segunda-feira, 9 de junho de 2014

A excepção à regra

Pela madrugada, após uma noite bem dormida, acordei na paz do Senhor.
Eis senão quando, 
(caso nunca visto!)
sem que tivesse de sair da amostra que mantenho no quarto
da minha modesta livraria, 
ali mesmo, bem à mão de semear, 
descubro esta pérola da poesia portuguesa!


Respigo, muito à pressa, este

Agora é

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor   agora
isto vai devagar
isto agora demora

______
- Caso excepcionalmente raro [daí a excepção do título], o livro não está datado. Quase de certeza, foi-me oferecido por meu irmão ou cunhada num qualquer dia de anos ou de Natal.

Já sei que destino lhe vou dar.

Quando os filhos nos pertenciam - III

Claro que o meu filhote (da 3ª cama, a bem dizer) também tinha destas coisas de miúdo...

Como diria o meu Eugénio de Andrade [Os amantes sem dinheiro, 1947/49: Poema à mãe]:

"No mais fundo de ti,
Eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O retrato adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
  Era uma vez uma princesa 
  no meio de um laranjal!...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu sai da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves."


____
- O Eugénio de Andrade faz parte dos bibelots da minha mesinha de cabeceira desde que comprei, na Feira do Livro em Aveiro, a sua coletânea de Poesia e Prosa [1940 – 1980], Edição Limiar.
Foi no dia 27/5/84 e era Dia da Mãe. Lembram-se?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Quando os filhos nos pertenciam - II

Com muitos beijinhos da tua Né...[em 19/3/1991]
...

Entretanto,
Em 16/12/1990,
o pai Óscar dedicava-se
à pesca de barco, 
aos cabeçudos 
[robalos de 3/4 ou mais kilos], 
na boca da barra...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Quando os filhos nos pertenciam

Antes de vir para este paraíso em Unhais da Serra (H2Otel), revolvi milhares de papéis à procura não sei bem de quê.

Encontrei preciosidades como esta, que espero conseguir publicar, agora que o portátil parece estar a encarreirar

Grande imaginação, esta a da filhota mais nova, a Né, então com 11 anos iniciados há pouco.

Claro que o filhote ainda não estava nos planos de pormenor.

Só um pai empedernido resistiria à mensagem, a qual, parecendo muito linear, entra no domínio do subliminar: a filhota quis ali dizer muito mais do que aquilo que disse.

Por falar em filhos, ide até AQUI, se faz favor, enquanto queimo os últimos cartuchos, neste paraíso onde parece que ainda há druídas celtas.
Pena minha: feiticeiras que curam males é que não vi nenhuma.
Também não admira.

Fica para a próxima.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A vida é uma chachada quando eles não enfrentam a verdade

Há duas coisas de que me reclamo, seja como o eu daqui, seja como o alterego rangerfurão, seja como o outro alterego oscardoface:
1ª - Não sou mentiroso, apesar de ser advogado, por sinal muito popular;
2ª - Não sou a voz do dono, antes sou como o cão que não conhece dono, como o atesta a 1ª referência da barra superior direita deste jornalito de parede.

Ainda por cima, fartei-me de avisar, aqui e na porra do facebook.
Resultado: toma que já almoçaste!

Desculpem lá qualquer coisinha, mas o que tem que ser tem muita força, como se desculpou o Grande O'Neill, que até - quem diria! - foi casado com uma Grande Senhora, mas que teve o azar de ser ministra do ambiente dum governo dessa nódoa que é o atual Presidente da República, o qual ainda consegue ser pior do que muitos ou alguns de vocês, não sei; só sei que não estou, nunca estive, nem irei aí ao Largo do Rato para vos contar, mesmo que tenha cartão de sócio, uma espécie de senha de entrada no céu a que falta a password.
Em vez de se armarem em vencedores pour épater le bourgeois [enquanto andam a chorar baba e ranho pelos corredores e retretes do partido], aproveitem mas é para digitar o nome O'Neill, na barra superior esquerda ali em cima, a qual é dedicada às buscas, que são uma espécie de "busca, rex, busca, que está ali um coelho inseguro debaixo daquela moiteira!".

E, já agora, enquanto elas estão quentes, aproveitem também para digitar o nome Marinho Pinto na dita busca patusca e vão ver que ela (a busca) é mais do que segura, mesmo que seja o (in)Seguro a digitar!
E digitem também no meu face!!
Digitem cães, digitem, que a busca está cheia de ossos difíceis de roer!
Madraços é no que vocês se tornaram!
Sim, madraços, que nem vagar tiveram para consultar as várias frentes de batalha onde este vosso humilde servo (o tanas, que eu sou cão que não conhece o dono!) derrama a sua juventude. Derramei no passado e continuo a derramar, que um Ranger nunca se rende e muito menos se deixa morrer na praia!

Para terminar:
- Embora goste muito da história muito bonita da Rainha Santa Isabel, relatada na minha 2ª campanha alegre, prefiro dizer-vos...
...Adeus, que se faz tarde e Inês é morta!
_____
- P.S. (salvo seja!): eu bem que procurei pelo meu cartão de sócio para o exibir aqui, mas não dei com ele. Deve estar metido para um canto qualquer dos meus milhares de documentos e outros recuerdos.
Se calhar está no meio dos papéis onde o meu gato anda a mijar, o sacana.
Que se lixe! Cartões há muitos e o único que me falta é o do Benfica, que é mais importante que os da merda da política partidária! 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A vida é uma charada: a verdade (mal) revelada

O prometido é de vidro.
Já sabia que vocês se iam estar nas tintas para o enigma profusamente distribuído no texto de domingo, o que só revela que são tão fingidores como o poeta do Fernando Pessoa: um fingidor/que finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente.
Deu para perceber que vocês, mais do que fingidores, são é uns grandes masoquistas: gritaram ao morto contra todos os cortes do Passos/Portas/Troika, excepto um: os cortes na área da educação e da cultura.

Quanto mais burros, melhor, é o vosso lema. Desde que haja dinheiro para umas bejecas, acompanhadas dumas bifanas aporcalhadas e o IVA da restauração desça para os 2,5%!
Façam como eu: cozinhem em casa e bebam água do poço do aido, em vez duns tintos do Douro que eu cá sei e que são o que de melhor se produz neste vale de lágrimas.
A este propósito:
Eu e o Carlos do Pompeu dos Frangos temos várias divergências insanáveis que nos unem, uma das quais se prende com a obsessão dele sobre o vinho da casta (bairradina) baga: acha-o o melhor do mundo e arredores.
O Carlitos tem dois amores:
1º - O excelente baga,  incluindo em versão espumante, sobretudo a produzida pelas Caves Primavera e a que tenho acesso privilegiado por razões profissionais. Enquanto ele só gosta de vinhos velhos; eu, prefiro-os mais novos.

2º - O Sócrates, a que tive acesso privilegiado num célebre dia de 1994, ainda ele não passava dum obscuro Secretário de Estado do Ambiente.
Ele continua a gostar muito dele; a mim, essa febre já me passou há muito, quando tomei a vacina. Remédio santo.
Esse meu acesso/assédio ao apaixonado pela educação do povo aconteceu quando eu ainda usava o cartão de sócio do clube e assistia a algumas sessões de catequese, trauma que superei sem ter de recorrer a um dos dois psicanalistas da minha eleição:
A Joana Amaral Dias e o Pedro Aleixo, irmão do meu colega e parceiro de escritório, José Manuel Aleixo, os quais até nem são da família do famoso poeta popular António Aleixo, referido na parte final do post de domingo.
*
Seja como for, manda a bondade democrática aceitar que cada um come, bebe e cheira do que gosta.
E se vocês acham que cultura e alta-costura são uma e a mesma coisa, então o problema é mesmo vosso.
A minha solução é ficarmos mesmo por aqui.
Boa noite. Eu vou com as aves. 
____
- A imagem do vinho velho está reportada aqui, até porque tem direitos de autor.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Joaninha boa, boa

A minha Joana resolveu sair de vez do BE e dar um saltito até ao PS, se calhar por pensar que é mais seguro.

Joana, boa Joana, faça como eu: vá saindo, vá mas é saindo.
E se esse seu estado de alma persistir, aconselho-a a sentar-se no divã dum reputado psicanalista lisboeta que a Ana, por razões profissionais, deve certamente conhecer e que eu também conheço, não por razões profissionais, mas por ser irmão do meu colega de escritório, Morais Aleixo.
*
Li há pouco que nasceu em Angola, terra onde não morri porque era proibido morrer.
O mundo é mesmo pequeno. 
E eu com tantas histórias para lhe contar...
___
- P.S. (salvo seja) sobre o título: cá na terra trocamos os "bês" pelos "vês" .

domingo, 18 de maio de 2014

A vida é uma charada

Só nos prega partidas, a vida.
Pior que tudo: quando as partidas se sucedem sucessivamente sem cessar, mais vale Nosso Senhor levar-nos.
Sim, Esse Senhor, mil vezes preferível aos medíocres senhores que querem ser califas no lugar do califa. 

Preferível até a uma qualquer senhora com "s" pequeno, que as Grandes, essas, são vestais do Templo Sagrado e já estão no Olimpo à minha espera.
Se for o tal Grande Senhor, dou por garantido o céu e alguns prémios extra pelo desempenho. Noblesse oblige.
Antevendo a chegada às portas do céu:


Ao ver que sou eu quem ali se apresenta, o guardião Pedro corre, célere voa, entra na tenda da alfândega e anuncia:
- Benvindo, meu bom malandro das crónicas tão conhecidas!
Continuou o Santo Pedro, deixando perceber um sorriso cúmplice e malicioso:
- Deus ordena seres contemplado com as 200 virgens que pediste um dia destes no facebook, porque, no mais fundo de ti, Ele sabe que estás mortinho por te alambazares!



- E podes sentar-te à Sua direita, mas porta-se com juizinho e deixa-te mas é de te armares em cão que não conhece dono!
Cheio daquela coragem à Ranger, mas todo aos tremeliques por dentro e dominado por aquele nervoso miudinho que nos invade e inibe quando é a 1ª vez, respondi:
- Estou farto de comer ração de combate!
- A minha alma está desejosa, o meu coração e a minha carne clamam pelo almejado prémio, porque vale mais um dia neste céu do que em outra parte mil!
- Mas olha que faço questão de me sentar à esquerda Dele, que a direita tem outros donos!



Chegados aqui, perguntarão como é que eu consegui chegar tão alto? 
Às vezes a correr desenfreadamente, a modos que stressado da puta da guerra. 
Outras, devagar, porque devagar se vai ao Citius. 
Bem vistas as coisas, devo tudo à força do hálito, que é como o que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força.
..
Em jeito de epílogo


Neste livro que vos deixo, fica a charada:
A quem pertencem ou a que aludem as citações escritas a cinzento?
Têm 24 horas para responder, sem direito à dilação ou justo impedimento que o Citius prevê.
Se o não fizerem no prazo aludido, ou é porque não sabem - logo, são uns ignorantes, ou porque têm andado distraídos.
O que me levará a concluir que, afinal, vocês não gostam mesmo nada de mim! 
E se for assim, são como um fingidor que eu cá sei!

sábado, 17 de maio de 2014

Gosto muito de deco

- Art Deco: estilo virado para a aplicação decorativa de objetos, misturando a modernidade dos anos 20 e a arte de povos até então mal conhecidos (África, América do Sul).
Foi uma arte aplicada a edifícios, móveis, vidro, joalharia, etc.
É fácil gostar de art deco e todos partilhamos dum sentimento comum: Deco foi uma expressão de verdadeira arte.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A minha campanha alegre

Amanhã de manhã vou passar com o meu trator pela casa do amigo Narciso Cardoso, a ver se trago a capinadeira dele, por empréstimo de fim de semana.
Ficam a saber: a minha campanha eleitoral vai ser à moda do Dr. Paulo Portas, mais conhecido por Paulinho das feiras.
Enquanto aguardo pela próxima Feira do Sobreiro - que é mensal, aos 9 e 22, como muito bem sabe PP - neste fim de semana vou dedicar-me sozinho  à reforma agrária, que sou contra a coletivização dos meios de produção.
Deste modo, quando voltar a reencontrar o Dr. PP na Feira do Sobreiro do próximo dia 22, já lhe posso levar um regaço de tomates fresquinhos do meu quintal, como passo a antever:
...
Vestido de Princesa Santa Isabel, apareço ao caminho do Rei.
O que levais na abada, Isabel? - Ele Me interpela.
E Eu digo: são tomates, Senhor.
E então Ele diz: - Tomates em Maio, mês da Virgem Maria? Não, não pode ser!
E Eu digo: São tomates, meu Senhor.
- Então se são tomates, mostra! [diz o Rei].
E então Eu estendo a abada e o que tinha ali era tudo tomates, que logo rolaram para o chão em direção ao Rei, pela força sobrenatural que o faz atrair tudo.
E então o Rei grita, exultante: - Milagre, milagre!!
Portanto, Ele fica Santo, é o Rei Santo Portas.
E há-de ser canonizado.
...
É uma história muito bonita e que há-de ser muito contada logo que sejam conhecidos os resultados eleitorais das Europeias /2014.
____
- Texto adaptado DAQUI.
- Fonte: BiblioAA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas), Faro, n/a.
- Também guardo muito boas recordações da minha anterior Campanha Alegre, em 2008. Se querem saber, até para comparar, vão AQUI.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O trombone

Vocês já não se lembram do meu encontro com o Necas Caldeira.
Nunca me esqueço: foi numa 2ª feira, 7 de setembro, corria o ano de 2009, como podem conferir AQUI.
Pois não é que ontem voltámos a encontrar-nos? 
- Não para celebrar as 4 viagens dele ao mar dos bacalhaus, para fugir à guerra a que acabou por não resistir, tal foi o cansaço da faina.


- Muito menos para recordar a puta da guerra onde nos cruzámos, algures no norte de Angola, ia eu com os meus bravos ao assalto dum santuário da FNLA na serra da Mucaba, donde regressei de mãos vazias mas com os tomates no sítio.

- O objetivo era outro: tinha que ver com a campanha para as Europeias e o lufa-lufa dos suspeitos do costume.

Para quem não é do Sobreiro ou tem a memória curta, passadas as primeiras desilusões do pós 25 de Abril, o Necas, desiludido com as trapaceirices dos políticos do arco do poder, virou apoiante do Acácio Barreiros, em vias de ser eleito deputado da UDP na Assembleia da República, donde passou a disparar a torto e a direito "contra os ricos e fascistas". 

Está na cara que o meu fito era sondar o Necas, saber o que lhe vai na alma, se ainda tem ganas de voltar a pegar em armas, ou seja e em linguagem  de magarefe (retórica, pois claro), sacar do facalhão e partir para a matança dos porcos.

- É Necas! Ainda te alembras de colares um grande cartaz da UDP na parede nascente da tua casa? Coragem, foi preciso ter coragem, pá! - arrimei-lhe eu, para lhe tirar nabos da púcara.
Resposta pronta:
- Vai-te mas é coçar, ó cão sem dono!
-Tomaras tu que o Acácio que eu conheci ainda pertencesse ao mundo dos vivos!
- Não o Acácio que saltou prós braços do poder, mas o outro, que não calava a voz!

- Ouve lá, retorqui-lhe eu: o Acácio foi mas é um grande músico!
- Pois foi, pois foi! E o que faz falta não é um músico como o teu colega Marinho Pinto, que ponha a boca no trombone e varra esta merda toda? - saiu-se o Necas, enquanto fazia o gesto de quem pega no letal instrumento e o aponta ao inimigo.


- Sorri para mim, exultante pela emboscada perfeita: tinha acabado de apanhar o Necas em plena zona de morte. 
Sem hesitar um segundo, atirei-lhe a matar, bala direitinha ao coração:
- Não me digas que também vais votar nesse franco atirador?

Palavras para quê:
- Corremos para os braços um do outro, de lágrima ao canto do olho, como velhos companheiros que se reencontram no 40º jantar de confraternização de antigos combatentes!

A guerra é assim: faz de nós camaradas de armas para uma vida inteira, malgré tout.

domingo, 11 de maio de 2014

A minha saída limpa esteve por um triz

Parece que foi ontem que a Troika entrou aqui.
Decorridos 3 anos, a malvada foi-se embora e por isso aqui estou de novo, ainda que esmifradinho até ao tutano.
Digo isto só cá para nós que ninguém nos houve, porque, para dar nas vistas, anunciei ao mundo uma saída limpa, à Jorge Jesus na época passada.
Claro que continuo a depender do pãozinho deles para a boca, mas o que é que se espera de quem não tem poços de petróleo no quintal?
Por falar nele: 
(Lândana- norte de Cabinda)

Durante as generosas férias pelas matas de Cabinda (28/12/1973 a 14/2/1974) a malta da minha unidade de intervenção fartou-se de ver petróleo a sair das plataformas offshore. Azar dos azares, aquilo era do amigo americano. 
A nós, militarzitos de capitão para baixo, sobravam os olhos para o deslumbre noturno saído das labaredas libertadas pelos muitos tubos virados ao céu, logo ali a 1/2 milha da costa.
Dizia-se que a fartura era tanta que a Gulf Oil se dava ao luxo de libertar o precioso gás para a camada do ozono.
Na parte da responsabilidade que me cabe pela vinda da Troika, quero-me penitenciar por não ter patrocinado um golpe militar em Cabinda, até porque aquilo não era - nem continua a ser - Angola, quer pela alma das gentes, quer pelo código genético dum povo que até era amigo do Reino.
- No plano militar, teria sido canja para os meus bravos; 
- Economicamente, nos dias de hoje Portugal regurgitaria petrodólares, o que significa que a canzoada da Troika nunca teria cá posto os pés e que Miguéis de Vasconcelos só o de 1640 e mais nenhum; 
- Social e politicamente, seríamos um país sem taxas, mas com muitos tachos; inundado de banqueiros ricos e doutros "ricos"; de mil e uma PPP's e agências para isto e aquilo; de burocracia kafkiana para justificar o pleno emprego; 95% da população viveria de tachos e prebendas e os restantes 5% seriam emigrantes, importados para construir estádios, pistas de fórmula 1, centros comerciais gigantescos, rotundas e milhares, muitos milhares de quilómetros de autoestradas, a última das quais passaria aqui à minha porta, noblesse oblige.
- Eticamente, não haveria culpados, até porque a palavra "CRISE" teria deixado de fazer parte do léxico no novo acordo ortográfico;
- Politicamente, é certo que seríamos mais uma república das bananas, mas daí nunca veio mal ao mundo, que a ética e a honra são conceitos que, esses sim, foram abolidos do tal novo acordo ortográfico.

Infelizmente, 
a realidade foi outra 
e é por isso que 
o Cap. Salgueiro Maia está ali 
à minha porta 
a clamar por mim: 
- Anda mas é daí, 
ó Alferes Santos! 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vidas de muitas guerras e paz tão pouca

Gosto de leituras "entre linhas". De mensagens subliminares.
E assim respondo às interrogações de alguns/algumas amigos(as) sobre o post antecedente.
E gosto muito de poesia, sobretudo do meu Eugénio de Andrade, velho companheiro da mesa de cabeceira, como gosto de vaguear pela "Rosa do Mundo / 2001 Poemas para o futuro", um extenso e abrangente (no tempo e no espaço) trabalho de recolha de poesia feito para o "Porto 2001", Edição Assírio & Alvim.
Este gosto vem-me dos tempos da Coimbra de 1966/69, gosto que procurava conjugar (conciliar?) com a luta contra a ditadura, ali desde a rua estreita onde há cerca de 70 anos vive a Real República Bota Abaixo.

Claro que o poema "Despedida" nada teve ou tem a ver com a porca da política. Porca, por mor dos políticos de manjedoura, sejam eles peixes de águas profundas ou cá mais da beira-água.
Valha a verdade: o meu "padrinho" Sócrates - de quem tanto falei e com quem tanto brinquei e gozei neste blogue - despediu-se do poder com dignidade.
O rapazola que agora lhe tomou o poiso precisa de muito mais coragem para dar a volta ao regabofe em que o país se atolou do que aquela que aparenta revelar.
Desde logo, precisa de se livrar do padrinho de baptismo político. Como precisa de se livrar dos novos padrinhos e da legião de afilhados que não tardarão a bater-lhe à porta a exigir o folar da Páscoa, ansisosos de se tornarem "califas no lugar do califa."

Eu, limito-me a precisar de paz.
E de me ir libertando das muitas guerras que vivi e nas quais fui parte activa; por vezes, demais, armado em guerreiro e líder de Operações Especiais.

Preciso de me ir libertando dessa guerra que me persegue há 39 anos, feitos este mês e que continua alapada ao corpo e à alma, um pouco por culpa do tio Segismundo Freud. Lá me vou entendendo com ela, procurando gerir os diabinhos que me perseguem, brincando com eles.
Sempre, mas sempre, sem esquecer aquele lema: "Ranger uma vez, Ranger toda a vida", razão que julgo me faz manter de pé firme, como que predestinado a não morrer na praia, longe dos combates de que me recuso a fugir ou a deixar matar de morte matada. 

Mas o que mais preciso agora é de me libertar das outras guerras, sobretudo das que se intrometem e vandalizam as nossas vidas pessoais, íntimas e afectivas.

Por isso me soube tão bem aquela tarde inteira de paz que vivi ontem na casa da muito amiga Dina, sita mesmo à beirinha do mar da Costa Nova, logo ali ao atravessar da rua, onde até tempo sobrou para trabalhar.
Preciso de me reencontrar com o mar, paixão que me acompanha e impele dede os primeiros recordares da infância.

É do que estou precisado, segurando na mão esquerda [que a direita tem outros donos] a poesia do Eugénio de Andrade, esse  génio que tão bem soube conjugar a escrita com a terra e com o corpo.
...
Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.
...
___
- 1ª imagem: extraída de "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Notícias Editorial/2000.
- 2ª imagem: pôr do sol na Costa Nova, ontem.
- O poema, esse, saquei-o do XXX capítulo de "As Mãos e os Frutos", de Eugénio de Andrade / Poesia e Prosa [1940 - 1980], Edição Limiar, 2ª edição revista e aumentada.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Despedida

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
__
- Eugénio de Andrade, "Adeus", extraído de Poesia e Prosa (1940 / 1980), Ed. Limiar.
- Retrato do poeta, de Emerenciano (1988), extraído de "O Outro Nome da Terra", Outubro de 1988, Ed. Limiar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Regresso, agora com canção índia

Além desabrochava uma flor.
E essa flor, quando aqui a vejo, essa flor,
agora, ai, tão longe, faz-me chorar.
Essa flor, sempre que a vejo, essa flor,
desabrochava tão fresca:
desabrochava
bela, fresca, amarela.

 

- Poema dos índios de Tewas, América do Norte, extraído de "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro" /  Edição Porto 2001, Assírio & Alvim / 3ª edição, de Agosto de 2001 / Versão de Herberto Helder /pág. 172.
- Imagem extraída da contracapa de "Fort Whelling", de Hugo Pratt,Tomo 2, Edições ASA, 1ª edição, de Nov. de 2002.