quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

UM PAÍS INSUPORTÁVEL

São de Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, estas palavras para meditar: 
A falta de bom-senso e humildade constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Tudo seria simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso.
Uma mulher com 88 anos de idade morreu no seu apartamento em Rio de Mouro, Sintra, mas o corpo só foi encontrado mais de oito anos depois, juntamente com os restos mortais de alguns animais de companhia (um cão e dois pássaros).
Este caso...interpela-nos a todos não só pela sua desumanidade mas também pela chocante contradição entre os discursos públicos dominantes e a dura realidade da nossa vida social. Contradição entre promessas e garantias de bem-estar, de solidariedade e de confiança nas instituições públicas e uma realidade feita de solidão, de abandono e de impessoalidade nas relações das instituições com os cidadãos. 

Apenas duas ou três pessoas se interessaram pelo desaparecimento daquela mulher, fazendo, aliás, o que lhes competia. Com efeito, uma vizinha e um familiar comunicaram o desaparecimento às autoridades policiais e judiciais mas ninguém na PSP, na GNR, na Polícia Judiciária e no tribunal de Sintra se incomodou o suficiente para ordenar as providências adequadas. Em face da participação do desaparecimento de uma idosa a diligência mais elementar que se impunha era ir à sua residência habitual recolher todos os indícios sobre o seu desaparecimento. 
É isto que num sistema judicial de um país minimamente civilizado se espera das autoridades policiais e judiciais, até porque o caso era susceptível de constituir um crime. O assalto e até assassínio de idosos nas suas residências não são, infelizmente, casos assim tão raros em Portugal. Mas, sintomaticamente, as autoridades judiciais não só não se deram ao trabalho de se deslocar à residência como, inclusivamente, recusaram-se a autorizar os familiares a procederem ao arrombamento da porta de entrada. 
E tudo seria tão simples se houvesse uma coisa que falta cada vez mais aos nossos magistrados: bom senso. Mas não. Dava muito trabalho ir à uma residência procurar pistas sobre o desaparecimento de uma pessoa. Dava muito trabalho oficiar outras instituições para prestar informações sobre esse desaparecimento. Sublinhe-se que um primo da idosa se deslocou treze vezes ao tribunal de Sintra para que este autorizasse o arrombamento da porta da sua residência. 
Mas, em vez disso, o tribunal, lá do alto da sua soberba, decretou que a desaparecida não estava morta em casa, pois, se estivesse, teria provocado mau cheiro no prédio. 
É esta falta de bom-senso e humildade perante a realidade que constitui uma das principais causas da degenerescência da justiça portuguesa. Os nossos investigadores (magistrados e polícias) não investigam para encontrar a verdade, mas sim para confirmarem as verdades que previamente decretam. E, como algumas dessas verdades são axiomáticas, não carecem de demonstração.

Mas há mais entidades cujo comportamento revela que a pessoa humana não constitui motivo suficientemente forte para as obrigar a alterar as rotinas burocráticas e impessoais. 
A luz da cozinha daquele apartamento esteve permanentemente acesa durante um ano, ao fim do qual a EDP cortou o fornecimento de energia eléctrica, sem se interessar em averiguar o motivo pelo qual um consumidor deixou de cumprir o contrato celebrado entre ambos.
Os vales da pensão de reforma deixaram de ser levantados pela destinatária, mas a segurança social nada se preocupou com isso. Ninguém nessa instituição estranhou que a pensão de reforma deixasse de ser recebida, ou seja, que passasse a haver uma receita extraordinária sem uma causa. E isto é tanto mais insólito quanto os reformados são periodicamente obrigados a fazerem prova de vida. Mas isso é só quando estão vivos e recebem a pensão. 
Os CTT atulharam a caixa de correio daquela habitação de correspondência que não era recebida sem que nenhum alerta alterasse as suas rotinas. 
Finalmente, as finanças penhoraram uma casa e venderam-na sem que o respectivo proprietário fosse citado. Como é que é possível num país civilizado penhorar e vender a habitação de uma pessoa, aliás, por uma dívida insignificante, sem que essa pessoa seja citada para contestar? Sem que ninguém se certifique de que o visado tomou conhecimento desse processo? Como é possível comprar uma casa sem a avaliar, sem sequer a ver por dentro? Quem avaliou a casa? Quem fixou o seu preço? 

Claro que agora aparecem todos a dizer que cumpriram a lei e, portanto, ninguém poderá ser responsabilizado porque a culpa, na nossa justiça, é sempre das leis. É esta generalizada irresponsabilidade (ninguém responde por nada) que está a tornar este país cada vez mais insuportável.
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Texto extraído da revista Advocatus, de 14.2.2011, por sua vez reproduzido dum artigo de opinião no Jornal de Notícias.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Os dióspiros e a crise

As recentes chuvas vão acabar de vez com eles. Os que não racharem com o excesso de água irão perder aquele sabor adocicado e envolvente. Estão nas oitavas da festa, a modos de quem se despede até para o ano se Deus quiser. 
Decidi o que fazer aos dióspiros que ainda restam na garbosa árvore do quintal: os que não tiverem préstimo para comer ofereço-os às galinhas, petisco que adoram, tal a ferocidade com que disputam os que lhes lanço às patas.
Os quintais das aldeias bairradinas são um alforge de fartura e riqueza frutícola: ele são as laranjas, os figos, as peras, os quivis, as ameixas das mais variadas qualidades, os limões e até as maçãs por quem passo como cão que não conhece dono.
As galinhas que ajudo a alimentar adoram a fruta que quase diariamente lhes ofereço. Ainda por cima não são esquisitas: comem do que lhes damos, não reclamam e, invariavelmente, são sacrificadas para satisfazer a nossa gula.
Bem vistas as coisas, há uma espécie de luta de classes entre os humanos e as aves de capoeira: a troco dum mísero salário vendem-nos a sua única força de trabalho, a carne gostosa e até os ovos cuja fartura vai minguando à medida que o frio aumenta.
Tanta riqueza gerada a troco de tão baixos custos de produção!
Como não me incluo no grupo dos capitalistas e exploradores, pago-lhes muito acima do salário mínimo nacional e não lhes reduzo nem corto os benefícios sociais.
Se alguém tem que pagar a crise que sejam os ricos e poderosos.
As galinhas é que não!
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- Falei dos dióspiros AQUI.
- Recomendo vivamente a crónica do Belino Costa sobre os quivis da nossa aldeia, no NOTÍCIAS DE BUSTOS.

domingo, 10 de outubro de 2010

Trinta dinheiros

No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos no espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito.
As mãos parecem prostitutas.
Alma não têm. Penduraram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.
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- Manuel Alegre, Praça da Canção, 2ª edição, 1968, Editora Ulisseia.
- Imagem: recorte da contracapa de "O CANTO e as ARMAS", 1970, ed. Poesia Nosso Tempo. A foto foi tirada na Real República do Bota Abaixo, em Coimbra, onde passei parte dos meus tempos de faculdade.
- Lembrei a sua poesia, AQUI.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Festejar a República

Insisto muito no passado histórico. Faço-o, como diria José Gil, por uma vontade desesperada de me inscrever, de registar para dar consistência ao que tende a desvanecer-se.
O início da República que hoje se comemora assentou na defesa da liberdade e da fraternidade e na promoção da instrução (palavra hoje em desuso) e da solidariedade.
O exemplo mais vivo desses valores  pode ser encontrado na freguesia vizinha do Troviscal, que hoje se empenha na celebração da República.
É para lá que vou daqui a pouco, sem me deixar iludir pela representação misticista e exaltada da história da 1ª República.
Como escrevi no Notícias de Bustos, celebrar a República passa também pela lembrança de que foi por via dos erros cometidos entre 1910 e 1926 que nasceu a ditadura.
Conviria aos republicanos inscrever esse dado histórico nas memórias do real.
Não venha o voto popular excomungar-nos!
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- Portugal Hoje / O Medo de Existir, de José Gil, Relógio D'Água Editores, Nov. de 2004.
- Capa do livro Troviscal Republicano - Banda excomungada Clero interdito, de Silas Granjo, 2010, publicação e comercialização do Sítio do Livro.

domingo, 3 de outubro de 2010

Há só vento no meu país

Vento
vento
há tanto
há só vento no meu país
vento branco
verde vento negro
ardente
seca as lágrimas
corta a voz na raiz.
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- Imagem: Costa Nova, hoje de manhã.
- Poema: Peniche, de Eugénio de Andrade, in Escrita da Terra [1970-1978].

sábado, 2 de outubro de 2010

Sempre os mesmos a pagar a crise

Para quem tem memória curta, convém lembrar que as políticas capitalistas e neo-liberais começaram, pelo menos, com Cavaco 1º ministro, até atingirem o despautério dos dias que correm.
Desde a 1ª hora, o acesso aos fundos comunitários serviu essencialmente para desbaratar dinheiro, inventar bancos vocacionados para lavar dinheiro e para investir ao deus-dará antes que a mama acabe. Em suma e sem ser exaustivo, encher a bolsa de empresários, políticos, formadores e até distribuir umas migalhas por alguns agricultores cá do burgo que faziam de conta que semeavam milho para receber subsídios. Uma verdadeira cadeia alimentar feita regabofe, com ou sem submarinos pelo meio para defender a pátria e honrar o império.
Só nos falta outra vez o FMI que tudo prevê e cura, mas que assobiou para o lado aquando da previsível bancarrota trazida em 2008 com a especulação bolsista e as habilidades com os créditos de risco (subprimes) e os fundos de pensões.

Resultado: ontem como hoje,  a crise vai ser paga por quem não lhe deu causa. 
Como não chegará, vai a ajudinha de mais habilidades com fundos de pensões e com as compras transversais de carros blindados para a cimeira da NATO enquanto às polícias falta gasolina para policiar.
O FMI e os mercados financeiros podem dormir descansados: se as coisas piorarem, há sempre um califa para o lugar do califa.
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Imagem:  contracapa d' “As conspirações do Grão-Vizir Iznogoud”, de Goscinny e Uderzo, Edição Meribérica.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Uma campanha alegre

Singular temperamento o do discurso da coroa!
Todo o mundo está desiludido, só ele espera!
Segundo ele o País floresce, enriquece, e o Paraíso está ainda mais perto que a Outra Banda. É tentarmos um passo, um leve esforço, e entrarmos para sempre na tranquilidade augusta da perfeição...
Há só um ponto negro que assusta o discurso da coroa: é a questão da fazenda. No entanto, o discurso da coroa, cada vez que aparece em público, promete resolver a questão da fazenda.
...
E aí vem o discurso da coroa abrir de novo as cortes, rosnando com a mão no peito:
- Pois senhores, palavra de honra, agora a todo o custo, impreterivelmente, havemos de resolver a questão da fazenda, etc..
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- Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, de «As Farpas», I Volume, Lello & Irmão - Editores, Porto, 1965, págs. 109 a 111. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Poema da noite plácida...

...enquanto o orçamento vai e vem:

A multidão em fúria
passeia plàcidamente nas ruas da cidade,
plácida mente,
enquanto os homens que orientam plàcidamente
a multidão em fúria
que plàcidamente passeia nas ruas da cidade,
procuram furiosamente
as soluções plácidas
que orientarão a multidão em fúria
que, plàcidamente, passeia nas ruas da cidade,
de mente plácida,
plácida mente,
e os sábios buscam furiosamente
as fórmulas plácidas
que, plàcidamente,
resolverão as dificuldades da multidão em fúria
que passeia nas ruas da cidade
de mente plácida,
plácida mente,
e todos, em suma,
plàcidamente,
procuram furiosamente,
de todas as formas plácidas,
atender às inquietações e aos anseios plácidos
da multidão em fúria
que, plàcidamente, passeia nas ruas da cidade,
e plàcidamente se assenta nos plácidos bancos das avenidas,
bebendo o ar plácido da noite,
e esperando, plàcidamente,
as soluções plácidas
para os seus anseios e inquietações furiosas.
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António Gedeão, Linhas de Força, 1967, Edição do autor [comprado em Coimbra, em Setembro de 1969].

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Andam dióspiros no meu quintal

Aí estão eles de novo, à consideração da passarada.
A ver se sobram para mim e para quem mais lhes chegue.
Trouxe-os aqui à colação.
Mas ficam a saber que, ao contrário do que determina o art.º 2.104º do Código Civil. os que eu comer não serão restituídos para efeitos de igualação.
Como os que me dá na real gana e, pronto, as contas estão feitas.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O PESCADOR DE SONHOS

Nascido a 10/8/1947, o Carlos Luzio viveu a mesma infância e juventude que tantos de nós: entre escola, colégio e frenéticas férias do mais puro gozo, traquinices, malfeitorias e bailaricos de entesoar.
Mal teve tempo de acabar o então 7º ano do liceu em Oliveira do Bairro. Em Setembro de 1970 atracava disfarçado de alferes miliciano no porto de Nacala, região moçambicana do Cabo Delgado. Esperava-o, como a tantos de nós, aquilo a que chamava a puta da guerra.
Guardo desse tempo uma preciosa colecção de cartas (sobretudo, em forma dos célebres bate-estradas), que me ia enviando do código postal militar que não identificava o local da origem, não fosse o inimigo saber onde a malta estava a derramar a juventude.
Ciente disso e num rasgo único de fidelidade à Pátria e aos seus segredos militares, o Carlitos identificava-se assim no remetente:
Silvestre Rojo Sommel
Alferes Mil.º
SPM 1904
Acredito piamente que foi esse disfarce que o safou da merda que era levar com uma mina nos tomates.
Chegado a Mocímboa do Rovuma (fronteira com a Tanzânia), ajudou a construir o acampamento militar:
Parece um circo, um autêntico circo. Barracas de lona, luz eléctrica e palhaços, muitos palhaços, a começarem pelo capitão.
Estava eu a caminho de lhe seguir os passos na sagrada defesa do império quando o Carlos soube da notícia do meu casamento (o 1º de vários, a bem dizer...), notícia que o deixou particularmente entristecido:
...são logo dois azares juntos, a tropa e o casamento. O pior é que a tropa são só dois anos e o casamento é uma colhoada deles.
...
Homem de afectos e amizades mil, transferiu para os seus poemas muitos desses amores, entremeados pelo desejo de paz e liberdade:
Num quarto
Quatro paredes apenas

Lugar para uma janela
Que nunca se abriu
Lugar para muitas cenas
Que só em sonhos...

Lugar para se morrer
A sonhar com liberdade.
(Chioco, Moçambique - 12 JUN 71)
...
Faz hoje 6 anos que o Carlitos Luzio foi de abalada, que a guerra da vida não quiz a paz com ele. Despediu-se assim noutro dos seus poemas:
Chegou o momento de dizer adeus,
De emalar os meus sonhos
E tu os teus.
...
O Eugénio de Andrade diria que o Carlos foi com as aves.
Voa, voa, Amigo de tantos Amigos!
___
- Texto adaptado de "Carlos Luzio -  Pescador de Sonhos", 2005, Edição dos Amigos.
- Autor da foto: Carlos Micaelo.
- Ler  post com o Poema das Águas, no NOTICIAS DE BUSTOS.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pescador de sonhos

Com o aproximar de mais um aniversário da morte prematura dum amigo de sempre, recordo um bonito postal tridimensional que o Carlitos Luzio me enviou da puta da guerra, algures no norte de Moçambique.
Estava eu em vias de embarcar para Angola, onde também me esperavam "amantes" do calibre das que ele encontrou: algumas minas, emboscadas e, felizmente, alguns amores de ocasião.
Não fosse o inimigo dar com ele, nos muitos aerogramas (bate estradas) que me enviou, o Carlos identificava-se como
Silvestre Rojo Sommell
Alferes Miliciano
SPM 1904

sábado, 18 de setembro de 2010

Tem um parafuso a menos?

Se lhe falta um, não hesite.
SOPARAFUSO tem o que precisa.
E fica aqui tão perto, no Vale do Grou, Águeda.