segunda-feira, 27 de setembro de 2010
O PESCADOR DE SONHOS
terça-feira, 29 de março de 2016
Carlos Luzio, pescador de tantos sonhos - I
Doze anos antes de ir de abalada o Carlos soletrou este
- Poema datado de 24FEV92
domingo, 15 de março de 2009
pescador de sonhos
Lembras-te daquelas palavras doces que não cheguei a dizer-te nunca?
Lembras-te daquele dia triste
em que não te dei aquelas flores?
Lembras-te, por acaso, daquela praia
ou daquela areia dourada, banhada pelo sol,
onde nunca nos banhámos juntos?
Lembras-te daquelas conversas longas
sentados no banco de um jardim
onde nunca estivemos?
Lembras-te daquele beijo tão suave
que nunca cheguei a dar-te?
Ou daquele dia chuvoso
em que não corremos de mãos dadas,
naquela praia em que não existia
aquele mar verde, sonhado?
Lembras-te daquela casita amarela
com campos de relva que nunca foi semeada?
Chamava-se “yellow fin”,
lembras-te?
Lembras-te daquela cama
onde nunca nos deitámos juntos?
Não nos lembramos de nada
e o tempo passa…
Já nem as recordações do que nunca existiu ficam…
Prometemos esquecer-nos de tudo e de todos…
Lembras-te?
Inhambane, Moçambique, 15/12/1972
Praia do Tofo
- Ver post publicado em 6/10/2004 no saudoso blogue Bustos - do passado e do presente.
- O Carlitos confidenciou-me que compôs o poema na praia do Tofo. A "yelloy fin" era uma casa de praia existente no local e que pertencia ao pai da moça que ele namoriscou num intervalo da dura guerra na fronteira norte; mais me disse que ali foram colhidas imagens de exteriores da novela Jóia de África.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Carlos Luzio: poesia de guerra/poesia de paz
É lembrar que nada acontece por acaso...
...mesmo nada!
Até o futuro parece estar logo ali ao virar da esquina, a anunciar o caminho da primavera.
- Fotos do autor e do sempre presente e envolvido Sérgio Pato, em Bustosgrafias.
sexta-feira, 27 de março de 2009
AINDA ESTOU VIVO

Já perdi o medo
Chegará no seu dia
Hoje levanto-me mais cedo
Madrugar nada me custa.
os teus Amigos,
voltaram a lembrar-te!
Como num poema teu,
mais uma vez,
chamámos-te à vida,
quando tu, desiludido,
preferias morrer.
Por isso nos rimos da morte enquanto estamos vivos.
_
O 1º quinteto e a última estrofe foram extraídos de Ainda estou vivo, poema escrito pelo Carlos em 29.1.2004, 8 meses antes de se ir embora (27.9.2004).
O poema que chamei à vida, Acaso não somos Amigos?, foi escrito no Chioco (Moçambique) em 1971.
[CARLOS LUZIO - O PESCADOR DE SONHOS\ Edição dos Amigos\ 2005]
quinta-feira, 19 de março de 2009
OS PAIS QUE PERDEMOS E A POESIA QUE NASCE
Perdi o Pai num Dia de Rei(s).Só não perdi os meus filhos da guerra, porque os proibi de se irem de abalada sem ordens minhas: era proibido morrer.
Ironia: nenhum morreu (nunca mais esqueço: ó meu alferes, leve-me para a minha mãezinha, por amor de Deus!). E trazendo, levei, que o Ferreira era e é da terra do bom vinho.
Bem a propósito:
A minha conterrânea Marineide vai finalmente publicar o seu 1º livro de poemas. É já neste sábado - dia mundial da poesia, no Salão Nobre da Câmara de Oliveira do Bairro (e não na Biblioteca Municipal), pelas 10H00. Como é seu dever e propósito, o Notícias de Bustos vem lembrando o evento.
A Marineide perdeu o pai que tanto adorava, a maior razão de ser da sua vida.
O Mário ajudava-a estremosamente em tudo o que um filho carece quando as limitações físicas criam barreiras que parecem intransponíveis.
Há mortes que deviam ser proibidas por decreto divino. A do bom amigo Mário era uma delas.
Davam-me especial prazer os momentos de conversa, as mais das vezes à minha porta: tolerante ainda que empenhado política e religiosamente, o Mário era um cidadão duma postura, dignidade e abertura como pouco se vê.
Como admirava muito o meu Pai, hão-de estar juntos no sábado, a saborear lá de cima a concretização do sonho da Marineide.
Merecem ambos a melhor das tribunas, à mão esquerda de Deus como o meu Pai sempre quiz, que à direita os lugares têm outros donos.
Como escreveu o Carlitos Luzio, num dos muitos "bate-estradas" que me enviou de Moçambique, o que nos vale é ainda estarmos vivos
graças adeus.
E lúcidos.
_
Espelhei nas palavras todo o meu Eu
Mesmo que as memórias me atormentassem
Viajei por Mundos cuja distância
Somente a Liberdade compreendeu
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Futuro passado
Em finais dos anos 50/princípios de 60, Bustos era uma terra virada para o futuro.
A embalar o progresso, em 1936 um "brasileiro" da terra apostou num Centro Recreativo de Instrução e Beneficência, com salão de festas e cinema (o famoso Bustos Sonoro Cine, a que não faltou um então inédito sistema de assinaturas, precursor dos cineclubes dos anos 60). Teatro de revista, bandas de música, jornais, farmácia, estação telegráfica e postal, 2 equipas de futebol federado, clube de natação (com uma pequena piscina, onde participámos em tantas provas e brincadeiras), cafés com salas de bilhares, 2 restaurantes, talho, peixaria.
Um sem fim de sinais duma terra de gente de progresso; e de ideias progressistas, de que foi exemplo a perseguida União Liberal de Bustos.
Nada parecia faltar nesses anos de ouro. Salvo a Liberdade.
Em princípios de 60, um grupo de bustuenses avança com uma Comissão de Melhoramentos, à qual se deve, nomeadamente, a criação duma sala de leitura da Biblioteca Calouste Gulbenkian, um colégio (então Externato Gil Vicente, hoje IPSB, com cerca de 1.000 alunos), posto da GNR e agência bancária.
Não nos faltaram dias, tardes e noites quentes, em especial as tardes quentes do Piri-Piri de que o saudoso Carlos Luzio falava.
Com o 25 de Abril chegaram os inevitáveis movimentos associativos de matriz social, personificados em duas instituições de solidariedade social - a ABC de Bustos e a SOBUSTOS. Não tardou a surgir o Orfeão de Bustos com o seu Grupo de Cantares.
E pouco mais.
Bustos foi morrendo, morrendo; mais de morte matada do que de morte morrida.
Tal como confessei AQUI, por nossa culpa, Bustos já foi.
Até renascer das cinzas do passado.
_
- Bibliografia consultada: Arsénio Mota, Bustos - elementos para a sua história, edição da Associação de Beneficência e Cultura de Bustos, 1983; e, do mesmo autor, Bustos do Passado, em edição da Junta de Freguesia de Bustos, 2000. Busca nos blogues hiperligados.
- Fotos do Jaime e do Milton Costa (slide da conferência sobre a origem da vida).
sábado, 21 de março de 2009
Anda livre na rua e não conheças a tristeza
Este é feito de água apenas
Água benta
Para quando o diabo atormenta
Água potável
Para o corpo estar saudável
Água quente
Para um banho urgente
Água fria
Para começar bem o dia
Água de colónia
Para cheirar bem na cerimónia
Água do mar
Para lançar a rede e pescar
Água do rio
Para servir de caminho ao navio
Água salgada
Para aliviar os pés da longa caminhada
Água do Jordão
Para dar baptismo ao novo cristão
Água do Sena
Para inspirar este poema
Água canforada
Para que a dor seja ultrapassada
Aguarela
Para que o teu rosto fique pintado na tela
Gin com água tónica
Para uma viagem supersónica
Aguardente
Para bochechar quando dói o dente
Água mineral
Com bolachas de água e sal
Para quando o fígado andar mal
Água doce
Para matar a sede que o Verão trouxe
Água destilada
Para que a bateria não fique descarregada
Água oxigenada
para que a ferida fique sarada
Água inquinada
Que não serve mesmo para nada
Água da chuva
Que no Verão assenta como uma luva
Água pesada
Com uma força astronómica
Misturada com plutónio
Faz uma bomba infamemente atómica
Para nos queimar o último neurónio
Que nos reduz a nada
Pobre povo ancestral do Japão
Que ainda hoje não levanta os olhos do chão
Água do Tigre
Água do Eufrates
Onde se morre em estúpidos combates
E eu passeio-me triste e cabisbaixo
Vendo como o planeta vai por água abaixo...
_
Soube tão bem ler-te este poema, ali onde sentes o odor dos cravos vermelhos!
Hoje é Dia de Santo Eugénio de Andrade
da nova poetisa de Bustos, Marineide Santos
E é sempre dia do Carlos Luzio,
sempre
sempre
até sempre
*
É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar
_
EUGÉNIO DE ANDRADE\Coração do Dia [1956-1958]
terça-feira, 17 de março de 2009
mulher de rua
Joana é uma mulher de rua
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