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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Filme luso-francês rodou cena em Bustos

Em princípios de 2011 escrevi no Notícias de Bustos um texto em que trouxe à baila a interessante história dum filme luso-francês com o título DÉDÉ, filmado em 1990 e em que aparece uma cena de baile dos anos 50 filmada no salão de baile de Bustos.
Não faltaram jovens raparigas e rapazes, a par de algumas mulheres e homens adultos de Bustos, a entrar na fita. 
Todos contratados como figurantes, a troco duns escudos.
O texto animou as hostes e deu-se o caso da discussão ter gerado luz.
Leiam-no no Notícias de Bustos, que vale a pena. Se faz favor, dêm um clic com o ratinho aqui mesmo. Vão ver que vale a pena.

(as atrizes Diana Rodelo, Gladys del Carmen e Anita Luzio)
*
Tempos depois, entreguei uma estafada cópia da cassete do filme ao sempre prestável Telmo Domingues, a fim de a tentar adaptar para CD. Sem sucesso.
Obtive a cópia por indicação do bom amigo Cipriano Nunes, que continua por terras de França. 
O Cipriano anda um pouco calado, se calhar porque Bustos tem sido tratado abaixo de cão, embora não faltem promessas de voltarmos a ser o paraíso do concelho, uma espécie de nirvana ou Changri-Lá.
A talhe de foice:
Tenho ganho algum tempo a vasculhar textos publicados no NB e aquilo é um fartote de rir quando se aproximam as eleições locais.
A razão da minha busca é simples: já se sente no ar a preparação dos exércitos partidários locais, pelo que não tarda muito e lá regressará mais uma vez a diarreia das promessas, essa espécie de "período" ou cio que ataca de 4 em 4 anos.
Não tardarão as juras de amor e outras tretas, que ficam bem, sim senhor, mas é quando nos apaixonamos assolapadamente, perdidos de amor.
Até para quem está perto das 68 bonitas primaveras (com alguns invernos de permeio) deve ter a sua graça e estou tentado em voltar a experimentar.
É certo que não será a 1ª vez, a tal que é muito saborosa, como lembrei aqui
Quanto a esta matéria, que é tabu para muitos mas de lana caprina para mim, estou com ganas de voltar a experimentar.
Ando a fazer trabalho de casa e sinto-me quase preparado para saltar para a espinha do 1º político ou política local que aparecer a prometer mundos e fundos para Bustos.
Escusam de me pedir para ser mais educado: vai ser logo ali, à frente de todos, como terá feito o cão cá de casa, de seu nome gatuso, que andou uma semana a alambazar-se com uma linda cadelita que apareceu cá na rua e que o levou com ela durante uma semana inteirinha. o sacaninha regressou ontem de manhã, escanzelado como um cão, com a dita na esteira, submissa mas com ares de quem curtiu à tripa fôrra.


Também estou em fazê-lo, a arrimar-me a eles e a elas, a não ser que os mais educados me peçam para utilizar métodos mais expeditos e civilizados, como, por exemplo, mandá-los para um sítio que eu cá sei mas que agora não digo.
Aceitam-se sugestões alternativas, como aquela de 1994, aquando dos boicotes locais às eleições para o parlamento europeu: não votámos e fizemos do boicote uma festa verdadeiramente popular.
Como se aceitam interessados na ninhada que também não tarda aí, decorridos que sejam os dois meses de gravidez canina.
A propósito, pergunto ao parisiense Cipriano: porque Paris em França e não paris em vossas casas?
Enquanto a resposta vem e não vem, vou ali e já venho...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Carlos Luzio: poesia de guerra/poesia de paz

No inesquecível almoço/espectáculo de encerramento das comemorações do Dia de Bustos, emocionado e envolvido, li o seu poema das águas, que podem reler no Notícias de Bustos.
A meu ver, mais do que a poesia do seu dia a dia de encontros felizes e infelizes, de encontros com a morte que sabia estar à sua espera de gadanha em punho, pronta para o ceifar no momento final...
...até mais do que a poesia do amor, que tão bem retratou a partir do próprio teatro da guerra colonial que viveu na fronteira norte de Moçambique no fantástico e inebriante Poema para esquecer...
...ou em Mulher da rua...
...o Carlitos deixou-nos poemas de guerra carregados de dor e raiva.
Por razões à vista, o que mais me marcou arrastei-o para o blogue que criei sobre a minha gloriosa unidade militar de intervenção em terras angolanas, a CART 3564, onde a palavra camarada fez verdadeiro sentido.
Esta companhia de criados para todo o serviço da ditadura salazarenta dependia dum tal Comando Operacional de Tropas de Intervenção (COTI 1) sediado com todas as comodidades em Luanda e que estava sob as ordens duns oficiais superiores com quem lidei diretamente durante 4 meses e que não passavam dumas grandessíssimas bestas, tudo gente tão convencida e oportunista como os nossos políticos de hoje, não fossem o ar condicionado e os demais luxos de Luanda ou de Lisboa altamente inspiradores.
O texto onde chamo o Carlos à minha guerra pode ser lido AQUI e recomenda-se.
*
Lembrar o Carlos Manuel dos Santos Luzio, o Carlitos Luzio, poeta de Bustos/de Bustos poeta...
...é lembrar que estamos vivos, mas mortinhos por viver e agir.
É lembrar que nada acontece por acaso...

...mesmo nada!
Até o futuro parece estar logo ali ao virar da esquina, a anunciar o caminho da primavera. 
___
- Fotos do autor e do sempre presente e envolvido Sérgio Pato, em Bustosgrafias.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Linhas de força

 
 
*
- António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, foi professor de físico-químicas.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Contigo


Sou eu, sou eu que não durmo,
contigo nos sentidos.
Sinto-me caminhar sobre as águas
do meu corpo - não sejas queimadura
nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.


- Poema: Contigo / O outro nome da terra, Obras de Eugénio de Andrade/20, Edição Limiar, outubro, 1988.
- Quadro: La Vénus d´Addis Adèba, colagem de Nuno Aromidochu Aires, consultável aqui.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A minha campanha alegre

Amanhã de manhã vou passar com o meu trator pela casa do amigo Narciso Cardoso, a ver se trago a capinadeira dele, por empréstimo de fim de semana.
Ficam a saber: a minha campanha eleitoral vai ser à moda do Dr. Paulo Portas, mais conhecido por Paulinho das feiras.
Enquanto aguardo pela próxima Feira do Sobreiro - que é mensal, aos 9 e 22, como muito bem sabe PP - neste fim de semana vou dedicar-me sozinho  à reforma agrária, que sou contra a coletivização dos meios de produção.
Deste modo, quando voltar a reencontrar o Dr. PP na Feira do Sobreiro do próximo dia 22, já lhe posso levar um regaço de tomates fresquinhos do meu quintal, como passo a antever:
...
Vestido de Princesa Santa Isabel, apareço ao caminho do Rei.
O que levais na abada, Isabel? - Ele Me interpela.
E Eu digo: são tomates, Senhor.
E então Ele diz: - Tomates em Maio, mês da Virgem Maria? Não, não pode ser!
E Eu digo: São tomates, meu Senhor.
- Então se são tomates, mostra! [diz o Rei].
E então Eu estendo a abada e o que tinha ali era tudo tomates, que logo rolaram para o chão em direção ao Rei, pela força sobrenatural que o faz atrair tudo.
E então o Rei grita, exultante: - Milagre, milagre!!
Portanto, Ele fica Santo, é o Rei Santo Portas.
E há-de ser canonizado.
...
É uma história muito bonita e que há-de ser muito contada logo que sejam conhecidos os resultados eleitorais das Europeias /2014.
____
- Texto adaptado DAQUI.
- Fonte: BiblioAA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas), Faro, n/a.
- Também guardo muito boas recordações da minha anterior Campanha Alegre, em 2008. Se querem saber, até para comparar, vão AQUI.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vidas de muitas guerras e paz tão pouca

Gosto de leituras "entre linhas". De mensagens subliminares.
E assim respondo às interrogações de alguns/algumas amigos(as) sobre o post antecedente.
E gosto muito de poesia, sobretudo do meu Eugénio de Andrade, velho companheiro da mesa de cabeceira, como gosto de vaguear pela "Rosa do Mundo / 2001 Poemas para o futuro", um extenso e abrangente (no tempo e no espaço) trabalho de recolha de poesia feito para o "Porto 2001", Edição Assírio & Alvim.
Este gosto vem-me dos tempos da Coimbra de 1966/69, gosto que procurava conjugar (conciliar?) com a luta contra a ditadura, ali desde a rua estreita onde há cerca de 70 anos vive a Real República Bota Abaixo.

Claro que o poema "Despedida" nada teve ou tem a ver com a porca da política. Porca, por mor dos políticos de manjedoura, sejam eles peixes de águas profundas ou cá mais da beira-água.
Valha a verdade: o meu "padrinho" Sócrates - de quem tanto falei e com quem tanto brinquei e gozei neste blogue - despediu-se do poder com dignidade.
O rapazola que agora lhe tomou o poiso precisa de muito mais coragem para dar a volta ao regabofe em que o país se atolou do que aquela que aparenta revelar.
Desde logo, precisa de se livrar do padrinho de baptismo político. Como precisa de se livrar dos novos padrinhos e da legião de afilhados que não tardarão a bater-lhe à porta a exigir o folar da Páscoa, ansisosos de se tornarem "califas no lugar do califa."

Eu, limito-me a precisar de paz.
E de me ir libertando das muitas guerras que vivi e nas quais fui parte activa; por vezes, demais, armado em guerreiro e líder de Operações Especiais.

Preciso de me ir libertando dessa guerra que me persegue há 39 anos, feitos este mês e que continua alapada ao corpo e à alma, um pouco por culpa do tio Segismundo Freud. Lá me vou entendendo com ela, procurando gerir os diabinhos que me perseguem, brincando com eles.
Sempre, mas sempre, sem esquecer aquele lema: "Ranger uma vez, Ranger toda a vida", razão que julgo me faz manter de pé firme, como que predestinado a não morrer na praia, longe dos combates de que me recuso a fugir ou a deixar matar de morte matada. 

Mas o que mais preciso agora é de me libertar das outras guerras, sobretudo das que se intrometem e vandalizam as nossas vidas pessoais, íntimas e afectivas.

Por isso me soube tão bem aquela tarde inteira de paz que vivi ontem na casa da muito amiga Dina, sita mesmo à beirinha do mar da Costa Nova, logo ali ao atravessar da rua, onde até tempo sobrou para trabalhar.
Preciso de me reencontrar com o mar, paixão que me acompanha e impele dede os primeiros recordares da infância.

É do que estou precisado, segurando na mão esquerda [que a direita tem outros donos] a poesia do Eugénio de Andrade, esse  génio que tão bem soube conjugar a escrita com a terra e com o corpo.
...
Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.
...
___
- 1ª imagem: extraída de "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Notícias Editorial/2000.
- 2ª imagem: pôr do sol na Costa Nova, ontem.
- O poema, esse, saquei-o do XXX capítulo de "As Mãos e os Frutos", de Eugénio de Andrade / Poesia e Prosa [1940 - 1980], Edição Limiar, 2ª edição revista e aumentada.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Os dióspiros e a crise

As recentes chuvas vão acabar de vez com eles. Os que não racharem com o excesso de água irão perder aquele sabor adocicado e envolvente. Estão nas oitavas da festa, a modos de quem se despede até para o ano se Deus quiser. 
Decidi o que fazer aos dióspiros que ainda restam na garbosa árvore do quintal: os que não tiverem préstimo para comer ofereço-os às galinhas, petisco que adoram, tal a ferocidade com que disputam os que lhes lanço às patas.
Os quintais das aldeias bairradinas são um alforge de fartura e riqueza frutícola: ele são as laranjas, os figos, as peras, os quivis, as ameixas das mais variadas qualidades, os limões e até as maçãs por quem passo como cão que não conhece dono.
As galinhas que ajudo a alimentar adoram a fruta que quase diariamente lhes ofereço. Ainda por cima não são esquisitas: comem do que lhes damos, não reclamam e, invariavelmente, são sacrificadas para satisfazer a nossa gula.
Bem vistas as coisas, há uma espécie de luta de classes entre os humanos e as aves de capoeira: a troco dum mísero salário vendem-nos a sua única força de trabalho, a carne gostosa e até os ovos cuja fartura vai minguando à medida que o frio aumenta.
Tanta riqueza gerada a troco de tão baixos custos de produção!
Como não me incluo no grupo dos capitalistas e exploradores, pago-lhes muito acima do salário mínimo nacional e não lhes reduzo nem corto os benefícios sociais.
Se alguém tem que pagar a crise que sejam os ricos e poderosos.
As galinhas é que não!
__
- Falei dos dióspiros AQUI.
- Recomendo vivamente a crónica do Belino Costa sobre os quivis da nossa aldeia, no NOTÍCIAS DE BUSTOS.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O PESCADOR DE SONHOS

Nascido a 10/8/1947, o Carlos Luzio viveu a mesma infância e juventude que tantos de nós: entre escola, colégio e frenéticas férias do mais puro gozo, traquinices, malfeitorias e bailaricos de entesoar.
Mal teve tempo de acabar o então 7º ano do liceu em Oliveira do Bairro. Em Setembro de 1970 atracava disfarçado de alferes miliciano no porto de Nacala, região moçambicana do Cabo Delgado. Esperava-o, como a tantos de nós, aquilo a que chamava a puta da guerra.
Guardo desse tempo uma preciosa colecção de cartas (sobretudo, em forma dos célebres bate-estradas), que me ia enviando do código postal militar que não identificava o local da origem, não fosse o inimigo saber onde a malta estava a derramar a juventude.
Ciente disso e num rasgo único de fidelidade à Pátria e aos seus segredos militares, o Carlitos identificava-se assim no remetente:
Silvestre Rojo Sommel
Alferes Mil.º
SPM 1904
Acredito piamente que foi esse disfarce que o safou da merda que era levar com uma mina nos tomates.
Chegado a Mocímboa do Rovuma (fronteira com a Tanzânia), ajudou a construir o acampamento militar:
Parece um circo, um autêntico circo. Barracas de lona, luz eléctrica e palhaços, muitos palhaços, a começarem pelo capitão.
Estava eu a caminho de lhe seguir os passos na sagrada defesa do império quando o Carlos soube da notícia do meu casamento (o 1º de vários, a bem dizer...), notícia que o deixou particularmente entristecido:
...são logo dois azares juntos, a tropa e o casamento. O pior é que a tropa são só dois anos e o casamento é uma colhoada deles.
...
Homem de afectos e amizades mil, transferiu para os seus poemas muitos desses amores, entremeados pelo desejo de paz e liberdade:
Num quarto
Quatro paredes apenas

Lugar para uma janela
Que nunca se abriu
Lugar para muitas cenas
Que só em sonhos...

Lugar para se morrer
A sonhar com liberdade.
(Chioco, Moçambique - 12 JUN 71)
...
Faz hoje 6 anos que o Carlitos Luzio foi de abalada, que a guerra da vida não quiz a paz com ele. Despediu-se assim noutro dos seus poemas:
Chegou o momento de dizer adeus,
De emalar os meus sonhos
E tu os teus.
...
O Eugénio de Andrade diria que o Carlos foi com as aves.
Voa, voa, Amigo de tantos Amigos!
___
- Texto adaptado de "Carlos Luzio -  Pescador de Sonhos", 2005, Edição dos Amigos.
- Autor da foto: Carlos Micaelo.
- Ler  post com o Poema das Águas, no NOTICIAS DE BUSTOS.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Canção para os mineiros chilenos

Pouca é a distância entre a vida e a morte.
O caminho – ponte entre o mundo de baixo
e o azul celeste –
é mais curto que o caminho daqui até lá baixo.
O mesmo que entre a vida e a morte.
__
- Canção dos índios Araucanos, extraída de “Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro”, Porto 2001, Assírio & Alvim, 3ª edição, pág. 130.
- Imagem: Lloncon, líder mapuche (ou araucano), povo indígena da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina. [extraído da Wikipédia]

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O rio, o vento e a vida

O rio passa, passa
e nunca cessa.
O vento passa, passa
e nunca cessa.
A vida passa:
nunca regressa
*

Faz hoje 15 anos que morreu Hugo Pratt, o celebrado autor de Corto Maltese. Lembrei-o AQUI.
- O poema é dos índios Aztecas, América do Norte, em tradução de Herberto Helder. Publicação: "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Assírio & Alvim, 3ª edição /Abril de 2001, pág. 140.
- A imagem ao lado foi extraída da contracapa de "Fort Whelling", de Hugo Pratt,Tomo 2, Edições ASA, 1ª edição, de Nov. de 2002.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Conhecer o património natural

Não há Câmara Municipal que não tenha feito aprovar os seus regulamentos de taxas e licenças para os mais variados gostos e paladares. Basta dar um salto ao site de cada um dos municípios do país para encontrar n regulamentos sobre a matéria x 308 municípios.
Porém, dificilmente encontraremos um levantamento do património natural ou paisagístico dum município. Dos regulamentos dos planos directores municipais (PDM's) constam escassas e muito vagas referências ao ordenamento, gestão e preservação do meio ambiente.
A propósito das competências da câmara municipal, a alínea m) do n.º 2 do art.º 64º da Lei das Autarquias Locais diz-nos que cabe àquela "assegurar...o levantamento, classificação, administração, manutenção, recuperação e divulgação do património natural, cultural, cultural, paisagístico e urbanístico do município..."
Talvez por se tratar da última alínea da lei referente ao planeamento e desenvolvimento, as coisas funcionam como aquelas cláusulas gerais dos contratos que são escritas em letra miudinha: ninguém as lê.
Daí a pergunta: 
Quantos municípios conhecem e identificaram os seus cursos de água e zonas húmidas, os espaços florestais, bem com a sua fauna e flora? Que aves, mamíferos e outros animais selvagens temos e quais são os seus hábitos? Que medidas devemos tomar para a sua preservação?
Os municípios não sabem e nós muito menos. 
O que conta são as visões economicistas do espaço físico que nos rodeia.
_
Imagem extraída dum post sobre uma viagem ao rio Mondego, AQUI.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Chover no molhado

Então Deus disse a Noé: «o fim de todos (os homens) chegou diante de Mim, pois encheram a terra de iniquidades. Vou exterminá-los, assim como à terra. Constrói uma arca de madeiras resinosas.
...
De tudo o que tem vida, de todos os animais, levarás para a arca dois de cada espécie, para os conservares vivos junto de ti: um macho e uma fêmea.
Depois .... 
...romperam-se as fontes do grande abismo e abriram-se cataratas do céu. A chuva caiu sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites.

Comentário: chove tanto e de tanto lado, que é melhor ir pensando no pós-dilúvio.
__
- Citações da Bíblia Sagrada / Génesis, 6 e 7, Edição do Instituto Bíblico de Roma, Stampley Publicações Ltda., São Paulo, Brasil].
- Imagem extraída de www.risadageral.com

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Gracias


Mercedes Sosa, aliás “La Negra” (1935/2009): cantora popular argentina.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A TERRA

Pinta a terra no meu corpo.
Pinta a terra no meu corpo.
Pinta, pai, a terra no meu corpo.
Eu próprio vou transformar todo um povo,
vou tornar sagrado todo um povo.
Pinta, pai, a terra no meu corpo.
__
- Poema dos Índios Sioux, América do Norte. Tradução de Herberto Helder. Publicação: "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Assírio & Alvim, 3ª edição /Abril de 2001, pág. 216
- Imagem extraída da capa de "Fort Whelling, de Hugo Pratt,Tomo 1, Edições ASA, 1ª edição, de Nov. de 2002.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

De como em 1º começa a estar BUSTOS

Em perfeita sincronia e demonstrando apurado sentido do que é interactividade, este post é editado em simultâneo com idêntico post do blogue bustos-em-primeiro.
Deixem que vos conte:
Na passada noite e como de costume,  a task force do PS concelhio reuniu na “cabana do Pai Tomás”, sita ali à recatada Silveira de Oiã. Apesar da conhecida aversão às aulas de catequese, recalcamento de infância que me impediu de estar presente, fui informado por telemóvel dos pormenores da apresentação pública das listas de todos candidatos do PS, apresentação essa que irá ter lugar nesta 6ª feira, dia do fatídico 11 de Setembro, pelas 18H30, no hotel Paraíso, em Oliveira do Bairro.
Surpresa das surpresas: a madrinha e 1ª da lista das e dos Jovens de Bustos, que gira sob a denominação de BUSTOS EM 1º, vai representar as seis candidaturas às (6) freguesias do concelho.
A 3ªcarametade vê assim reconhecida a ousadia e coragem de enfrentar o mundo pardacento da política dos politiqueiros e da politiquice. Dos maus padrinhos e piores afilhados, usualmente afiladinhos (i.é., na fila, em lista de espera) para comer do bolo, de preferência à tripa fôrra, até ao rapar do fundo do pequeno tacho que coube em sortes ao concelho que temos sido.
Claro que apadrinhei e apadrinharei até à morte a jovem, ousada e entusiasmada equipa do BUSTOS EM 1º.
Claro que elas e eles vão dar cartas.
Claro que vão ensinar (aprendendo) como se deve fazer e viver a política.
Claro que vão despertar e alertar as adormecidas consciências.
Claro que elas e eles sabem muito bem o que querem e que novos rumos devem orientar Bustos e os bustuenses.
Claro que os politiqueiros do anteontem e do ontem vão tremer como varas verdes.
Claro que eles vão andar aos gambozinos.
Claro que vão panicar; quiçá, borrar-se de medo.
Claro que vão, disso não tenham dúvidas, corar de vergonha.
Vergonha pelo que deixaram escapar entre os dedos da sua (in)consciência e (de)formação social, política e ética.
Vergonha pelo mal que deixaram acontecer.
Pelo marasmo bafiento a que votaram Bustos, apesar das promessas que fazem todos os 4 anos, num ciclo vicioso e viciado.
Pela falta de lucidez, imaginação e sentido prático das coisas.
Assim será, mesmo que eles ganhem na contagem do número das cruzinhas, que o Povo é sereno e acredita até no inacreditável.
Eles não sabem, mas:
*
Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.
Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel,
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas e autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos!
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.
*
Deixo-vos com a citação do parónimo texto do padrinho, também acabadinho de sair no BUSTOS EM 1º e que podem linkar em baixo:
Finalmente…
BUSTOS COMEÇA A ESTAR EM 1º!
oscardebustos
__
- Poema "Amargo estilo novo", de António Gedeão / Linhas de Força / Edição do autor, 1967, págs. 57 e 58.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Há mar e mar. Há ir e ficar

A descoberta do vídeo antecedente trouxe-me à lembrança um bom amigo e companheiro de Bustos: o Necas Caldeira, magarefe reformado. Mas também embarcadiço, para fugir à guerra a que acabou por não fugir.
Naquela madrugada, apeteceu-me bater-lhe à porta e perguntar-lhe: 
- Então, Necas e o teu mar? 
- E a guerra, Necas, a puta da guerra ali no Tôto, aonde nos encontrámos ia eu para para mais uma intervenção a pedido dos senhores da guerra de Luanda?
- E as campanhas no bacalhau, Necas? Conta-me, conta-me lá, que quero ouvi-las outra vez?

Acabei por encontrá-lo ontem, no sítio do costume, andava aqui o padrinho, mai'la madrinha e o afilhado, a colocar a 3ª tela do "Bustos em 1º". Foi na Barreira, à beira da casa do Altino.
Acabada a safra e umas atramoçadas minis de permeio na loja da Maria do Altino, viémos até casa lembrar tempos que marcaram a nossa juventude. 
E viajar pela net. Mar adentro. Até St. Jones, na Terra-Nova, Labrador.
Chegados lá, dispara-me o Necas:
"O Santa Maria Manuela era da pesca à linha. Saíam em Fevereiro/Março e regressavam antes dos temporais. Os primeiras linhas eram a alma da pesca à linha. Iam nos dóris para sotavento, zagaiando de vez em quando, a ver se ferravam peixe. Se viam que dava, largavam os tróleis de 10, 26, 28 linhas, na zona testada pela zagaia. Era um fartote!
 Carregados os dóris e deixadas as linhas assinaladas com bóias, vinham descarregar o bacalhau para bordo, que garfeavam para dentro da embarcação sem sair do dóris [tás a ver aqui, no filme? Cala-te mas é, e aprende!]
Arrastão Santa Princesa

Fui em 66 para o bacalhau, no Santa Princesa, um navio de guerra francês adaptado. Também andei no Santa Mafalda
Arrastão Santa Mafalda

Foram 4 viagens ao todo, entre 66 e 69.
Uma vez, o Ti Jacinto Merendeiro, da Gafanha do Carmo, morreu dum ataque quando íamos para St. Johns. Enterrámo-lo lá, mas o filho, emigrante no Canadá, trouxe-o para o chão da terra dele. Era gente de raízes!
Mas antes da malta ser enterrada em terra, muito antes de mim, fazia-se o "bota-abaixo": o corpo de quem morria a bordo dos veleiros era colocado em cima duma tábua e seguro por pesos para afundar. Deixado à água, o bota-abaixo só acabava quando se largava uma lamparina a boiar no local, a assinalar a morte.
[Tás parvo ou quê? Claro que a lamparina boiava à solta! Era uma cerimónia, a fazer de conta! Como o teu enterro e o meu, quando formos viver para a casa grande que fica em frente do Zé Valério!  Ou estás à espera de missa cantada e santa no enterro?
- Calei-me antes que ele me excomungasse...]

Não aguentei os 7 anos que a lei mandava para se livrar da guerra. Embarquei para Angola em 71, com o Batalhão 3855, 4ª Companhia, a 3437.
E a tua, que eras dessa merda da intervenção, sempre a saltar para onde elas escaldavam?
- Era a 3564, Necas - respondi-lhe eu - uma companhia independente, sob as  ordens directas do Comando-Chefe de Luanda.

Já agora, Necas: quando nos encontrámos no Tôto ia para uma intervenção na serra da Mucaba, a subir  de gatas, a pique, à espera das ameixas cairem. Fomos a seguir aos páras, que vieram de lá corridos. Aquilo era um santuário da Fenelá, uma espécie de cu de Judas.
Sabes, no percurso passei por uma pequena fazenda que se chamava Mamarrosa.
Lembrou-me a terra. 
A terra para onde tinha de voltar, Necas, nem que fosse cão!"

A nossa terra é o nosso chão. 
É aqui que estão as nossas raízes.
Todos os dias as rego com água.
__
A net está cheia de blogues e sítios que nos transportam para o mundo perdido das frotas bacalhoeiras.
Bem hajam pela ajudinha!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Abril de vida, Abril de memória

As comemorações oficiais do 25 de Abril na sede do concelho tiveram dois momentos particularmente brilhantes: a cerimónia evocativa junto do monumento aos combatentes da guerra colonial e o lançamento do livro “Arlindo Vicente e a Oposição – As eleições Presidenciais de 1958”.
Da primeira importa registar a leitura de poemas de Abril, da autoria de Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e do nosso Armor Pires Mota. A poesia da paz que Abril trouxe falou mais alto que a canção da guerra que Manuel Alegre chorou no seu 2º livro de poemas, O Canto e as Armas (Editora Nova Realidade, 1967 e Ed. Poesia Nosso Tempo, 1970).

No salão nobre da sede do município e após as usuais intervenções dos representantes dos partidos com assento na Assembleia Municipal e do Presidente desta, teve lugar a apresentação do livro de Arlindo Vicente, pintor, advogado e antifascista, nado e criado no Troviscal e que aceitou o desafio de enfrentar a ditadura salazarista no “simulacro cuidadosamente montado” das eleições presidenciais de 1958, para usar as palavras do também troviscalense Silas Granjo, coordenador e prefaciador do livro agora trazido a público sob a égide da Câmara Municipal.
Confirma-se o que ousei afirmar repetidas vezes em público e privado: o pelouro da Cultura do nosso município tem sabido cumprir o seu desígnio: são constantes as acções de promoção da cultura, da arte e do entretenimento.
Da autoria de Miguel Dias Santos, professor, investigador e autor de vários estudos sobre a nossa história contemporânea, o livro foi apresentado por um dos filhos de Arlindo Vicente, o prof. dr. António Pedro Vicente, que entre muitos recordares nos lembrou que

É através da memória que se constrói o futuro

- Título: Arlindo Vicente e a Oposição; autor: Miguel Dias Santos; Edição: Câmara Municipal de Oliveira do Bairro; tiragem: 1.000 exemplares; data da 1ª edição: 25 de Abril 2009.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Futuro passado

Em finais dos anos 50/princípios de 60, Bustos era uma terra virada para o futuro.
A embalar o progresso, em 1936 um "brasileiro" da terra apostou num Centro Recreativo de Instrução e Beneficência, com salão de festas e cinema (o famoso Bustos Sonoro Cine, a que não faltou um então inédito sistema de assinaturas, precursor dos cineclubes dos anos 60). Teatro de revista, bandas de música, jornais, farmácia, estação telegráfica e postal, 2 equipas de futebol federado, clube de natação (com uma pequena piscina, onde participámos em tantas provas e brincadeiras), cafés com salas de bilhares, 2 restaurantes, talho, peixaria.

Cartão nadador_JamesUm sem fim de sinais duma terra de gente de progresso; e de ideias progressistas, de que foi exemplo a perseguida União Liberal de Bustos.
Nada parecia faltar nesses anos de ouro. Salvo a Liberdade.
Em princípios de 60, um grupo de bustuenses avança com uma Comissão de Melhoramentos, à qual se deve, nomeadamente, a criação duma sala de leitura da Biblioteca Calouste Gulbenkian, um colégio (então Externato Gil Vicente, hoje IPSB, com cerca de 1.000 alunos), posto da GNR e agência bancária.
Não nos faltaram dias, tardes e noites quentes, em especial as tardes quentes do Piri-Piri de que o saudoso Carlos Luzio falava.
Com o 25 de Abril chegaram os inevitáveis movimentos associativos de matriz social, personificados em duas instituições de solidariedade social - a ABC de Bustos e a SOBUSTOS. Não tardou a surgir o Orfeão de Bustos com o seu Grupo de Cantares.
E pouco mais.
Bustos foi morrendo, morrendo; mais de morte matada do que de morte morrida.

Diapositivo64

Tal como confessei AQUI, por nossa culpa, Bustos já foi.
Até renascer das cinzas do passado.
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- Bibliografia consultada: Arsénio Mota, Bustos - elementos para a sua história, edição da Associação de Beneficência e Cultura de Bustos, 1983; e, do mesmo autor, Bustos do Passado, em edição da Junta de Freguesia de Bustos, 2000. Busca nos blogues hiperligados.
- Fotos do Jaime e do Milton Costa (slide da conferência sobre a origem da vida).

sábado, 21 de março de 2009

Anda livre na rua e não conheças a tristeza

Poema das Águas
Entre tantos poemas
Este é feito de água apenas
Água benta
Para quando o diabo atormenta
Água potável
Para o corpo estar saudável
Água quente
Para um banho urgente
Água fria
Para começar bem o dia
Água de colónia
Para cheirar bem na cerimónia

Água do mar
Para lançar a rede e pescar
Água do rio
Para servir de caminho ao navio
Água salgada
Para aliviar os pés da longa caminhada
Água do Jordão
Para dar baptismo ao novo cristão
Água do Sena
Para inspirar este poema

Água canforada

Para que a dor seja ultrapassada
Aguarela
Para que o teu rosto fique pintado na tela
Gin com água tónica
Para uma viagem supersónica
Aguardente
Para bochechar quando dói o dente
Água mineral
Com bolachas de água e sal
Para quando o fígado andar mal
Água doce

Para matar a sede que o Verão trouxe

Água destilada
Para que a bateria não fique descarregada
Água oxigenada

para que a ferida fique sarada
Água inquinada
Que não serve mesmo para nada
Água da chuva
Que no Verão assenta como uma luva

Água pesada
Com uma força astronómica
Misturada com plutónio
Faz uma bomba infamemente atómica

Para nos queimar o último neurónio
Que nos reduz a nada
Pobre povo ancestral do Japão
Que ainda hoje não levanta os olhos do chão
Água do Tigre
Água do Eufrates
Onde se morre em estúpidos combates
E eu passeio-me triste e cabisbaixo
Vendo como o planeta vai por água abaixo...
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Carlos Luzio\Pescador de Sonhos\"Poema das Águas", escrito a 26-5-2004\Livro editado pelos Amigos em 2005.
Soube tão bem ler-te este poema, ali onde sentes o odor dos cravos vermelhos!