante família estava de férias para o Cartaxo, como se usa dizer. Excepto a Bia e a nova e turbulenta aquisição.
Nem a propósito: quanto mais conheço os homens mais gosto das minhas cadelas.
...
Fui lá fora e não vi o céu estrelado.
Hum! Vem aí novo temporal!
__
- O retrato é de Junho de 1943, ainda eu não lhe estava nos planos.
A par do cão, é conhecido por ser o único amigo que nunca é infiel.
Conhecemo-lo por bacalhau e haverá mil maneiras de o cozinhar. Os cientistas dão-lhe o nome de Gadus morhua e afiançam que a sua taxonomia é muito complexa, existindo várias espécies e subespécies. Cá por mim, de complexo não tem nada, pois nem sequer é difícil de grelhar, cozer, fritar ou assar. Já pesquei parentes próximos, como o badejo, mas a fisionomia do verdadeiro bacalhau é inconfundível. Há uns anos atrás, outro amigo fiel - o Helder Luzio, conseguia-me uns exemplares frescos, a que eu dava o destino preferido: cozido em água, cebola e sal. Então as cabeças acompanhadas de couve e umas batatitas eram um verdadeiro regalo. Ao que parece, são tempos que já não voltam. A não ser que emigre para a Noruega ou a Islândia. Sempre juntava o útil ao agradável... _ Bibliografia e foto: A EPOPEIA DOS BACALHAUS, de Francisco Manso e Óscar Cruz \ Distri Editora, 1984 [comprado na Bertrand, em Aveiro, aos 19.12.1984]
Era uma ou mais caixas destas que levávamos para as operações de 2, 3 e até 4 dias, mato adentro.
Safavam-me as latas sul-africanas de fruta em calda que comprava na cantina do buraco chamado "aquartelamento"; a maior parte do conteúdo das rações distribuía-o democraticamente pelos bravos do grupo de combate. Tudo gente do melhor que havia ao cimo da terra, verdadeiros camaradas a quem tratava por "Sr. Silva", "Sr. Santiago" ou "Sr. Adão".
Gente a quem ensinei o que era a liberdade, a democracia e até a Convenção de Genebra (foram centenas os prisioneiros que fizemos em 26 meses de comissão). Mas também gente que decidiu não estar ali para morrer.
O stress das operações constantes e uma ementa destinada a quem não passava de carne para canhão tiveram o efeito desejado: uma úlcera duodenal atirou-me para o Hospital Militar de Luanda durante 40 dias. Parece que a úlcera continua, que a guerra está para durar, durar...
Depois da incursão na Assembleia Municipal de ontem à noite...
...só mesmo um soberbo almoço de arroz de lampreia no Pompeu dos Frangos do Carlitos para esquecer um dia de cão.
_
Lampreia às sextas é a nova receita de sucesso do Pompeu, cujas raízes bustuenses são o nosso orgulho. Bibliografia consultada: "As aventuras do Grão Vizir Iznogoud", II volume / "O conto de fadas d'Iznogoud", de René Goscinny e Jean Tabary; edição original da Dargaud Editeur, traduzida para português pela Meribérica - Editorial e Comercialização de Direitos, Lda. (Feira do Livro de Lisboa/13 de Junho de 1988).
O Jornal da Bairrada é dos semanários regionais com maior tiragem a nível nacional e todos sabemos o impacto que tem junto da vasta comunidade emigrante, da Europa às Américas, passando pela longínqua Austrália.
A pergunta da semana da edição do JB de ontem versou sobre o tema reproduzido acima [clicar na imagem para aumentar] e sobre ele responderam ainda um autarca de Anadia e outro de Águeda.
Lá que o meu discurso tivesse sido redondo, ainda vá que não vá, nem que fosse pela idade; como dizem os mais velhos, vou em 61. Agora um jovem como o Nuno Barata ter calcorreado os 500 caracteres que nos consentiram sem dizer absolutamente nada, isso já é preocupante.
Onde pára a irreverência, o espírito de vanguarda e rebeldia que sempre foi timbre da malta nova? Como fomos diferentes nos idos de 60! É o que dá ser a voz do dono.
E então a temática é fracturante? E eu que pensava que não, que já tínhamos subido esse degrau! Estava longe de imaginar que serias um dos destinatários da tirada do “tapar o sol com a peneira”…
Já agora: se há atitudes que elogio no Sócrates, esta é uma delas. A meio do desgaste que a crise provoca, o homem arrisca-se como nenhum político da praça faria; e mais: o eleitorado ficou a saber que o casamento entre pessoas do mesmo sexo será consagrado na lei civil se o meu padrinho ganhar as próximas legislativas.
Oremos para que não seja mais uma promessa por cumprir; senão, a largura do vosso cartaz não vai chegar para o nariz do Pinóquio..
Congresso do BE: Francisco Louçã no momento da aprovação da sua lista para a direcção do partido.
Note-se a indecisão: viro-me prá esquerda ou prá direita?
A imagem, extraída com a devida vénia da última página do Público de ontem, não deixa margem para dúvidas: o Bloco voltou à linha dura e ínsipida dos tempos áureos do maoismo.
Tambéu eu, Joana Amaral Dias, não vejo qualquer razão para ter sido excluída da lista da direcção...
Dizem que são provenientes da China; talvez por isso, os dióspiros têm um sabor diferente, estranho até para muitos de nós. Mas lá que são saborosos e matam a sede, disso não há dúvida.
Talvez atacados por um qualquer bichinho da fruta, este ano apareceram com umas manchas escuras, o que quer dizer que se os bichos gostam deles é porque são mesmo bons.
Aos dióspiros dou-lhes o mesmo rumo que aos figos: atiro-me a eles antes que a passarada se antecipe.
E se a árvore cá do quintal deu menos este ano, compenso a escassez com um saltinho ao aido do vizinho Jó, que o dióspireiro dele está carregadinho.
Se repararem, os nossos quintais produzem pelo menos um tipo de fruta em cada estação do ano: as ameixas de verão já se foram, no princípio do Outono vieram os figos e com eles as uvas; agora são os dióspiros e não tarda voltaremos ao ciclo das laranjas.
As árvores que vamos preservando nos nossos quintais são a melhor defesa contra a globalização do mercado. Até quando?
São conhecidas as posições do PS e do PSD sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo: - Para o PS, o assunto “não está na agenda política, nem do governo nem do PS e o PS não anda a reboque de nenhum outro partido.” Estamos conversados. - Para o PSD e apesar de dividido sobre a matéria, trata-se mais duma questão de consciência, do foro íntimo de cada um. Conversados estamos. Como é bom de ver, nem o tema é uma mera questão de agenda e muito menos se resume a um assunto do foro íntimo: o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma questão social, que põe em causa o conceito de família que sempre conhecemos. Ao tratar do direito de família, o Código Civil define o casamento como um “contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante plena comunhão de vida, nos termos deste Código.”. Assim sempre rezou o artigo 1577º daquela lei. Sou da opinião que o contrato/casamento possa ser celebrado entre pessoas, independentemente do sexo de cada um. Mas fica a pergunta: porque é que este contrato não há-de ser celebrado entre 2, 3 ou até mais pessoas, como acontece com as demais relações contratuais? Não me venham com o argumento de que somos herdeiros do direito romano e dos seus princípios monogâmicos. As tradições são como as agendas e os programas: só empatam o progresso. Quem tem medo da poligamia? […a não ser o ministro das finanças, porque quantos mais forem os membros do agregado familiar mais aumentam as deduções fiscais]. É tempo de dizer não à tradição do matrimónio!
Os botânicos dizem que o figo não é um fruto, mas sim um sícone, que não é mais do que um falso fruto que começa por uma inflorescência e acaba numa deliciosa infrutescência, sobretudo quando bem madurinha. Dito assim nem apetece ir aos figos, mas cá por mim vou-me a eles na mesma, deixando as explicações para o Milton Costa, que é cientista e quando se atira à figueira da casa dele fica indeciso entre comê-los e divagar sobre as razões de ciência do tal de sícone ou sicónio.
Gosto muito de figos, sobretudo das figueiras dos quintais dos meus afáveis vizinhos.
Aos figos chamo-lhes um figo.
Estão logo ali depois do meu quintal. E a fronteira que separa os dois aidos não tem muro de Berlim, arame farpado, campo de minas, nem me esperam as malditas emboscadas de má memória.
E também está fora de questão a prática do crime de introdução em lugar vedado ao público, porque - como diria o Sr. De La Palisse - não há vedação de espécie alguma. Os nossos aidos gostam de interagir, derramando-se uns nos outros como mares iguaizinhos a que os homens deram nomes diferentes.
Não digam nada ao meu vizinho, mas, de 2 em 2 dias para dar tempo de amadurecerem, vou-me a eles como cão à cata de bom osso. E não lhe digam porque ele é uma jóia de rapaz, bom amigo de ontem e de hoje (e espero que de amanhã...), faz uns petiscos de morrer e produz vinho de boa qualidade.
Em abono da verdade, ou me vou a eles ou a passarada passa-me a perna. Tertio non datur, como se diz nos direitos; em bom português, significa que não existe uma 3ª alternativa visto que o tertio não vive cá.
É tempo dos figos. E antes que os pássaros os dizimem ou a chuva os estrague...
Os técnicos chamam-lhe vitivinicultura e foi uma das minhas especialidades até ao ano passado. Ainda me está no sangue e até o corpo me diz que quer continuar; só que a realidade é outra: a vinha do Portinho que o meu pai tanto valorizou nos últimos 30 anos já foi chão que deu uvas. Já acamado, dizia-me:
- Deixa-te disso. Arranca mas é o que ainda está de pé, que isto não tem futuro.
Tinha razão, pois tinha; mas o que deixou de valer para nós, continua a valer para os nossos irmãos galegos, que souberam casar a produção de vinhos com o turismo; para ser mais preciso: vivem de paredes meias.
A prova provada do que afirmo está nesta imagem tirada dum hotel de Sanxenxo há precisamente um ano.
E nós por cá? – Perguntarão.
Há um ano atrás, ainda influenciado pelo galego, escrevia mais ou menos isto no Noticias de Bustos:
...
“ Chão que deu uvas
Depois duma curta mas frutuosa viagem à região vinhateira galega, um conhecido vitivinicultor bairradino nas horas vagas retoma produção do famoso Bical e Maria Gomes!
Fruto dessa viagem e das influências movidas, o vinhedo da família, sito no Portiño - Mama Rosa, está em vias de ser recuperado com o apoio do FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional), da Xunta de Bustos e do Axuntamento de Olivera do Barrio!
Este feliz desenlace só foi possível porque o Departamento de Turismo Rural e da Defesa do Património Agrícola e Cultural do Ejecutivo Municipal fez questão em cumprir - conferindo-lhe prioridade máxima - uma promessa eleitoral que vinha sendo mantida no mais absoluto sigilo.
Na realidade, o Departamento faz questão em pôr a região vinhateira da Bairrada Norte no mapa turístico e promocional do Pais, da Europa e arredores.
O novo ejecutivo contratou já uma poderosa e cativante campanha promocional, que ocupará tudo o que é outdoors nacionais e circunvizinhos, sob o lema “ALLBAIRRO”.
Segundo as próprias palavras da responsável pelo pelouro, “o nosso objectivo é articular de forma bem oportuna o sequioso mercado inglês com as nossas RAÍZES, neste caso as reportadas à presença árabe na região, presença essa que, infelizmente e para mal dos nossos pecados, foi desbaratada pelo conhecido etarra que dá pelo nome de Afonso Henriques, de alcunha “O Conquistador”.
A população concelhia promete festa da rija na inauguração da FIACOBA, que este ano irá decorrer nas moderníssimas instalações do Pavilhão das Feiras e Congressos, na Zona Industrial de Vila Verde, desde logo pela mais-valia que representa uma promoção forte e aguerrida do melhor fruto da nossa terra - os vinhos brancos, sobretudo os da matriz Bical e Maria Gomes.
Poderemos já adiantar que, com a promoção de tão auspicioso evento, a rentabilização dos custos de investimento do gigantesco pavilhão das feiras (e também dos muitos congressos que se adivinham) fica garantida a curto prazo, pois passarão a realizar-se anualmente e com efeitos a partir do próximo ano, as I Xornadas Gastronómicas do Viño, do Lechon, do Rojon da Tripa e do Pao, as quais irão ter lugar na Zona Industrial de Villa Verde, de 27 do Xullo ó 31 de Agosto de 2008.
Vai ser uma festa!
É o muito que vos conta o oscardebustos“
...
À pergunta lá de cima, respondo eu:
- Nós por cá vamos bem, muito obrigado.
A prova provada do que afirmo está neste cartaz que vos deixo…
Em Agosto de 2007 passei uns dias na Galiza, que é já ali. E como queria ver de perto a cultura dos bivalves, fui ao Grove (em rigor, O Grove ou Ogrove) dar uma volta nos barcos de casco panorâmico. A ria de Arouca está infestada de plataformas flutuantes, chamadas "bateas de mexillón", que ali foram introduzidas a partir de 1946 por empresários catalães. Cada batea leva cerca de 500 cordas, que podem ir até aos 12m de profundidade, cordas essas onde o mexilhão pequeno - a par doutros bivalves - começa por ser preso depois de metido numa rede biodegradável. Ao fim de 7/8 dias o mexilhão larga aquele pêlo que lhe conhecemos e com o qual se agarra à corda. Em média, é recolhido para consumo ao fim de quase 2 anos tal como acontece com a ostra; as vieiras são mais precoces, bastando um ano para acabarem à nossa mesa. Durante o passeio de barco são-nos servidos os famosos mexillóns, de fácil receita: cozem-se em vinho branco, com louro. O petisco é acompanhado com o Loureiro branco da região de Orense. Os nossos irmãos galegos não brincam em serviço e sabem promover os seus produtos nativos. Chegaram ao ponto de criar para o mexilhão local uma "Denominatión de Orixe Mexillón de Galicia". Aliás, são pelo menos 27 os produtos da Galiza classificados com denominação de origem protegida. Eu disse 27, só na Galiza! E nós por cá? Em 1946, o ditador bafiento que foi Salazar impunha-nos uma vida de miséria franciscana. Para ele, enclausurados é que estávamos bem: nada de estrangeirices e muito menos progresso, não fosse o diabo tecê-las. De Espanha, nem bom vento nem bom casamento... E se a Revolução de Abril acabou com a clausura, já os fundos da então CEE foram mais úteis na compra de Mercedes e de casa nova, tudo ao estilo novo-rico. Já agora, ela que fica aqui tão perto: a ria de Aveiro, serve para quê? Para dar uns passeios de mercantel ou moliceiro e para alguma piscicultura a viver momentos de amargura, deixando o vasto potencial da ria entregue aos mosquitos. E de quem é a culpa? Dos sucessivos governos, pois claro; mas também dos nossos autarcas. E tudo porquê? Porque, bem lá no fundo, continuamos enclausurados por dentro. É por estas e por outras que continuamos a anos-luz dos nossos irmãos galegos. * - Editei alguns textos sobre a Galiza no NB, que podem ler AQUI, ALI e ACOLÁLEM.
- E já fui pescador semi-profissional de robalo na boca da barra; de barquito, pois claro.