quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Tempo de ir aos figos

Os botânicos dizem que o figo não é um fruto, mas sim um sícone, que não é mais do que um falso fruto que começa por uma inflorescência e acaba numa deliciosa infrutescência, sobretudo quando bem madurinha.
Dito assim nem apetece ir aos figos, mas cá por mim vou-me a eles na mesma, deixando as explicações para o Milton Costa, que é cientista e quando se atira à figueira da casa dele fica indeciso entre comê-los e divagar sobre as razões de ciência do tal de sícone ou sicónio.
Gosto muito de figos, sobretudo das figueiras dos quintais dos meus afáveis vizinhos.
Aos figos chamo-lhes um figo.
Estão logo ali depois do meu quintal. E a fronteira que separa os dois aidos não tem muro de Berlim, arame farpado, campo de minas, nem me esperam as malditas emboscadas de má memória.
E também está fora de questão a prática do crime de introdução em lugar vedado ao público, porque - como diria o Sr. De La Palisse - não há vedação de espécie alguma. Os nossos aidos gostam de interagir, derramando-se uns nos outros como mares iguaizinhos a que os homens deram nomes diferentes.
Não digam nada ao meu vizinho, mas, de 2 em 2 dias para dar tempo de amadurecerem, vou-me a eles como cão à cata de bom osso. E não lhe digam porque ele é uma jóia de rapaz, bom amigo de ontem e de hoje (e espero que de amanhã...), faz uns petiscos de morrer e produz vinho de boa qualidade.
Em abono da verdade, ou me vou a eles ou a passarada passa-me a perna. Tertio non datur, como se diz nos direitos; em bom português, significa que não existe uma 3ª alternativa visto que o tertio não vive cá.
É tempo dos figos. E antes que os pássaros os dizimem ou a chuva os estrague...
Vamo-nos a eles!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Blogue do Rui Luzio: hecho en Venezuela


O Rui Luzio é um bustuense dos meus tempos. Como tantos outros companheiros dos anos 60 e princípios de 70, o seu destino foram as américas; para ser mais preciso, a Venezuela que agora é do Sr. Chavez.
Também lhe deram as febres de Agosto e daí o ter criado recentemente um blogue pessoal onde nos fala das suas memórias e das suas viagens. Ficam a saber que o Mário Rui da Cruz Luzio há muito que é também um viajandeiro a percorrer caminhos de Santiago.
O endereço do seu blogue passou a constar da lista aqui do lado.
Morrocoy se chama.

E agora responde-me, ó Rui Luzio: - A internet também não te faz lembrar os tonéis das adegas da nossa juventude? Quantas vezes não viajaste no espaço e ficaste sábio sem sair do mesmo "sítio"?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Tardes do Piri-Piri

Com 83 anos, foi ontem a enterrar uma conterrânea que ajudou a marcar a minha juventude nos anos 60 (foi no séc. passado, raios!). O triste evento foi merecedor dum post no Notícias de Bustos, editado pela 1ª vez em verdadeira e animada co-autoria.
Cremilda Martins da Silva tinha 83 anos e há 45/40 anos viveu com bonomia e compreensão a nossa irreverente juventude.
Fosse nas férias escolares, fosse aos fins de semana, a esplanada do café Piri-Piri dessa aldeia pujante e contestatária que foi Bustos era o ponto de encontro dum número apreciável de jovens e libidinosos bustuenses. Ali vivemos as famosas tardes do Piri-Piri, entre finos, pratinhos de tremoços e alguns pires de pequenos búzios da ria que a Ti Cremilde ia pachorrentamente servindo à medida que contávamos as escassas moedas de escudo.

Regressados do que já apelidei de "Agosto bustuense da Costa Nova" e a partir da sede instalada na esplanada do Piri-Piri, ajudámos a organizar em Setembro de 1970 um Encontro de Estudantes da Bairrada, cuja iniciativa partira do pároco local. O Padre Vidal era um indefectível da ditadura salazarista e tinha fé de que acabaríamos por lhe cair no regaço; só que a malta tinha outras ideias e, mal ele sonhava, aproveitámos mas foi para ir sacudindo as consciências que o regime reprimia ferozmente.
Estranhamente, o pároco tinha uma empatia muito especial por mim: eu era rebelde mas franco e isso atraía-o. Uns bons anos antes, aí pelos meus 10/12 anos, era uso na missa de domingo o sacristão mandar perfilar meia dúzia de miúdos traquinas no 1º degrau logo a seguir ao altar. Calhava-nos sempre a triste sina...até que um dia engendrámos a mais rebelde das conspirações:
Aproveitando um dos solenes momentos em que o pároco ajoelhou de costas para os fiéis, um de nós atou-lhe os dois atacadores dos sapatos; ao querer levantar-se após a sentida oração, o Padre Vidal estatelou-se no chão ante o altar. A risota foi geral, mas o par de tabefes com que o bondoso sacristão brindou cada um dos atrevidotes caiu que nem raio castigador.
A missa continuou a pedido do Senhor, que lembrou aos crentes o miúdo traquinas que um dia
também Ele fora.
Quem sabe se o irrreverente episódio não fez de nós melhores filhos desse deus que está no coração dos homens e das mulheres de bem.
Bem haja a mulher de bem que foi a Ti Cremilda!

domingo, 31 de agosto de 2008

Às armas!

Salta à vista que se acabaram para nós os tempos dos brandos costumes, pelo menos no que diz respeito à segurança dos cidadãos.
Em traços muito gerais julgo ser capaz de acertar em três ou quatro razões de fundo:
- actual crise económica e os elevados níveis de desemprego que arrastou (entre 8 e 8,5%, a taxa mais elevada da zona euro); - excesso de garantismo na defesa dos arguidos, acentuado com a reforma do Código de Processo Penal (Lei 48/07, de 29/8) e em especial com a branda Lei da Política Criminal (Lei 51/2007, de 31/8); - deficiente controlo das pessoas conotadas com o mundo do crime, que saíram das prisões na sequência das ditas reformas e de que resultou a redução em mais de 50% dos presos do país;
- impreparação e inadequação dos orgãos de polícia criminal para enfrentar tipos de criminalidade a que não estávamos habituados.

Quem lida diariamente com os tribunais, sobretudo no patrocínio dos arguidos, percebe facilmente que os delinquentes se vinham convencendo cada vez mais da sua impunidade: numa Justiça feita por tansos, aqui no sentido de gente com excesso de boa fé que acredita cegamente na bondade dos seus concidadãos e nos ideiais regenerativos, o crime compensa mesmo. Se não compensasse, não estaríamos a assistir ao actual aumento da criminalidade violenta, sobretudo a que incide sobre os chamados crimes contra o património.
O resultado foi o esperado, se calhar o desejado: o governo recuou e continuará a recuar, fazendo jus à fama de autoritário de que o 1º ministro granjeia e de que o povão tanto gosta. Depois do Salazar tivémos o Cavaco e depois deste temos o Sócrates, o qual - salvaguardadas as devidas distâncias temporais e ideológicas - me parece mais próximo do estilo do ditador que durante 40 anos marcou as nossas almas e, muito em especial, o nosso corpinho.
Está-nos no cerne: gostamos de quem manda, quer e pode mandar.
A criminalidade violenta tem os dias contados?
O tanas!
*
Se bem repararam, os diplomas que citei foram publicados no mês de Agosto, o que nos reconduz ao 2º texto editado no passado dia 6 (ir ao arquivo do blogue ou clicar na etiqueta abaixo, em Mais do mesmo / Corporações)
*
Imagens extraídas de "Lucky Luke - Os Dalton continuam à solta", pág. 4, com um piscar de olho à dupla imorredoura, MORRIS & GOSCINNY.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Regresso às corridas

Vila Real foi durante muitos anos a catedral do desporto automóvel. A partir de 1931 e até 1991 realizou-se no perímetro urbano da cidade o famoso Circuito de Vila Real. Era uma festa para a malta, que tinha a oportunidade de observar de perto as máquinas que só conhecíamos das imagens da tv a preto e branco ou dos jornais e revistas.
Em Julho de 1969 a universidade de Coimbra vivia o fervilhar da greve aos exames. Solução: ir com os amigos mais chegados até Vila Real. Fomos no carro dum dos pais e acampámos na serra, à ilharga da cidade. Um desses amigos de sempre, o Milton Costa, estava de férias dos EUA, onde então estudava e que nas horas vagas se entretinha a ser correspondente duma revista portuguesa de automobilismo.
Claro que a credencial dele nos deu acesso total à pista e às boxes; e, evidentemente, aos pópós...
Daí a foto com ares de figurão junto dum dos melhores bólides da época: o Ford GT40.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ordenações do Reino

Extraído da Collecçaõ da Legislação Antiga e Moderna do Reino de Portugal / Parte II. /Da Legislaçaõ Moderna. /Tomo III. / Coimbra: /Na Real Imprensa da Universidade. / anno de MDCCCVII / Por Resolução de S. Magestade de 2 de Setembro de 1786 / Ordenações e Leis do Reino de Portugal / Publicadas em 1603 /Livro Primeiro/.
Trata-se das chamadas Ordenações Filipinas.
Antes de adoptarmos o sistema de codificação napoleónico [de que é exemplo o Código Civil de 1867, conhecido por Código de Seabra por ter sido seu autor o Visconde de Seabra, com palacete ali em Mogofores], as leis e determinações régias estavam dispersas por textos avulsos.
Todavia, a partir do séc. XV os nossos reizinhos mandaram imprimir 3 colectâneas de leis ou Ordenações: Afonsinas (1446), Manuelinas (1521) e Filipinas (1603, estas sob a ocupação dos Filipes de Espanha).

Um dia, duma assentada, adquiri não só os 3 volumes das Ordenações Filipinas, mas também a Collecçaõ Cronologica dos Assentos das Casas da Supplicaçaõ e do Cível (impressa em 1791) e a obra mais rara, as D. JUSTINIANI IMPERATORIS P.P. AUGUSTI / INSTITUTIONUM JURIS CIVILIS / EXPOSITIO METHODICA/, impressas em Parisis (Paris) em 1757 e conhecidas por Instituições Justinianas. Nos meus tempos de faculdade tive de aprender esta gaita toda e citar de cor excertos da história do direito português e do próprio direito romano.
_
Segue a adaptação ao português moderno do texto acima reproduzido:
Mandamos que toda a pessoa que nos vier dizer mentira em prejuízo de alguma parte, e sobre o que nos assim disser não impetrar Alvará nosso, seja degradado dois anos para África, e pague vinte cruzados para a parte, em cujo prejuízo nos assim disse a mentira, e mais ficará em arbítrio do Julgador dar-lhe maior pena, segundo a qualidade da pessoa em cujo prejuízo for, e da coisa que nos assim disse, e assim de julgar à parte sua injúria, se for caso de injúria.
..
Se a El Rei aprouvesse regressar do túmulo em manhã de nevoeiro e as Côrtes Lho consentissem, os políticos portugueses de hoje já tinham passado todos pelo degrêdo em terras africanas.
Tantos têm sido os mentirosos que os 20 cruzados dariam certamente para construir um bom hospital.

Linguagem HTML

As páginas da web, como é o caso dos blogues, são criadas e desenvolvidas numa linguagem própria. No caso do bloguedooscar, em HTML (hiper text markup language), que não é mais do que um conjunto de códigos ou descrições que nos habilitam a formatar a página que se pretende publicar. Com o HTML e possível juntar no mesmo documento de edição, texto, imagens, sons e links.
Durante a hora de almoço de ontem, o colega, amigo e conterrâneo Paulo Figueiredo, permitiu-me ficar a saber muito mais do que o muito pouco que já sabia. É um mundo fascinante - eu diria mesmo - viciante.
Daí o bloguedooscar apresentar a partir de ontem um aspecto diferente, leviandade que me desculparão.
Dizia Luis de Camões que todo o mundo é feito de mudança.
Mudemos, pois. Mas que seja para melhor; e se for para pior, saibamos reconhecê-lo e retomemos a aprendizagem.
Desta vez, este post é acompanhado da seguinte ilustração:
body {
background:#fbfbd9; margin:0; text-align:center; line-height: 1.5em; font:x-small Trebuchet MS, Verdana, Arial, Sans-serif; color:$mainTextColor; font-size/* */:/**/small; font-size: /**/small;
}
...
Quem diria que uma pág. nasce de centenas de instruções como esta?
Os códigos das nossas aprendizagens da vida parecem muito mais simples. Serão mesmo?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A balança da justiça

"- É a Justiça - disse por fim.
- Agora já reconheço a figura - retorquiu K. - cá está a venda a tapar os olhos e aqui a balança. Mas ela não tem asas nos pés? Não está a correr?
- Está - respondeu o pintor. - Tive que a pintar assim por encomenda; na verdade trata-se da representação da Justiça e da Vitória numa só figura.
- Acho que não ligam bem uma com a outra - comentou K., sorrindo - a Justiça tem de estar quieta, de contrário faz oscilar a balança, o que torna impossível qualquer sentença justa.
"

_

Extraído de "O Processo", de Franz Kafka, a fls. 152, Ed. Livros do Brasil, Colecção dois Mundos.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Retrato com sombras

Foto da família materna.

Resta a menina da direita, para nos lembrar o chão que pisamos. Foi essa menina que o meu pai levou à igreja. (*)

E faz hoje 86 anos.

O retrato é do tempo de fotógrafos que marcaram Aveiro e foi tirada na Foto Moderna (Electrica) de João Ramos / Rua Coimbra / em frente à estátua de José Estêvão / Aveiro / JUN 1943.

(*) Do poema Mãezinha, de António Gedeão / Linhas de Força / Edição do autor de 1967, impressa na Tipografia da Atlântida Editora, de Coimbra.

domingo, 24 de agosto de 2008

500.000 Magalhães e um pedido de desculpas ao meu padrinho

Se descerem rio abaixo até ao meu texto do passado dia 8, verão que não me portei lá muito bem com o meu padrinho. Serve o presente para salvar a minha honra e pedir-lhe desculpas públicas dos meus erros, como passo a explicar:
Provando que continua cheio de razão e que só muito raramente se engana, o meu padrinho apresentou ao país e ao mundo o pequeno portátil que vai ser distribuído a 500.000 crianças do 1º ciclo escolar. Em homenagem ao circum-navegador, baptizou o brinquedo de Magalhães. Na minha modesta opinião o Magalhães está para Portugal como o Lego está para a Suécia.
O pequeno Magalhães é o pónei de batalha dos programas e-escola e e-escolinha do governo do meu padrinho, o que vai dar no seguinte: os putos do escalão A não pagam nada pela sua distribuição e os do escalão B pagarão 20€. Apenas os pais e encarregados que não beneficiam de acção escolar é que terão de desembolsar 50€. Uma verdadeira pechincha. O pequeno Magalhães é um folar ao nível do melhor dos padrinhos!
Resistente ao choque, à água e aos líquidos em geral (por razões de mero pudor, o meu padrinho omitiu que também resistia ao xixi), o pequeno portátil apresenta-se em suaves tons azul-marinho e branco. Munido dum processador da poderosa Intel e com cerca de 6 horas de bateria, tem acesso à internet e vem com software de última geração.
Palavras do meu padrinho, que adiantou que o Magalhães está a ser “construído” em Portugal e que a sua ligação à internet terá uma largura de banda de 48 “megabytes” por segundo.

Amantes da democracia como ele, meu padrinho, a Líbia e a Venezuela aprestam-se para nos comprar milhões de pequenos Magalhães, certamente a troco de mais petróleo.
Entrevistado pela Exame Informática, o vice-presidente executivo da Intel não poupou elogios ao governo do meu padrinho: “O que Portugal está a fazer é, sem dúvida, um bom exemplo para outros países.
(*)

Incomodado com um ou dois lapsos de língua que terá cometido durante a apresentação do novo brinquedo, confidenciei-lhe em privado:
Padrinho:
- Já ninguém constrói computadores; é mais barato assemblá-los, isto é, sacar os componentes aqui e ali, de preferência onde a mão-de-obra for ao preço da chuva; reunidos os componentes, monta-se a máquina. Et voilá: simples e barato. Sabe, é tal qual a canibalização que a malta fazia na guerra colonial com as peças das viaturas Unimog: de 3 chaços velhos fazíamos 1 em condições de andar.
- Já agora: a velocidade de acesso do Magalhães é de 48 megabites por segundo (Mb/s) e não de 48 megabytes (MB/s). Olhe que 1Mb/s corresponde apenas a 0,125MB/s; assim sendo, são precisos 8 megabites para chegar a 1 megabyte.

- Diz-me ele: Gaita, afilhado, isso é que me saíste um informático de 1ª água!
- E ó mais não sou engenheiro! – Respondi-lhe eu, ao mesmo tempo que lhe virava as costas e me afastava em passo de corrida.
Não fosse ele atirar-me com o Magalhães que trazia debaixo do braço...
________
(*) A interessante entrevista pode ser lida no n.º de Setembro da revista, de págs. 30 a 32.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Relatos de Guerra


Em Fevereiro de 2007, o general designado pela NATO assumiu o comando das tropas no Afeganistão. Tinha sob a sua alçada 33.000 soldados. Mais de um ano depois, os contingentes da coligação internacional somam 53.000 operacionais de 40 países.
Segundo o comandante McNeill este número está muito abaixo das estimativas de contra-insurreição do Pentágono. Se estas fossem seguidas com escrúpulo cerca de 400.000 militares ocupariam hoje posições em território afegão. Quem manda, sabe.

Entretanto, regressou do Afeganistão o contingente português de 162 militares das forças
especiais da Brigada de Acção Rápida do Exército.
Embora seja conhecido o elevado nível de prontidão desta unidade, a rapaziada não se pode queixar da falta de sorte: apenas foram atacadas por forças taliban numa emboscada na perigosa zona de Kandahar, quando regressavam duma missão.
As emboscadas na altura do regresso de uma missão são típicas neste tipo de guerra. Foram 15 minutos debaixo de intenso fogo, o que foi uma sorte. Mais sorte foi não termos sofrido baixas. A mesma estrelinha da sorte que me acompanhou durante 26 meses, obviamente sem a ajuda dos apontamentos aqui do lado.
É tudo muito lindo quando pagam à malta uma pipa de massa para combater. Em Agosto de 1972 e já com um subsídio de zona de combate a 100%, ganhava eu 7.560$00, uma pequena fortuna para a época. Os soldados nem 10% disso recebiam, que era quanto valia a carne para canhão.

Quando as mortes em combate batem à porta, como aconteceu recentemente aos 10 militares do contingente francês, os responsáveis políticos e militares martelam na tecla da “causa justa” e da “honra”. Conheço o discurso de ginjeira.
É tudo muito lindo, pois é, mas a tecla da malta e da família que fica por cá a roer as unhas passa logo a tocar uma música diferente.

Há merdas que não há preço que as pague…

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Hugo Pratt:1927/1995

Tal como prometi no post do dia 6, aqui estou a homenagear aquele que terá sido o autor de banda desenhada mais premiado e sobretudo o mais apreciado entre os amantes da BD.
Hugo Pratt criou um personagem lendário - Corto Maltese, marinheiro errante e sonhador dos princípios do séc. XX e cujas aventuras começaram a ser publicadas em Portugal em 1981 na revista “Tintin” (em fascículos, que jazem algures no meu sótão). O seu traço era diferente, fugia aos cânones do desenho em voga na BD, razão porque os leitores e assinantes da Tintin de então se dividiram muito na aceitação daquelas sedutoras vinhetas. Por pouco tempo...Claro que o Corto me enchia as medidas, quer pelo personagem em si, quer pela forma sedutora, mas profundamente realista, como o autor traçava os personagens e o mundo que os envolvia.
Hugo Pratt faleceu na sua casa da Suíça, com vista para o lago Léman. O serviço religioso foi acompanhado por temas de jazz do seu amigo Dizzy Gillespie e o padre leu passagens do livro “O desejo de ser inútil”. Faz hoje 13 anos.
Hugo Pratt visitou várias vezes Portugal, uma das quais nos negros anos 50 e gostava muito do nosso cantinho; se calhar, pelas razões que o poema abaixo tão bem exprime.

- Nota final: Textos e imagens sobre Hugo Pratt e Corto Maltese é coisa que não falta na web, por exemplo AQUI. Viagem até lá, porque o sonho

…é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

- António Gedeão, Movimento Perpétuo, 1956

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Carro de bois

Carro de bois, procura-se

Desapareceu do pátio da casa que habitava enquanto os donos jantavam despreocupadamente num restaurante a cerca de 50m.
O governo pôs todas as polícias e meios ao seu alcance à procura do infeliz desaparecido.
Entrevistado pela nossa redacção, confessou entristecido o director da PJ:
- É uma pena, sabe. Tratava-se dum exemplar quase único ainda no activo. Era um ex libris que os turistas - sobretudo os queridos ingleses – adoravam registar nas suas máquinas digitais. Ainda por cima, os poucos que se conhecem ou jazem mortos a decorar os jardins fronteiros dalgumas casas da região ou estão atravancados no meio de tudo quanto é tralha, inacessíveis à nossa investigação.
Que raio de coincidência! Este caso faz-me lembrar o daquela menina inglesa que desapareceu, sabe a Madalena, aquela…

*
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Poemas de Alberto Caeiro
Colecção Poesia, Ed. Ática, 9ª ed., pág. 42

Cultura da vinha: na Galiza é a sério. E nós por cá?

Os técnicos chamam-lhe vitivinicultura e foi uma das minhas especialidades até ao ano passado. Ainda me está no sangue e até o corpo me diz que quer continuar; só que a realidade é outra: a vinha do Portinho que o meu pai tanto valorizou nos últimos 30 anos já foi chão que deu uvas. Já acamado, dizia-me:

- Deixa-te disso. Arranca mas é o que ainda está de pé, que isto não tem futuro.

Tinha razão, pois tinha; mas o que deixou de valer para nós, continua a valer para os nossos irmãos galegos, que souberam casar a produção de vinhos com o turismo; para ser mais preciso: vivem de paredes meias.

A prova provada do que afirmo está nesta imagem tirada dum hotel de Sanxenxo há precisamente um ano.

E nós por cá? – Perguntarão.

Há um ano atrás, ainda influenciado pelo galego, escrevia mais ou menos isto no Noticias de Bustos:

...

“ Chão que deu uvas

Depois duma curta mas frutuosa viagem à região vinhateira galega, um conhecido vitivinicultor bairradino nas horas vagas retoma produção do famoso Bical e Maria Gomes!

Fruto dessa viagem e das influências movidas, o vinhedo da família, sito no Portiño - Mama Rosa, está em vias de ser recuperado com o apoio do FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional), da Xunta de Bustos e do Axuntamento de Olivera do Barrio!

Este feliz desenlace só foi possível porque o Departamento de Turismo Rural e da Defesa do Património Agrícola e Cultural do Ejecutivo Municipal fez questão em cumprir - conferindo-lhe prioridade máxima - uma promessa eleitoral que vinha sendo mantida no mais absoluto sigilo.

Na realidade, o Departamento faz questão em pôr a região vinhateira da Bairrada Norte no mapa turístico e promocional do Pais, da Europa e arredores.

O novo ejecutivo contratou já uma poderosa e cativante campanha promocional, que ocupará tudo o que é outdoors nacionais e circunvizinhos, sob o lema “ALLBAIRRO”.

Segundo as próprias palavras da responsável pelo pelouro, “o nosso objectivo é articular de forma bem oportuna o sequioso mercado inglês com as nossas RAÍZES, neste caso as reportadas à presença árabe na região, presença essa que, infelizmente e para mal dos nossos pecados, foi desbaratada pelo conhecido etarra que dá pelo nome de Afonso Henriques, de alcunha “O Conquistador”.

A população concelhia promete festa da rija na inauguração da FIACOBA, que este ano irá decorrer nas moderníssimas instalações do Pavilhão das Feiras e Congressos, na Zona Industrial de Vila Verde, desde logo pela mais-valia que representa uma promoção forte e aguerrida do melhor fruto da nossa terra - os vinhos brancos, sobretudo os da matriz Bical e Maria Gomes.

Poderemos já adiantar que, com a promoção de tão auspicioso evento, a rentabilização dos custos de investimento do gigantesco pavilhão das feiras (e também dos muitos congressos que se adivinham) fica garantida a curto prazo, pois passarão a realizar-se anualmente e com efeitos a partir do próximo ano, as I Xornadas Gastronómicas do Viño, do Lechon, do Rojon da Tripa e do Pao, as quais irão ter lugar na Zona Industrial de Villa Verde, de 27 do Xullo ó 31 de Agosto de 2008.

Vai ser uma festa!

É o muito que vos conta o oscardebustos

...

À pergunta lá de cima, respondo eu:

- Nós por cá vamos bem, muito obrigado.

A prova provada do que afirmo está neste cartaz que vos deixo…



domingo, 17 de agosto de 2008

Cultura de bivalves: na Galiza é a sério. E nós por cá?

Em Agosto de 2007 passei uns dias na Galiza, que é já ali. E como queria ver de perto a cultura dos bivalves, fui ao Grove (em rigor, O Grove ou Ogrove) dar uma volta nos barcos de casco panorâmico.
A ria de Arouca está infestada de plataformas flutuantes, chamadas "bateas de mexillón", que ali foram introduzidas a partir de 1946 por empresários catalães.
Cada batea leva cerca de 500 cordas, que podem ir até aos 12m de profundidade, cordas essas onde o mexilhão pequeno - a par doutros bivalves - começa por ser preso depois de metido numa rede biodegradável. Ao fim de 7/8 dias o mexilhão larga aquele pêlo que lhe conhecemos e com o qual se agarra à corda. Em média, é recolhido para consumo ao fim de quase 2 anos tal como acontece com a ostra; as vieiras são mais precoces, bastando um ano para acabarem à nossa mesa.
Durante o passeio de barco são-nos servidos os famosos mexillóns, de fácil receita: cozem-se em vinho branco, com louro. O petisco é acompanhado com o Loureiro branco da região de Orense.
Os nossos irmãos galegos não brincam em serviço e sabem promover os seus produtos nativos. Chegaram ao ponto de criar para o mexilhão local uma "Denominatión de Orixe Mexillón de Galicia". Aliás, são pelo menos 27 os produtos da Galiza classificados com denominação de origem protegida. Eu disse 27, só na Galiza!
E nós por cá?
Em 1946, o ditador bafiento que foi Salazar impunha-nos uma vida de miséria franciscana. Para ele, enclausurados é que estávamos bem: nada de estrangeirices e muito menos progresso, não fosse o diabo tecê-las. De Espanha, nem bom vento nem bom casamento...
E se a Revolução de Abril acabou com a clausura, já os fundos da então CEE foram mais úteis na compra de Mercedes e de casa nova, tudo ao estilo novo-rico.
Já agora, ela que fica aqui tão perto: a ria de Aveiro, serve para quê?
Para dar uns passeios de mercantel ou moliceiro e para alguma piscicultura a viver momentos de amargura, deixando o vasto potencial da ria entregue aos mosquitos.
E de quem é a culpa?
Dos sucessivos governos, pois claro; mas também dos nossos autarcas.
E tudo porquê?
Porque, bem lá no fundo, continuamos enclausurados por dentro.
É por estas e por outras que continuamos a anos-luz dos nossos irmãos galegos.
*
- Editei alguns textos sobre a Galiza no NB, que podem ler
AQUI, ALI e ACOLÁLEM.
- E já fui pescador semi-profissional de robalo na boca da barra; de barquito, pois claro.