quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A inocência perdida

Vai ser conhecido hoje o acordão do processo Casa Pia, fazendo o CSM questão de o divulgar no seu site. Mais um festim, com a decisão a passar pelo crivo dos especialistas, dos chico-espertos e dos treinadores de bancada.
O regabofe começou mal a investigação foi conhecida, sobretudo por via da divulgação na comunicação social de supostos factos incriminadores, cirurgicamente deixados escapar por uma qualquer garganta funda do processo.
A técnica é tão conhecida como os seus contra-venenos.
Ao arremedo de súmula da decisão (*) lida no passado dia 3 pelo colectivo de juízes, a defesa respondeu com conferências de imprensa, debates (deboches?) televisivos, entrevistas, vídeos, cartas de amor e/ou de recomendação e até ameaças de divulgação de mais nomes supostamente implicados no abuso de menores.
Já agora: se no entender dos arguidos a sentença constitui uma ignomínia, uma aberração, o regresso ao reino das trevas, o que dizer da divulgação de nomes referidos no processo mas que não chegaram a ser investigados?
Que objectivos se escondem por detrás dessa divulgação? Desespero? Espírito de vingança? Mais uma manobra de diversão?
Ou um aviso à navegação, do género, "quem te avisa teu amigo é"? Um recado à Justiça e aos julgadores que reapreciarão o processo em sede dos muitos recursos que hão-de vir, também eles cidadãos falíveis e pecadores como os demais?
A mediatização deste processo já mete nojo aos cães.
__
(*) Art.º 372º, n.º 3, do Cód. de Processo Penal: ...a leitura do relatório [da sentença] pode ser omitida. A leitura da fundamentação, ou, se esta for muito extensa, de uma sua súmula, bem como do dispositivo,é obrigatória, sob pena de nulidade.
- Imagem extraída daqui.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Canção para os mineiros chilenos

Pouca é a distância entre a vida e a morte.
O caminho – ponte entre o mundo de baixo
e o azul celeste –
é mais curto que o caminho daqui até lá baixo.
O mesmo que entre a vida e a morte.
__
- Canção dos índios Araucanos, extraída de “Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro”, Porto 2001, Assírio & Alvim, 3ª edição, pág. 130.
- Imagem: Lloncon, líder mapuche (ou araucano), povo indígena da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina. [extraído da Wikipédia]

Sanjo: as sapatilhas reinventadas

Quem não se lembra das sapatilhas Sanjo, fabricadas em S. João da Madeira e que foram a coqueluche da malta nova até há uns 30 anos atrás?
Inicialmente produzidas em branco e preto, tinham 2 pequenas rodelas de borracha para proteger os tornozelos, um rebordo protector em borracha e biqueira protectora.
A marca existia desde os anos 20, mas as sapatilhas aparecem apenas nos anos 40. Em meados de 80 a concorrência estrangeira acabou com elas.
Voltaram há cerca de um ano, made in China.
As TV's e os jornais vêm falando delas, que as crises são propícias ao revivalismo.
Não faltam notícias das Sanjo,como aqui, ali, ou no no grupo de fãs do facebook.

sábado, 4 de setembro de 2010

A balança da Justiça - II

Do resumo do Acordão de Colectivo de Juízes do processo Casa Pia, dado à estampa pelo CSM:

Quanto ao arguido J…, que foi médico de alunos da Casa Pia e que continua a exercer a profissão,..."

"Quanto ao arguido H…, que foi advogado de defesa do arguido C… durante quase dois meses, mas que passou depois também à condição de arguido…

 
Nas sentenças já se mandam indirectas a outras corporações...

As manifs de Maputo e o facebook

Recomendo este texto do ma-schamba sobre o acesso à informação no decorrer da revolta popular em Maputo, onde se prova que o facebook é muito mais que engate, é informação viva e partilhada.
Talvez pelos afectos que a África gerou por via da puta da guerra ou da paz por encontrar, o Ma-schamba esteve sempre linkado nos meus blogues preferidos.
Já agora, lembro uma frase de Amílcar Cabral: o colonialismo não tem cor.
__
- Imagem extraída de Cottage Style, via imagens do google.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Secretária portátil

Para quem gosta de trabalhar em férias ou no remanso do jardim ou do quintal, aconselho esta secretária portátil.

As imagens foram extraídas do blogue modaparahomens, para quem homem também tem de ter estilo.
- Apetece perguntar: quem, à sua maneira, não tem estilo?

O interessante Tim Vinke é um designer e escultor que vive e tem estúdio em Groningen / Holanda, com exposições e trabalhos apresentados na sua cidade e em Roterdam, Amesterdam e Berlim.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Os pc's só dão problemas

O portátil vai de mal a pior e entrou em quarentena.
Como não tenho a desculpa do puto da imagem, aproveito para analisar as recentes alterações ao Código de Processo Penal (Lei 23/2010, de 30/8) e, como se não bastasse num só dia, às medidas de protecção das uniões de facto e ao Código Civil (Lei 26/2010).

A diarreia legislativa não tem fim à vista e não há no mercado quem nos salve.
Para saberem mais sobre a doença, digitem "diarreia legislativa" na barra lateral de pesquisa do google.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Comércio do Funchal

Não me refiro à retoma do comércio e turismo do Funchal depois do temporal de 20 de Fevereiro.
Lembro o jornalinho cor de rosa que me acompanhou desde os tempos da faculdade até aos anos da brasa da Revolução de Abril.
Fui assinante do extraordinário e quase miraculoso CF entre Fevereiro de 1970 e igual mês de 1975, de que guardo religiosamente todos os exemplares. Vale-me ter um sotão grande, do tamanho do meu mundo.
Imagine-se o que representou receber durante 26 meses nas matas do norte de Angola e de Cabinda o precioso jornal, um marco na luta contra a ditadura.
Que lufada de ar freco!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um zero à esquerda

O nosso 1º anunciou ontem a iniciativa "licenciamento zero", incluída no Programa Simplex 2010.
Sou testemunha de algumas louváveis medidas simplex: sem sair do escritório, sentado à mesa do pc onde tenho instalado o certificado digital que a profissão requer e enquanto o diabo esfrega um olho, promovo a criação de mais uma "empresa na hora". Para ajudar à festa, as certidões on line passaram a ser o pão nosso de cada dia, em geral à borla.
Diarreia legislativa à parte, não faltam bons exemplos de desburocratização administrativa.
No caso e embora a consulta da resolução do Conselho de Ministros não esclareça todas as dúvidas sobre o licenciamento zero, estou em crer que, finalmente, os portugueses vão poder atingir o estado supremo da libertação burocrática, o verdadeiro nirvana, ou, se preferirem, o céu dos cristãos.
Em verdade vos digo: tudo parece indicar que qualquer aspirante a dono dum estabelecimento de restauração, de bebidas, de comércio de bens, de prestação de serviços ou de armazenagem, passa a poder abrir o seu estaminé sem ter de se preocupar com os licenciamentos municipais mais básicos (licença de utilização, inspecções sanitárias e afins). As vistorias passam a ser uma minudência, coisa de pouca monta, pelo que bem podem ficar para mais tarde recordar.
É fácil imaginar o que nos espera: enquanto o pau vai e vem, folgam as costas dos xico-espertos.

Este governo faz-me lembrar o Lucky Luke...
...o cowboy que dispara mais rápido que a sua sombra.
__
Imagem extraída da contra-capa dos álbuns de Lucky Luke, fase anterior à campanha antitabágica.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eles comem tudo

Não, não falo da famosa canção do Zeca Afonso. Nem dos boys em fim de ciclo, fatalmente à espera de serem reciclados por nova fornada, que as sondagens não costumam enganar-se.
Falo do oriolus oriolus, que todos conhecemos por papa-figos.
Podem dizer-me que são atraentes e tardios: queixa-se o avesdeportugal.info de que é um visitante estival que chega bastante tarde ao nosso país.
Detesto queixinhas. Por mim, passava bem sem eles. Longe da vista, longe do coração dos preciosos figos, que mal chegam para o meu apetite voraz.
Lembro-os porque me chegou às mãos uma boa pratada deles. São um regalo, da nobre casta pingo de mel e está na cara que não chegam para as encomendas.
Vai sendo tempo de ir a eles ao quintal do vizinho.
Lembrei-os, aos figos, AQUI.
__
- Diz-se que a 1ª peça de vestuário foram folhas de figueira, mas o Adão e a Eva já não estão cá para o testemunhar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Este país

Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.

O país de que falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs.

Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos - somos amigos.

__
Matéria Solar, de Eugénio de Andrade  / Poesia e Prosa [1940 * 1980] / Edições Limiar.

sábado, 21 de agosto de 2010

Caviar de sangue

Fui há dias convidado para comer caviar acabadinho de chegar do Daguestão, uma república autónoma russa que faz fronteira com a Rússia, a Tetchénia, a Geórgia e o Azerbeijão e é banhada a nascente pelo mar Cáspio, exactamente onde é pescado o esturjão das famosas ovas [ikra, em russo].
Os povos do Daguestão são maioritariamente muçulmanos sunitas, de hábitos moderados e tradições milenares. Com o desaparecimento da URSS, os radicais islâmicos vêm-se infiltrando no país a partir da Tetchénia, tentando implantar ali uma república islâmica, que designam como Emirato do Cáucaso.
Não olham a meios e a violência instalou-se no Daguestão. Os assassinatos, atentados suicidas e confrontos armados passaram a ser o pão nosso de cada dia.
Ao que me disse a cliente, natural do Daguestão e casada em Portugal, os millitantes islâmicos aliciam as pessoas oferecendo 7.000 dólares a quem seguir a sharia. Como consequência, o Daguestão passou a viver em estado de sítio, com tanques diariamente na rua e militares armados com a velha kalash.
Tudo isto me faz pensar se o mundo não estaria melhor nos tempos da URSS e da Jugoslávia do Tito.
Estalinismos à parte...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O rio, o vento e a vida

O rio passa, passa
e nunca cessa.
O vento passa, passa
e nunca cessa.
A vida passa:
nunca regressa
*

Faz hoje 15 anos que morreu Hugo Pratt, o celebrado autor de Corto Maltese. Lembrei-o AQUI.
- O poema é dos índios Aztecas, América do Norte, em tradução de Herberto Helder. Publicação: "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Assírio & Alvim, 3ª edição /Abril de 2001, pág. 140.
- A imagem ao lado foi extraída da contracapa de "Fort Whelling", de Hugo Pratt,Tomo 2, Edições ASA, 1ª edição, de Nov. de 2002.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Conhecer o património natural

Não há Câmara Municipal que não tenha feito aprovar os seus regulamentos de taxas e licenças para os mais variados gostos e paladares. Basta dar um salto ao site de cada um dos municípios do país para encontrar n regulamentos sobre a matéria x 308 municípios.
Porém, dificilmente encontraremos um levantamento do património natural ou paisagístico dum município. Dos regulamentos dos planos directores municipais (PDM's) constam escassas e muito vagas referências ao ordenamento, gestão e preservação do meio ambiente.
A propósito das competências da câmara municipal, a alínea m) do n.º 2 do art.º 64º da Lei das Autarquias Locais diz-nos que cabe àquela "assegurar...o levantamento, classificação, administração, manutenção, recuperação e divulgação do património natural, cultural, cultural, paisagístico e urbanístico do município..."
Talvez por se tratar da última alínea da lei referente ao planeamento e desenvolvimento, as coisas funcionam como aquelas cláusulas gerais dos contratos que são escritas em letra miudinha: ninguém as lê.
Daí a pergunta: 
Quantos municípios conhecem e identificaram os seus cursos de água e zonas húmidas, os espaços florestais, bem com a sua fauna e flora? Que aves, mamíferos e outros animais selvagens temos e quais são os seus hábitos? Que medidas devemos tomar para a sua preservação?
Os municípios não sabem e nós muito menos. 
O que conta são as visões economicistas do espaço físico que nos rodeia.
_
Imagem extraída dum post sobre uma viagem ao rio Mondego, AQUI.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Lampreia na Bairrada

Ensinam os livros que a lampreia (petromyzon marinus, linnaeus - 1758) é um membro primitivo da classe dos ciclóstomos, semelhante aos peixes da família dos agnatas, isto é, sem maxilas.
É sobretudo a partir deste mês que o bichinho, vindo do mar para desovar, se aventura a entrar nas barras dos rios a norte do Mondego, onde é mais apreciada.
Apesar de não ser alta, loura, nem ter olhos azuis, esta imigrante feiísssima e de ar untuoso tem uma fiel legião de fãs, entre os quais me encontro.
Tal como outras e menos higiénicas louras, é fácil encontrá-la à beira da estrada. Os sítios e pose que preferimos ficam ao longo dos rios Vouga (Paradela, Pessegueiro e Sever do Vouga) e Mondego (Montemor, Ereira, Porto da Raiva), sendo várias as formas de a servir à mesa. Cá por mim, fico-me pelo célebre arroz de lampreia, apresentado como a imagem mostra.
A novidade está na feliz circunstância do muito nosso Pompeu dos Frangos ter passado a servi-la ao almoço de 6ª feira. Para gáudio dos fãs, o Carlitos Aires introduziu o petisco na época passada. Basta dar um saltinho ao restaurante nascido em Bustos, mas instalado na Malaposta - Anadia desde 20 de Novembro de 1963.
A viagem até à antiga malaposta vale mesmo a pena.
___
A imagem foi extraída da Wikimedia.
Quem quiser conhecer um pouco da vida e obra da saborosa migrante pode ir até ao Aquário Vasco da Gama, aqui.