domingo, 31 de janeiro de 2016

Regressar às origens

A mal conhecida e envergonhadamente escondida história do movimento macknovista continua a perseguir-me, sempre pela positiva.
Vale a pena, vale mesmo a pena, lembrar um pouco da sua fantástica história:

Nestor Ivanovich Mackno nasceu na Ucrânia em 1888. Azar dele, tendo em conta que no decorrer a 2ª grande guerra (1939/45) muitos ucranianos - demasiados ucranianos - traíram a pátria soviética na justa luta contra Hitler, pondo-se ao lado dessa nojeira que foi o nazismo.
A partir de julho de 1918, Mackno passou a liderar um poderoso exército de matriz anarquista que se opôs ferozmente ao bolchevismo vermelho dos primeiros anos da revolução russa. 
Não fica mal lembrar que, antes, Mackno começou por se opor ao anticomunista exército branco que defendia o regresso ao czarismo. 
Nem branco, nem vermelho, o numeroso exército macknovista adoptou o preto, cor de eleição de qualquer anarquista que se preze.

Em maio de 1923, o anarquista russo Voline prefaciou este fantástico livro da autoria de Piotr Archinov.
O movimento macknovista foi - e passo a citar o autor do prefácio deste livro que guardo religiosamente desde 1976 - “produzido pura e unicamente pelas camadas mais baixas das massas populares, estranhas a toda a pretensão de esplendor, de dominação e de glória…
Desenrolando-se, quase sem intervalos, em condições de luta armada incrivelmente tenazes e penosas; rodeado de todas as partes de inimigos; com poucos adeptos fora das esferas não trabalhadoras; combatido sem quartel pelo partido dominante…tendo perdido, pelo menos, 90 por cento dos seus melhores participantes…o movimento deixou poucos documentos vivos.

Ao slogan bolchevista “a terra a quem a trabalha”, Mackno contrapunha um slogan muito do meu gosto: a terra é de quem a trabalha!
Se não for assim, com que alma vamos buscar forças para defender as nossas raízes?
Sem raízes nossas, plantadas por nós nas terras que nos viram nascer, sem essa matéria-prima, donde vamos alimentar a seiva que nos fortalece?
*
Em 1976, regressado da puta da guerra colonial há um par de anos, abracei de alma e coração o anarquismo puro e duro.
- É dele que guardo os restos que ilustram este blogue, aqui ao lado, na barra direita.
- Herdei dele o “cão que não conhece dono”, que o maldito vírus pirateou e agora não está lá mas há-de voltar.
- Dele herdei o contra senso da minha 1ª grande guerra, onde fiz tudo o que um verdadeiro anarquista odeia: a guerra, sem medo, por sinal armado em herói estúpido, de peito feito às balas, que a morte não era com o alferes miliciano ranger que eu exercitei, nem com os meus bravos, que um dia jurei trazer a todos, bons do corpo, mas abalados da alma.
- Por excelência, dele herdei o contraponto do Léo Ferré: "dans le coktail molotov il faut metre du martini, mom petit".
- No meio desta caldeirada de senso e de falta dele, também dele herdei uma certa imagem do torreão da ABC de Bustos, imagem retratada AQUI.

O Serginho, de sua graça Sérgio Micaelo Ferreira, bustuense de gema e agora a modos que retirado (atirado?) lá para os confins da serra interior, foi dos que acertou na mouche, me cheirou à distância e me tirou a preceito as medidas do fato que o Ti Adriano alfaiate da nossa juventude me fazia da raíz do tecido, quando anunciei pomposamente a criação do meu blogue pessoal e intimista. À data (6/8/2008), o Serginho saiu-se com esta posta.

Vê lá mas é se apareces, ó trânsfuga, que está por fazer a verdadeira revolução, a tal que ficou na gaveta quando o 25 de Abril saiu à rua!
Ou pensas que mudou o que de mais importante havia para mudar?
A mim parece-me que faz falta mudar as mentes e tantos usos e costumes do reino. 
Feita a mudança, é fácil acabar ou reduzir ao mínimo a podridão dos interesses instalados, do poder da manjedoura, dos compadrios, dos favores e da corrupção à fartazana?
Pensarás tu que tendo mudado de burro mudaste de moleiro?
Se pensas, estou como diz o povo: estás muito mal enganado!
_____
P.S. (salvo seja): do meu anarco-sindicalismo, até acabar no Mackno, disse muito AQUI.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Linhas de força

 
 
*
- António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, foi professor de físico-químicas.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Quando os filhos nos pertenciam - IV

Antes de voltar um dia destes para o paraíso em Unhais da Serra (H2Otel), voltei a revolver milhares de papéis, à procura eu sei bem de quê.

Voltei a encontrar preciosidades como esta, que irei publicando – cá, lá e pelo caminho – agora que o novo portátil parece estar a encarreirar, graças a um russo chamado Kaspersky. Benditos comunistas, apetece dizer.

No âmago das nossas vidas interiores, a tradição ainda é o que era:


Em contraponto, nas vidas do mundo geopolítico contemporâneo, a tradição deixou há muito de ser o que era.

Por cá, como quem assobia para o lado, os velhos do Restelo continuam a conduzir em contramão.
E não há meio de se irem embora!
É por causa deles que os nossos filhos emigram, não é filhota?
Até tu foste debandada para uma outra batalha em Waterloo, onde agora vives uma nova vida!

Se ainda estivesse na puta da guerra, desta vez (quem sabe?) não faria centenas de prisioneiros.

A ver se me percebem, embora eu seja muito de entrelinhas, subliminar
Isto anda tudo ligado.
Até as memórias da meninice dos meus filhotes, que são três, que foi a conta que Deus fez…

Fim de citações.

domingo, 8 de novembro de 2015

Guardiões dos Sabores: a tradição ainda é o que era

Como vem sendo dos usos, os Guardiões dos Sabores voltaram a reunir em Assembleia Geral, cuja ordem de trabalhos foi a degustação dos sabores dos nossos avós e aproveitar para fazer o ponto da situação da gastronomia que defendemos e cultivamos, tudo enquanto íamos degustando ou alambazando-nos à grande e à portuguesa com a cozinha tradicional.
Desta vez, o local do creme foi a acolhedora moradia da Zélia Canão/Carlos Leite, ali na Picada de Bustos. Presentes os guardiãos/guardiões: Fernando Silva, Joãozito Oliveira, Manuel Nunes, Carlos Leite, Adélio Reis, Milton Costa, Manuel Agostinho (secretário e redator das atas e futuro 1º ministro do reino dos sabores) e este vosso humilde escriba, Óscar Santos.
Faltaram, por motivos alheios à sua vontade - como usam dizer os políticos quando fazem borrada e saem de cena - os guardiãos António Romão, Rui Barata e João Libório.
Como vem sendo hábito naquele poiso, fomos recebidos principescamente.
A Zélia e o Carlos levam o esmero ao extremo, com recurso a uma equipa de verdadeiros gourmets: o cunhado do Carlos, Fernando Pinto e a sua consorte e irmã do Carlos, Conceição Leite, vindos expressamente de Oliveira de Azeméis, tal como de lá veio a deliciosa vitela, sacrificada no forno a lenha existente no bonito anexo dedicado aos bons comeres e beberes em grupo.
A Alexandra, que vive em Bustos, veio dar uma mãozinha, porque nunca somos demais para continuar o Portugal gastronómico.Tudo sob a batuta e interação da Zélia.
A Conceição (ao centro, na foto) é uma exímia cozinheira. As suas batatas salteadas, enriquecidas com alho, orégãos e o azeite dos usos, bem como os pipis estufados, caíram no céu daquelas bocas já de si esmeradas e exigentes. Até um bom queijo da serra a desfazer-se no palato ajudou ao preâmbulo do festim.
Não pensem que as delícias da terra (as do mar não fazem cá falta) se ficaram por aqui:
O mulherio, com a ajuda e permanente atenção do Fernando Pinto, submeteu ao lento crivo do forno a lenha 3 travessas de barro (houve uma 4ª, que não identifiquei), com a compositura que passo a factualizar:

- Uma, de robalo médio (300/400gr, diz o escriba, que já foi rei na matéria), recheado com pimentos vermelhos e verdes [a variedade é essencial, confidenciou-me a Conceição do alto do seu saber], a que acresceu bacon, orégãos e, desconfio, outros ingredientes que ficaram no segredo da deusa.
Para evitar o derrame do recheio, os robalos foram esventrados pelo dorso lateral, após o que foram fechados com palitos, tudo para evitar escorrências.
Na travessa de barro, os famosos e injustiçados robalos assentaram numa “cama” de vinho branco, azeite, cebola, tomate e salsa, cama essa que não se quer muito gorda, frisou a mestra.
Uma delícia! - rejubilaram os confrades, enquanto iam falando mal da política e bem das mulheres.

- As outras duas, deram guarida à tenra vitela trazida de Vale de Cambra, dos pastos dos lavradores locais que lá vão resistindo à crise, bom grado os esforços da ministra Cristas, agora em fim de ciclo.
Chegados aqui, avancemos para o esmerado tempero com que o jovem bovino foi regado.
Tudo vos relatarei até ao ínfimo pormenor, ó crentes e incréus, salvo aqueles segredinhos que os experts e chefs não gostam de revelar, seja aos crentes, seja aos ateus, agnósticos, ou mesmo aos da opus dei ou da maçonaria, seja qual for a loja em que aventalam:
Ele é alho, cebola, louro, sal, pimenta, uma malagueta de piri-piri, vinho branco e até um poucochinho de água, não vá a carne morrer à sede.
Outra delícia! - voltaram a rejubilar os confrades, enquanto se iam repetindo a falar mal da política e bem das mulheres.
Não registei o pedigree dos excelentes tintos e espumantes, que o tempo não deu para tudo, pois tive de me dividir entre a heurística da cozinha e a hermenêutica da farta mesa. E ainda tive de fazer de fotógrafo de serviço.

Mas dei nota das sobremesas, ainda que não sejam o meu forte:
Pudim caseiro (nada de fudim plan), pão-de-ló de Ovar, bolo de chocolate com café e ainda natas do céu regadas com ovos moles. Tudo matéria prima confecionada pelas mãos de fada da nossa Senhora da Conceição.
Mas que delícia! – rejubilaram de novo os confrades, enquanto insistiam em falar mal da política e bem das mulheres.

Para fechar o repasto, só faltou a Ana Sofia, filha da casa, brindar os convivas com uns acordes de flauta transversal em que é exímia, ela que integra a Banda da Mamarrosa. Fica para a próxima, se e quando a timidez se for embora.
Entretanto e como é da praxe, o secretário Agostinho lavrou a acta, que divulgarei na página do facebook dos GS, pois, ao contrário dos políticos e outros beneficiários da manjedoura, a malta não tem nada a esconder aos portugueses.
Como mandam os códigos, depois de lida e achada conforme, foi a acta assinada por todos.

São encontros destes que nos fazem esquecer que o país está de tanga para tantos e generoso demais para uns poucos.
Bem vistas as coisas, trata-se de contribuir para a recuperação, preservação e divulgação da cozinha tradicional portuguesa.
O governo - este e o que vem aí - podem cair. Os Guardiãos dos Sabores manter-se-ão de pedra e cal, que é como quem diz, de carne e peixe! 

Óscar Santos

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os pontos nos is

Defendo com unhas e dentes a formação dum governo do PS com o apoio parlamentar do BE e do PC. A grande maioria dos cidadãos e cidadãs está farta de perceber que têm sido sempre os mesmos a pagar a crise.
Salta à vista que a solução tradicional tem sido a de depauperar a classe média e baixa, cortando nos salários e pensões e na prestação de serviços públicos essenciais. Sem dinheiro nas mãos da maioria e a sua concentração nas dos especuladores e grandes bancos ou sindicatos bancários, tutelados pelas agências de rating, o crescimento da economia nunca passará da cepa torta.
Lá no fundo, toda a gente aspira por uma mudança radical, nem que seja pela novidade. Bem no nosso íntimo, todos reconhecemos que a 1ª vez é muito saborosa. Alguma vez tinha de acontecer.
Posto isto, 
Impõe-se dar nota de alguns constrangimentos que importa não escamotear:
1º - O António Costa tomou de assalto o PS. A sua eleição como líder do partido assentou na novidade de eleições primárias, às quais foram admitidos a votar não só os militantes, mas também essa massa informe dos putativos simpatizantes.
O desafiante A. Costa cilindrou António José Seguro pela simples razão de que os seus apoiantes e apaniguados correram seca e meca para arrebanhar o voto de muita gente espúria (incluindo do PSD e CDS), a quem foi sugerido o voto no pretendente ao trono. Sem precisar de sair do nosso concelho, posso afiançar que se contam por muitas dezenas os exemplos de votos assim arrebanhados. Se isto não tresandou a chapelada, vou ali e já venho...
2º - Para as expectativas que criou, A. Costa levou pouco menos que uma banhada nas eleições legislativas de 4/10.
Se o anterior líder – o muito íntegro Tozé Seguro – foi apeado por ter ganho as europeias de 2014 por “poucochinho” (o PS obteve 31,6% e o PSD/CDS 27,71%, ou seja + 3,89%), certo é que Costa não só não obteve a almejada maioria absoluta, com ainda perdeu perante a coligação do PSD/CDS (38,36% contra 32,31%, ou seja, menos 6,05%).
3º - Provavelmente, A. Costa não arriscaria um governo à esquerda se o pior Presidente da República que o país já conheceu não estivesse em final de mandato. 
A razão é simples: o art.º 72º, n.º 1, da Constituição (CR), impede o Presidente de dissolver a Assembleia da República no último semestre do seu mandato, o qual termina a 9/3/2016.
4º - Para brigada do reumático, já nos chega a que se perfilou aos pés da ditadura em fim se ciclo quando faltavam escassos 2 meses para a ditadura cair às mãos dos Capitães de Abril.
[Os brigadeiros, certamente a entoar o hino da Maria da Fonte, que vale a pena ouvir AQUI]

Constrangimentos à parte, é incontornável a legitimidade do PS para formar governo “tendo em conta os resultados eleitorais”, como reza o art.º 187º, n.º 1, da CR.
Legitimidade acrescida porque o país precisa de mais atenção e respeito pelos valores constitucionalmente consagrados da segurança social e da solidariedade, da saúde, da educação, da cultura e ciência e do ensino.
  Valores que, com raras exceções, foram tratados pela coligação de direita como quem faz contas de merceeiro, sem ofensa para os ditos.
 
[extraído, com a devida vénia, de http://campus-cartoons.blogspot.pt/]

Venha de lá mas é o governo de esquerda, na esperança de nos trazer mais equidade e moralidade do que a apregoada nos discursos pré e pós eleitorais.
  Ele alguma vez tinha de acontecer!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Arte tumular - Cemitério de Bustos (1884)

Refugiados de guerra em Portugal

A Europa vive o maior fluxo de refugiados desde a 2ª Grande Guerra (1939/45).
O novo ciclo de guerra e destruição que afeta a Síria e outros países islâmicos vítimas de movimentos extremistas conduziu a uma fuga sem precedentes das populações afetadas, com destino aos países da União Europeia, em especial Alemanha. A história tem destas ironias…
Este novo fluxo de refugiados merece uma reflexão ponderada, humanista e de matriz solidária, agora que, aqui e ali, se vão ouvindo algumas vozes contra o seu acolhimento.
Já agora: se acolhermos os 4.593 refugiados previstos e tendo em conta as 3.092 freguesias que sobraram depois da controversa reforma administrativa de 2013, teremos qualquer coisa como 1,5 pessoas por freguesia.
Ora gaita! Bom grado o milagre económico que agora termina o seu ciclo, não chega - nem para aí caminha - para reanimar o depauperado comércio de Bustos.
Um pouco de história

Como diria a grande poetisa Sophia de Mello Breyner Andressen, “vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”. 
Daí fazer todo o sentido lembrar o que aconteceu em Portugal antes e durante a II Grande Guerra com a chegada do nazismo à Alemanha de Hitler.
 A vaga de refugiados a Portugal, então ferozmente dominado pelo ditador Salazar, decorreu entre 1933 e 1945 e foi resultado da nazificação da Alemanha e da invasão e ocupação da maior parte dos países europeus, sobretudo França e Países Baixos.
As estimativas apontam para cima de 100.000 refugiados que entraram nesse período, a grande maioria de passagem para países de destino final, sobretudo Estados Unidos. Só entre junho de 1940 e maio de 1941 foram cerca de 40.000.
Com Lisboa e a linha de Cascais congestionadas desses fugitivos em busca de paz e liberdade, a partir de 1942 o regime passou a encaminha-los para “residências fixas” em zonas termais ou de veraneio, nas Caldas da Rainha, Ericeira, Curia e Figueira da Foz,
Claro que a imposição dum tal regime de residência se deveu ao receio daquela estranha e variada gente poder subverter a moral e os bons costumes que o tirano achava adequados ao país miserável que governava com punho de ferro.
Como nos conta o historiador João Serra, citado AQUI, “Os refugiados fugiam de uma ditadura para uma outra, em Portugal, que não cultivava o anti-semitismo”.
De forma a percebermos melhor o drama desses cidadãos, leia-se este texto de apresentação da obra de Irene Pimentel “Judeus em Portugal durante a II Guerra”:
Havia gente de todas as condições sociais e a grande maioria foi em situação de puro desespero que aqui chegou: sem meios, sem roupa, com fome, depois de vencer dificuldades tremendas para percorrer a distância que os separava da fronteira terrestre de Portugal.
Curiosamente e tal como parece ser o presente caso de grande número dos refugiados sírios, os fugitivos de então pertenciam à classe média, alta e até à aristocracia.

Ontem, como hoje, o acolhimento de refugiados não só revela a solidariedade entre os povos, como atesta o seu grau de cidadania.
E já agora que se escreve e discursa tanto sobre ela, chamo à colação o n.º 1 do seu art.º 7º:
Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.
Reporto-me à Constituição da República, de que agora tanto se escreve e fala nas comunicações ao país.

sábado, 31 de outubro de 2015

A demanda dos dinossauros

Imagine que:
O CDS não existe.
Bom grado ter governado em maioria absoluta e propalar aos sete ventos que as rigorosas metas orçamentais foram cumpridas, a coligação PS/PSD perde estrondosamente as eleições para a esquerda. 
Exaurido e em coma profundo, resultado de 4 anos de austeridade à bruta, o país votou pela mudança. Esquecida a escandaleira dos desastrosos resultados duma tradição feita traição, os portugueses recuperam a saúde física e mental. 
Inevitavelmente, a despesa pública vem por aí abaixo, para o que muito contribuiu a poupança no SNS.
Como por encanto, o país anima com a inusitada recuperação do investimento e o aumento dos postos de trabalho. Afastados os velhos do Restelo, a receita dispara, bem alavancada pelo aumento das exportações e por um bem controlado aumento do consumo interno, que aforrar também é preciso.
Investidores e banqueiros rejubilam. São rosas, Senhor! – proclamam, enquanto a procissão regressa ao futuro.
Atordoado pela reviravolta do processo histórico, o tio Karl Marx salta da campa e decide ir acampar para os lados da Lourinhã, em busca dos dinossauros perdidos. 
Com ele, o inseparável amigo Frederich.
Sem surpresa, dão de caras com a matriz da sua demanda.
Enquanto o diabo esfrega um olho, o país vê erguido o maior museu do mundo de pegadas de dinossauros e outros achados arqueológicos.
E lá vamos todos depois da festa do Avante, a galopim, galopim.
Antes que se faça tarde e o comentador/candidato (que também veio de lá) chegue 1º.
___
- Desenho adaptado, com a devida vénia, daqui.
- Galopim de Carvalho, conhecido como o avô dos dinossauros.

domingo, 25 de outubro de 2015

Outra vez a 1ª vez

É o que estou a viver, confesso e as razões são três:
1ª – Nunca estive tanto tempo em férias sabáticas do meu jornalinho de parede. Sabia que tinha de voltar e aqui estou de novo, cerca de ano e meio depois.
2ª – Porque “como em quase todas as coisas da vida, a 1ª vez é muito saborosa. Alguma vez tinha de acontecer”.
As palavras são dum treinador de futebol, em êxtase por ter ido ganhar à Luz, desfecho que espero não se repita hoje. Citei-o aqui, já lá vão 6 anos e meio.
3ª – Porque António Costa anuncia um acordo à esquerda, fugindo à tradição de serem sempre os mesmos a governar.
Aquando da vitória dos partidos da direita em 2011, o líder do partido mais votado anunciou que o acordo de governo com o CDS só seria conhecido após a nomeação do mesmo.
Agora, exigem que o acordo PS/BE/PCP seja conhecido já.
Contra a corrente da esquerda, sou dos que pensam assim. Em 2011, como hoje, PSD e CDS eram “farinha do mesmo saco”. Em contraponto, analisados os programas eleitorais dos 3 partidos da esquerda representados na Assembleia da República, há muito a dividi-los e a campanha eleitoral foi reflexo disso mesmo.
Venha de lá o raio do acordo pré-governativo, que eu estou em pulgas! 
Afinal, quem não desejaria viver outra vez a 1ª vez?
Ninguém vos está a pedir que se casem, basta que juntem os trapinhos, com tudo preto no branco e que fechem os olhos à sacrossanta NATO, essa coisa que apoquenta tanto os portugueses, a ponto de não os deixar dormir. Pelo caminho, não vinha mal ao mundo se engolissem alguns sapos vivos.
Entretanto, do acordo pouco ou nada se sabe.
Espera-se que a vontade do líder do PS vá além desta imagem aqui repetida:

Espera-se, sobretudo, que nos livrem duma austeridade que serviu para aumentar o índice da pobreza, à custa do enriquecimento dos grandes interesses económicos e financeiros.
Bem vistas as coisas é pouco o que o país real quer e deseja: justiça e moralidade.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Contigo


Sou eu, sou eu que não durmo,
contigo nos sentidos.
Sinto-me caminhar sobre as águas
do meu corpo - não sejas queimadura
nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.


- Poema: Contigo / O outro nome da terra, Obras de Eugénio de Andrade/20, Edição Limiar, outubro, 1988.
- Quadro: La Vénus d´Addis Adèba, colagem de Nuno Aromidochu Aires, consultável aqui.

domingo, 6 de julho de 2014

Literatura de combate

Quando a 10 de Junho de 1972 embarquei no boeing militar que me levou até Angola, seguiam numa mala do porão alguns livros das minhas referências.
À mistura, ia uma garrafa da melhor bagaceira que o meu saudoso pai produziu, num tempo eu que eu já o ajudava à missa dos brancos e dos saborosos tintos de meia curtimenta ou bica quase aberta.
A emalada mistura deu bronca: 
Talvez por se ter tomado de amores pelos livrinhos, o bagaço foi-se a eles, derramou-se em cima dos ditos (por debaixo é que não ficou, senão o resultado seria diferente), possuiu-os à fartazana.
Tal orgasmo tinha de dar nisto…
O Frederico, coitado, ficou neste estado...
O bagaço quis lá saber de "A Origem da Família, da Propriedade e do Estado".

Nada fazia prever este derramado destino quando comprei o perigoso livro em Setembro de 1971, na Livraria-Papelaria Elo, sita à rua José Maria da Costa, 40, em Mafra, onde os oficiais milicianos aprendiam a matar.
Agora que vai sendo tempo de registar a verdade histórica, ficam estas perguntas para o Santos, Alferes Miliciano de Operações Especiais:
1ª - Foi para isto que o regime investiu na formação dum garboso e, por sinal, bem apessoado oficial miliciano de infantaria, o qual – ainda por cima - foi a correr uns meses depois para Lamego, tomado de amores pelas Operações Especiais?
2ª - Atão foi a partir deste barro que te fabricaram no Centro de Instrução de Operações Especiais, ó ranger de meia tigela?
3ª - Que raio de explosiva paixoneta ligaria a tua amada G3 e o erótico cinturão de granadas e cartucheiras de 80 munições 7,62mm (fora as que levavas no saco), por exemplo:
- às “Citações do presidente Mao Tsé-tung”, que nunca leste e estavas cheio de razão, que o tipo não prestava para nada, dava-se a luxos burgueses, tinha maus hábitos de consumo e, ainda por cima, era um imoral: soube-se quando morreu que “comia” criancinhas às escondidas do povo, em vez de o fazer à vista de todos e de forma regrada, ao pequeno almoço, apanágio do verdadeiro comunista?
- e ao “Resumo”, do J.C. Ary dos Santos, comprado em 2 de junho de 1972, por uns míseros 35$00, no distribuidor Abegão, sito à Rua Gonçalves Zarco, 3 – Telef. 26624, em Coimbra?
- e ao “Provavelmente Alegria”, do improvável poeta José Saramago, comprado por 40$00 algures em Lisboa, em Fevereiro de 70?
- e à “antologia / poética I” do Nicolas Guillen, comprado com desconto para os sócios que, como tu, aderiram à antifascista UNITAS – Cooperativa Académica de Consumo, SCRL, com sede na subversiva livraria da Rua da Sofia, 73-2º, Telef. 27743, Coimbra?
- e aos “poemas” do Bertolt Brecht, comprado no mesmo sítio e condições, mas em Março de 1972?
- o mesmo dizendo dos “poemas políticos” do Paul Eluard, com prefácio do Louis Aragon, desta vez em 2 de Junho de 1972?
4ª - Que tara foi essa que te deu, ó meu, estavas tu a 8 dias de embarcar na defesa da ditosa Pátria que tais filhos tem?
- Só para te lembrar, que a História não perdoa: até o teu sogro, alentejano da classe média alta e que até gostava muito de ti, não se continha e chamava-te “bolchevista”!
Não contente:
5ª - Mal puseste os pés no sagrado chão africano e os olhos numa reluzente e fogosa funcionária do Casão Militar de Luanda [sim, nesse vulcão sempre em chamas, ou já te esqueceste!] e logo te arrimaste…
- aos “Poemas” do MAIAKOVSKI/Маяко́вский, comprados em Maio de 73, nas indústrias ABC, SARL, Telef. 23543, na linda e sedutora Luanda?
Parece que deixaste por Bustos outros livros, a quem disseste adeus até ao meu regresso. Por cá ficaram, à espera da tua retoma.
6ª – Retoma que te levou até ao anarco-sindicalismo, ao Trotsky e à Rosa Luxemburgo! 
7ª – Como se não bastasse, estragaste tudo quando te apaixonaste pela Alexandra Kollontai (A oposição operária 1920 – 1921) e, por fim, te perdeste de amores pela "História do Movimento Macknovista (A insurreição dos camponeses da Ucrânia)", do Archinov, movimentos supostamente contra-revolucionários que acabaram esmagados, sem dó nem piedade, pelo regime soviético.
Valha-nos uma coisa:
8ª - Extinto o vulcão revolucionário do pós 25 de Abril, acabaste por descobrir que, afinal, o único sol que alumia é aquele que teima em se esconder neste alvorecer do princípio de verão.

Como tudo tem um fim, 
a desilusão morreu uns anos depois do “che guevara”, livro de bolso em inglês, que o amigo Hilário Costa (filho), trouxe dos USA em Setembro de 72, quando vieste de férias ao Puto ver a filhota de 6 meses e a demais família.
Afinal, o herói maior, o quase deus da nossa juventude, fartou-se de limpar o cebo a camaradas que ousavam fazer-lhe frente! 
Rais parta a revolução e a libertação dos povos que nunca chegam a ser verdadeiramente livres!

Para responder a tanta mágoa a ensombrar a história das nossas vidas, só mesmo uns
blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
[ler o resto do poema, AQUI]
 *
______
- Poema de Vasco Graça Moura - ”Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa, Fev. de 2002.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O QUE ME VALE


O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon 
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com 
plicações viva aragon
morram as repartições
*
- Manuel António Pina / Poesia Reunida / As Pessoas e Outros Poemas de Clóvis da Silva / pág. 46 / Ed. da Assírio & Alvim.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Quando os netos ainda nos pertencem - I

Nem de propósito: ontem recebi um convite fantástico, ademais na auspiciosa e invicta cidade do Porto, onde tinha estado na véspera a viver outra não menos auspiciosa noite:
Fui convidado pela filhota Ana Luísa que já não me pertence, para assistir à consagração do meu neto mais velho, Romeu Lourenço, que ainda me pertence, mas que por este andar vai voar cedo com as aves.
Nem mais: o Romeu foi laureado com o 1º Prémio, Categoria C (menores de 13 anos), de viola clássica, no 16º Concurso Internacional Santa Cecília.
[O Romeu Velez de Rodrigues Aires Lourenço é o 1º da lista da direita]


Embora mantendo aquele low profile com que disfarço as emoções fortes - e cuja técnica aprendi num sítio que agora não digo, mas nunca se esquece até morrer longe da praia - foi cheio de orgulho que assisti durante a tarde de ontem ao Concerto dos Laureados, cujo evento teve lugar na Fundação Eng.º António de Almeida.

Não se apressem a pensar que o prémio foi obra do acaso. É o 5º concurso a que o meu neto se apresenta e, em todos, conquistou o 1º lugar do escalão, o que até aconteceu no concurso do Fundão, supostamente o de mais nomeada. E já pensa em concorrer no estrangeiro.
Está na cara: o meu neto mais velho é um excelente músico, um grande artista!
Sai ao avô materno, também ele um músico e verdadeiro artista.

Já o irmão Vicente, o Vi, pode gostar muito deste avô, mas a veia que deixa transparecer não bebeu das berças do meu ADN.
Vejam só:
Num ápice, assim como quem não quer a coisa, impingiu-me duas pulseirecas feitas de pequenas anilhas de plástico, pela módica quantia de 20€. A custo, lá me deu + uma de bónus.
E fez o mesmo ao avô Lourenço, matando logo dois coelhos com a mesma cajadada. Tudo sem descontos prá família, vendendo ao mesmo preço que pratica nos cafés ali ao redor.
Que despudor!
Ainda chega a ministro da economia, este simpático mas mercantilista neto.
O que também me deixará muito feliz.
Desde que não seja dum governo como este! 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A excepção à regra

Pela madrugada, após uma noite bem dormida, acordei na paz do Senhor.
Eis senão quando, 
(caso nunca visto!)
sem que tivesse de sair da amostra que mantenho no quarto
da minha modesta livraria, 
ali mesmo, bem à mão de semear, 
descubro esta pérola da poesia portuguesa!


Respigo, muito à pressa, este

Agora é

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor   agora
isto vai devagar
isto agora demora

______
- Caso excepcionalmente raro [daí a excepção do título], o livro não está datado. Quase de certeza, foi-me oferecido por meu irmão ou cunhada num qualquer dia de anos ou de Natal.

Já sei que destino lhe vou dar.