
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Blogue do Rui Luzio: hecho en Venezuela

terça-feira, 2 de setembro de 2008
Tardes do Piri-Piri
Fosse nas férias escolares, fosse aos fins de semana, a esplanada do café Piri-Piri dessa aldeia pujante e contestatária que foi Bustos era o ponto de encontro dum número apreciável de jovens e libidinosos bustuenses. Ali vivemos as famosas tardes do Piri-Piri, entre finos, pratinhos de tremoços e alguns pires de pequenos búzios da ria que a Ti Cremilde ia pachorrentamente servindo à medida que contávamos as escassas moedas de escudo.

Regressados do que já apelidei de "Agosto bustuense da Costa Nova" e a partir da sede instalada na esplanada do Piri-Piri, ajudámos a organizar em Setembro de 1970 um Encontro de Estudantes da Bairrada, cuja iniciativa partira do pároco local. O Padre Vidal era um indefectível da ditadura salazarista e tinha fé de que acabaríamos por lhe cair no regaço; só que a malta tinha outras ideias e, mal ele sonhava, aproveitámos mas foi para ir sacudindo as consciências que o regime reprimia ferozmente.
Estranhamente, o pároco tinha uma empatia muito especial por mim: eu era rebelde mas franco e isso atraía-o. Uns bons anos antes, aí pelos meus 10/12 anos, era uso na missa de domingo o sacristão mandar perfilar meia dúzia de miúdos traquinas no 1º degrau logo a seguir ao altar. Calhava-nos sempre a triste sina...até que um dia engendrámos a mais rebelde das conspirações:
Aproveitando um dos solenes momentos em que o pároco ajoelhou de costas para os fiéis, um de nós atou-lhe os dois atacadores dos sapatos; ao querer levantar-se após a sentida oração, o Padre Vidal estatelou-se no chão ante o altar. A risota foi geral, mas o par de tabefes com que o bondoso sacristão brindou cada um dos atrevidotes caiu que nem raio castigador.
A missa continuou a pedido do Senhor, que lembrou aos crentes o miúdo traquinas que um dia também Ele fora.
Quem sabe se o irrreverente episódio não fez de nós melhores filhos desse deus que está no coração dos homens e das mulheres de bem.
Bem haja a mulher de bem que foi a Ti Cremilda!
domingo, 31 de agosto de 2008
Às armas!

Quem lida diariamente com os tribunais, sobretudo no patrocínio dos arguidos, percebe facilmente que os delinquentes se vinham convencendo cada vez mais da sua impunidade: numa Justiça feita por tansos, aqui no sentido de gente com excesso de boa fé que acredita cegamente na bondade dos seus concidadãos e nos ideiais regenerativos, o crime compensa mesmo. Se não compensasse, não estaríamos a assistir ao actual aumento da criminalidade violenta, sobretudo a que incide sobre os chamados crimes contra o património.sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Regresso às corridas
Vila Real foi durante muitos anos a catedral do desporto automóvel. A partir de 1931 e até 1991 realizou-se no perímetro urbano da cidade o famoso Circuito de Vila Real. Era uma festa para a malta, que tinha a oportunidade de observar de perto as máquinas que só conhecíamos das imagens da tv a preto e branco ou dos jornais e revistas.Claro que a credencial dele nos deu acesso total à pista e às boxes; e, evidentemente, aos pópós...
Daí a foto com ares de figurão junto dum dos melhores bólides da época: o Ford GT40.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Ordenações do Reino
Extraído da Collecçaõ da Legislação Antiga e Moderna do Reino de Portugal / Parte II. /Da Legislaçaõ Moderna. /Tomo III. / Coimbra: /Na Real Imprensa da Universidade. / anno de MDCCCVII / Por Resolução de S. Magestade de 2 de Setembro de 1786 / Ordenações e Leis do Reino de Portugal / Publicadas em 1603 /Livro Primeiro/. Antes de adoptarmos o sistema de codificação napoleónico [de que é exemplo o Código Civil de 1867, conhecido por Código de Seabra por ter sido seu autor o Visconde de Seabra, com palacete ali em Mogofores], as leis e determinações régias estavam dispersas por textos avulsos.
Um dia, duma assentada, adquiri não só os 3 volumes das Ordenações Filipinas, mas também a Collecçaõ Cronologica dos Assentos das Casas da Supplicaçaõ e do Cível (impressa em 1791) e a obra mais rara, as D. JUSTINIANI IMPERATORIS P.P. AUGUSTI / INSTITUTIONUM JURIS CIVILIS / EXPOSITIO METHODICA/, impressas em Parisis (Paris) em 1757 e conhecidas por Instituições Justinianas. Nos meus tempos de faculdade tive de aprender esta gaita toda e citar de cor excertos da história do direito português e do próprio direito romano.
Linguagem HTML
terça-feira, 26 de agosto de 2008
A balança da justiça
"- É a Justiça - disse por fim.- Agora já reconheço a figura - retorquiu K. - cá está a venda a tapar os olhos e aqui a balança. Mas ela não tem asas nos pés? Não está a correr?
- Está - respondeu o pintor. - Tive que a pintar assim por encomenda; na verdade trata-se da representação da Justiça e da Vitória numa só figura.
- Acho que não ligam bem uma com a outra - comentou K., sorrindo - a Justiça tem de estar quieta, de contrário faz oscilar a balança, o que torna impossível qualquer sentença justa."
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Retrato com sombras
Foto da família materna.
Resta a menina da direita, para nos lembrar o chão que pisamos. Foi essa menina que o meu pai levou à igreja. (*)
E faz hoje 86 anos.
O retrato é do tempo de fotógrafos que marcaram Aveiro e foi tirada na Foto Moderna (Electrica) de João Ramos / Rua Coimbra / em frente à estátua de José Estêvão / Aveiro / JUN 1943.
(*) Do poema Mãezinha, de António Gedeão / Linhas de Força / Edição do autor de 1967, impressa na Tipografia da Atlântida Editora, de Coimbra.
domingo, 24 de agosto de 2008
500.000 Magalhães e um pedido de desculpas ao meu padrinho
Se descerem rio abaixo até ao meu texto do passado dia 8, verão que não me portei lá muito bem com o meu padrinho. Serve o presente para salvar a minha honra e pedir-lhe desculpas públicas dos meus erros, como passo a explicar:Provando que continua cheio de razão e que só muito raramente se engana, o meu padrinho apresentou ao país e ao mundo o pequeno portátil que vai ser distribuído a 500.000 crianças do 1º ciclo escolar. Em homenagem ao circum-navegador, baptizou o brinquedo de Magalhães. Na minha modesta opinião o Magalhães está para Portugal como o Lego está para a Suécia.
O pequeno Magalhães é o pónei de batalha dos programas e-escola e e-escolinha do governo do meu padrinho, o que vai dar no seguinte: os putos do escalão A não pagam nada pela sua distribuição e os do escalão B pagarão 20€. Apenas os pais e encarregados que não beneficiam de acção escolar é que terão de desembolsar 50€. Uma verdadeira pechincha. O pequeno Magalhães é um folar ao nível do melhor dos padrinhos!
Resistente ao choque, à água e aos líquidos em geral (por razões de mero pudor, o meu padrinho omitiu que também resistia ao xixi), o pequeno portátil apresenta-se em suaves tons azul-marinho e branco. Munido dum processador da poderosa Intel e com cerca de 6 horas de bateria, tem acesso à internet e vem com software de última geração.
Palavras do meu padrinho, que adiantou que o Magalhães está a ser “construído” em Portugal e que a sua ligação à internet terá uma largura de banda de 48 “megabytes” por segundo.
Amantes da democracia como ele, meu padrinho, a Líbia e a Venezuela aprestam-se para nos comprar milhões de pequenos Magalhães, certamente a troco de mais petróleo.Entrevistado pela Exame Informática, o vice-presidente executivo da Intel não poupou elogios ao governo do meu padrinho: “O que Portugal está a fazer é, sem dúvida, um bom exemplo para outros países.” (*)
Padrinho:
- Já ninguém constrói computadores; é mais barato assemblá-los, isto é, sacar os componentes aqui e ali, de preferência onde a mão-de-obra for ao preço da chuva; reunidos os componentes, monta-se a máquina. Et voilá: simples e barato. Sabe, é tal qual a canibalização que a malta fazia na guerra colonial com as peças das viaturas Unimog: de 3 chaços velhos fazíamos 1 em condições de andar.
- Já agora: a velocidade de acesso do Magalhães é de 48 megabites por segundo (Mb/s) e não de 48 megabytes (MB/s). Olhe que 1Mb/s corresponde apenas a 0,125MB/s; assim sendo, são precisos 8 megabites para chegar a 1 megabyte.
- Diz-me ele: Gaita, afilhado, isso é que me saíste um informático de 1ª água!
- E ó mais não sou engenheiro! – Respondi-lhe eu, ao mesmo tempo que lhe virava as costas e me afastava em passo de corrida.
Não fosse ele atirar-me com o Magalhães que trazia debaixo do braço...
________
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Relatos de Guerra

Em Fevereiro de 2007, o general designado pela NATO assumiu o comando das tropas no Afeganistão. Tinha sob a sua alçada 33.000 soldados. Mais de um ano depois, os contingentes da coligação internacional somam 53.000 operacionais de 40 países.
Segundo o comandante McNeill este número está muito abaixo das estimativas de contra-insurreição do Pentágono. Se estas fossem seguidas com escrúpulo cerca de 400.000 militares ocupariam hoje posições em território afegão. Quem manda, sabe.
Entretanto, regressou do Afeganistão o contingente português de 162 militares das forças
especiais da Brigada de Acção Rápida do Exército.Embora seja conhecido o elevado nível de prontidão desta unidade, a rapaziada não se pode queixar da falta de sorte: apenas foram atacadas por forças taliban numa emboscada na perigosa zona de Kandahar, quando regressavam duma missão.
As emboscadas na altura do regresso de uma missão são típicas neste tipo de guerra. Foram 15 minutos debaixo de intenso fogo, o que foi uma sorte. Mais sorte foi não termos sofrido baixas. A mesma estrelinha da sorte que me acompanhou durante 26 meses, obviamente sem a ajuda dos apontamentos aqui do lado.
Quando as mortes em combate batem à porta, como aconteceu recentemente aos 10 militares do contingente francês, os responsáveis políticos e militares martelam na tecla da “causa justa” e da “honra”. Conheço o discurso de ginjeira.
É tudo muito lindo, pois é, mas a tecla da malta e da família que fica por cá a roer as unhas passa logo a tocar uma música diferente.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Hugo Pratt:1927/1995
Claro que o Corto me enchia as medidas, quer pelo personagem em si, quer pela forma sedutora, mas profundamente realista, como o autor traçava os personagens e o mundo que os envolvia.
Hugo Pratt faleceu na sua casa da Suíça, com vista para o lago Léman. O serviço religioso foi acompanhado por temas de jazz do seu amigo Dizzy Gillespie e o padre leu passagens do livro “O desejo de s
er inútil”. Faz hoje 13 anos.Hugo Pratt visitou várias vezes Portugal, uma das quais nos negros anos 50 e gostava muito do nosso cantinho; se calhar, pelas razões que o poema abaixo tão bem exprime.
- Nota final: Textos e imagens sobre Hugo Pratt e Corto Maltese é coisa que não falta na web, por exemplo AQUI. Viagem até lá, porque o sonho…

…é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Carro de bois
O governo pôs todas as polícias e meios ao seu alcance à procura do infeliz desaparecido.
Entrevistado pela nossa redacção, confessou entristecido o director da PJ:
- É uma pena, sabe. Tratava-se dum exemplar quase único ainda no activo. Era um ex libris que os turistas - sobretudo os queridos ingleses – adoravam registar nas suas máquinas digitais. Ainda por cima, os poucos que se conhecem ou jazem mortos a decorar os jardins fronteiros dalgumas casas da região ou estão atravancados no meio de tudo quanto é tralha, inacessíveis à nossa investigação.
Que raio de coincidência! Este caso faz-me lembrar o daquela menina inglesa que desapareceu, sabe a Madalena, aquela…
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Cultura da vinha: na Galiza é a sério. E nós por cá?
Os técnicos chamam-lhe vitivinicultura e foi uma das minhas especialidades até ao ano passado. Ainda me está no sangue e até o corpo me diz que quer continuar; só que a realidade é outra: a vinha do Portinho que o meu pai tanto valorizou nos últimos 30 anos já foi chão que deu uvas. Já acamado, dizia-me:
- Deixa-te disso. Arranca mas é o que ainda está de pé, que isto não tem futuro.
Tinha razão, pois tinha; mas o que deixou de valer para nós, continua a valer para os nossos irmãos galegos, que souberam casar a produção de vinhos com o turismo; para ser mais preciso: vivem de paredes meias.
A prova provada do que afirmo está nesta imagem tirada dum hotel de Sanxenxo há precisamente um ano.
E nós por cá? – Perguntarão.
Há um ano atrás, ainda influenciado pelo galego, escrevia mais ou menos isto no Noticias de Bustos:
...
“ Chão que deu uvas
Depois duma curta mas frutuosa viagem à região vinhateira galega, um conhecido vitivinicultor bairradino nas horas vagas retoma produção do famoso Bical e Maria Gomes!
Fruto dessa viagem e das influências movidas, o vinhedo da família, sito no Portiño - Mama Rosa, está em vias de ser recuperado com o apoio do FEDER (Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional), da Xunta de Bustos e do Axuntamento de Olivera do Barrio!
Este feliz desenlace só foi possível porque o Departamento de Turismo Rural e da Defesa do Património Agrícola e Cultural do Ejecutivo Municipal fez questão em cumprir - conferindo-lhe prioridade máxima - uma promessa eleitoral que vinha sendo mantida no mais absoluto sigilo.
Na realidade, o Departamento faz questão em pôr a região vinhateira da Bairrada Norte no mapa turístico e promocional do Pais, da Europa e arredores.
O novo ejecutivo contratou já uma poderosa e cativante campanha promocional, que ocupará tudo o que é outdoors nacionais e circunvizinhos, sob o lema “ALLBAIRRO”.
Segundo as próprias palavras da responsável pelo pelouro, “o nosso objectivo é articular de forma bem oportuna o sequioso mercado inglês com as nossas RAÍZES, neste caso as reportadas à presença árabe na região, presença essa que, infelizmente e para mal dos nossos pecados, foi desbaratada pelo conhecido etarra que dá pelo nome de Afonso Henriques, de alcunha “O Conquistador”.
A população concelhia promete festa da rija na inauguração da FIACOBA, que este ano irá decorrer nas moderníssimas instalações do Pavilhão das Feiras e Congressos, na Zona Industrial de Vila Verde, desde logo pela mais-valia que representa uma promoção forte e aguerrida do melhor fruto da nossa terra - os vinhos brancos, sobretudo os da matriz Bical e Maria Gomes.
Poderemos já adiantar que, com a promoção de tão auspicioso evento, a rentabilização dos custos de investimento do gigantesco pavilhão das feiras (e também dos muitos congressos que se adivinham) fica garantida a curto prazo, pois passarão a realizar-se anualmente e com efeitos a partir do próximo ano, as I Xornadas Gastronómicas do Viño, do Lechon, do Rojon da Tripa e do Pao, as quais irão ter lugar na Zona Industrial de Villa Verde, de 27 do Xullo ó 31 de Agosto de 2008.
Vai ser uma festa!
É o muito que vos conta o oscardebustos “
...
À pergunta lá de cima, respondo eu:
- Nós por cá vamos bem, muito obrigado.
A prova provada do que afirmo está neste cartaz que vos deixo…
domingo, 17 de agosto de 2008
Cultura de bivalves: na Galiza é a sério. E nós por cá?
A ria de Arouca está infestada de plataformas flutuantes, chamadas "bateas de mexillón", que ali foram introduzidas a partir de 1946 por empresários catalães.
Cada batea leva cerca de 500 cordas, que podem ir até aos 12m de profundidade, cordas essas onde o mexilhão pequeno - a par doutros bivalves - começa por ser preso depois de metido numa rede biodegradável. Ao fim
Durante o passeio de barco são-nos servidos os famosos mexillóns, de fácil receita: cozem-se em vinho branco, com louro. O petisco é acompanhado com o Loureiro branco da região de Orense.
Os nossos irmãos galegos não brincam em serviço e sabem promover os seus produtos nativos. Chegaram ao ponto de criar para o mexilhão local uma "Denominatión de Orixe Mexillón de Galicia". Aliás, são pelo menos 27 os produtos da Galiza classificados com denominação de origem protegida. Eu disse 27, só na Galiza!
E nós por cá?
Em 1946, o ditador bafiento que foi Salazar impunha-nos uma vida de miséria franciscana. Para ele, enclausurados é que estávamos bem: nada de estrangeirices e muito menos progresso, não fosse o diabo tecê-las. De Espanha, nem bom vento nem bom casamento...
E se a Revolução de Abril acabou com a clausura, já os fundos da então CEE foram mais úteis na compra de Mercedes e de casa nova, tudo ao estilo novo-rico.
Já agora, ela que fica aqui tão perto: a ria de Aveiro, serve para quê?
Para dar uns passeios de mercantel ou moliceiro e para alguma piscicultura a viver momentos de amargura, deixando o vasto potencial da ria entregue aos mosquitos.
E de quem é a culpa?
Dos sucessivos governos, pois claro; mas também dos nossos autarcas.
E tudo porquê?
Porque, bem lá no fundo, continuamos enclausurados por dentro.
É por estas e por outras que continuamos a anos-luz dos nossos irmãos galegos.
*
- Editei alguns textos sobre a Galiza no NB, que podem ler AQUI, ALI e ACOLÁLEM.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
A um deus desconhecido
Preparadas as mochilas com os apetrechos que a caminhada e o objectivo exigiam, iniciámos a jornada até ao rio Mondego.
Éramos 7 como os magníficos: o anfitrião Ernesto Almeida, o irmão Abel (casado na minha terra), o jovem filho deste – Carlos, o Manuel António e o Paulo Amaral, todos com três elos em comum a uni-los: são nativos de Abrunhosa, familiares entre si e emigrados nas europas: os primeiros quatro em França e o último na Suíça. Os 2 restantes caminheiros eram também migrantes à sua maneira: o covilhanense Fernando Fazenda, ensina nos Açores há 15 anos com a mulher e filha do Ernesto. Eu, migrante sou, em busca sei lá de quantas raízes das terras e das gentes.
O resto de tarde, a mal dormida noite ao relento junto às fragas e canadas (pequenos açudes) do Mondego e os rituais do acordar e do voltar a caminhar fizeram-me lembrar o misticismo desse deus desconhecido que John Steinbeck tão bem descreveu.
Em cada Agosto que passa os meus companheiros de ocasião aproveitam as férias para cumprir uma única vez o mesmo místico ritual: mal atingem o estreito Mondego e sem esperar por recuperar do esforço da íngreme caminhada, 7 vezes se ajoelham em 7 sítios diferentes da borda do rio, como quem lhe beija as límpidas águas; e assim que a luz ténue da madrugada o permite, outras tantas 7 vezes se ajoelham nos mesmíssimos sítios percorridos no fim da tarde da véspera. Só depois o regresso à terra-mãe.
O Ernesto, esse, viveu aqueles momentos com uma devoção e um fervor únicos. De poucas falas, várias vezes me apercebi que sussurrava às águas, quase as beijando. Percebi depois que muito do pai dele - o Ti Manel Almeida - impregnava aqueles ermos. Contou-me que o pai tinha com o Mondego uma relação mística, lhe conhecia de cor o desfiar sussurrante das águas, as voltas que estas davam a contornar os rochedos de granito e até os hábitos dos peixes que então abundavam naquelas águas mansas e que ele era exímio e único nos métodos que usava para os capturar.
Mas o que me contou quando regressávamos a Abrunhosa do Mato deixou-me ainda mais deslumbrado. De propósito, fez com que parássemos num sítio designado por Vale Figueira, ali onde jazia abandonado um casebre de granito que o Ernesto apelidou de palheiro do Cetra. Disse-me baixinho:- Foi aqui que o Cetra viveu até meados dos anos 60, longe de tudo e de todos, sozinho, tendo por companhia apenas uma grande cobra que diariamente alimentava com leite das suas ovelhas; punha o leite numa púcara da resina e a cobra vinha à púcara beber. E, sabe, ele andava metido com as bruxas do monte.
Assim me relatou e os demais companheiros se apressaram a confirmar, não fosse o Ernesto um vivido serrano de 64 anos. A estranha narrativa trouxe-me à memória uma misteriosa personagem da banda desenhada que parecia falar com as cobras e se chamava simplesmente Silêncio. (*)
Quem sabe se não encontraria ali esse desconhecido deus da terra por quem todos um dia daremos a vida.
_______
(*) “Châmume silêncio i sô bontipu”
