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terça-feira, 29 de março de 2016

Carlos Luzio, pescador de tantos sonhos - I


O Carlos Luzio deixou um baú de poesia por editar e publicar.
Vai sendo tempo de acordar tanta poesia adormecida.
Doze anos antes de ir de abalada o Carlos soletrou este

Com "A" se escreve amor

Com "a" se escreve amor,
Com "a" se escreve o teu nome
Que tantas vezes tenho repetido.
Com "a" se escreve o teu apelido,
Com "a" de amor
Que partilhamos os dois.
Mas com "a" se escreve adeus
E morre o "a" quando se apaga o calor.
Não há "a" na palavra dor,
Mas aparece no final da angústia
De ser e de não ser
indiferente.
Depois renasce no "a" de ansiedade
E ganha mais força na amizade.
Por isso é que gostava de ser um artesão
Para moldar o teu rosto com a mão,
E desenhar uns lábios cor de rosa
E colorir a tua suave pele de um rude moreno,
E depois traçar no teu rosto o "a" de ameno
Para o pintar com o "a" de acariciar,
Deixando os meus dedos descer até à cintura
levando nas mãos os dois "a" de amar,
E nos meus lábios a febre da ternura
Que parece que se esquece
E que parece já não dura,
Com o "a" no final da vida
Que arrefece
Com o mesmo "a" à beira da loucura.
__
- Poema datado de 24FEV92

domingo, 31 de janeiro de 2016

Regressar às origens

A mal conhecida e envergonhadamente escondida história do movimento macknovista continua a perseguir-me, sempre pela positiva.
Vale a pena, vale mesmo a pena, lembrar um pouco da sua fantástica história:

Nestor Ivanovich Mackno nasceu na Ucrânia em 1888. Azar dele, tendo em conta que no decorrer a 2ª grande guerra (1939/45) muitos ucranianos - demasiados ucranianos - traíram a pátria soviética na justa luta contra Hitler, pondo-se ao lado dessa nojeira que foi o nazismo.
A partir de julho de 1918, Mackno passou a liderar um poderoso exército de matriz anarquista que se opôs ferozmente ao bolchevismo vermelho dos primeiros anos da revolução russa. 
Não fica mal lembrar que, antes, Mackno começou por se opor ao anticomunista exército branco que defendia o regresso ao czarismo. 
Nem branco, nem vermelho, o numeroso exército macknovista adoptou o preto, cor de eleição de qualquer anarquista que se preze.

Em maio de 1923, o anarquista russo Voline prefaciou este fantástico livro da autoria de Piotr Archinov.
O movimento macknovista foi - e passo a citar o autor do prefácio deste livro que guardo religiosamente desde 1976 - “produzido pura e unicamente pelas camadas mais baixas das massas populares, estranhas a toda a pretensão de esplendor, de dominação e de glória…
Desenrolando-se, quase sem intervalos, em condições de luta armada incrivelmente tenazes e penosas; rodeado de todas as partes de inimigos; com poucos adeptos fora das esferas não trabalhadoras; combatido sem quartel pelo partido dominante…tendo perdido, pelo menos, 90 por cento dos seus melhores participantes…o movimento deixou poucos documentos vivos.

Ao slogan bolchevista “a terra a quem a trabalha”, Mackno contrapunha um slogan muito do meu gosto: a terra é de quem a trabalha!
Se não for assim, com que alma vamos buscar forças para defender as nossas raízes?
Sem raízes nossas, plantadas por nós nas terras que nos viram nascer, sem essa matéria-prima, donde vamos alimentar a seiva que nos fortalece?
*
Em 1976, regressado da puta da guerra colonial há um par de anos, abracei de alma e coração o anarquismo puro e duro.
- É dele que guardo os restos que ilustram este blogue, aqui ao lado, na barra direita.
- Herdei dele o “cão que não conhece dono”, que o maldito vírus pirateou e agora não está lá mas há-de voltar.
- Dele herdei o contra senso da minha 1ª grande guerra, onde fiz tudo o que um verdadeiro anarquista odeia: a guerra, sem medo, por sinal armado em herói estúpido, de peito feito às balas, que a morte não era com o alferes miliciano ranger que eu exercitei, nem com os meus bravos, que um dia jurei trazer a todos, bons do corpo, mas abalados da alma.
- Por excelência, dele herdei o contraponto do Léo Ferré: "dans le coktail molotov il faut metre du martini, mom petit".
- No meio desta caldeirada de senso e de falta dele, também dele herdei uma certa imagem do torreão da ABC de Bustos, imagem retratada AQUI.

O Serginho, de sua graça Sérgio Micaelo Ferreira, bustuense de gema e agora a modos que retirado (atirado?) lá para os confins da serra interior, foi dos que acertou na mouche, me cheirou à distância e me tirou a preceito as medidas do fato que o Ti Adriano alfaiate da nossa juventude me fazia da raíz do tecido, quando anunciei pomposamente a criação do meu blogue pessoal e intimista. À data (6/8/2008), o Serginho saiu-se com esta posta.

Vê lá mas é se apareces, ó trânsfuga, que está por fazer a verdadeira revolução, a tal que ficou na gaveta quando o 25 de Abril saiu à rua!
Ou pensas que mudou o que de mais importante havia para mudar?
A mim parece-me que faz falta mudar as mentes e tantos usos e costumes do reino. 
Feita a mudança, é fácil acabar ou reduzir ao mínimo a podridão dos interesses instalados, do poder da manjedoura, dos compadrios, dos favores e da corrupção à fartazana?
Pensarás tu que tendo mudado de burro mudaste de moleiro?
Se pensas, estou como diz o povo: estás muito mal enganado!
_____
P.S. (salvo seja): do meu anarco-sindicalismo, até acabar no Mackno, disse muito AQUI.

domingo, 6 de julho de 2014

Literatura de combate

Quando a 10 de Junho de 1972 embarquei no boeing militar que me levou até Angola, seguiam numa mala do porão alguns livros das minhas referências.
À mistura, ia uma garrafa da melhor bagaceira que o meu saudoso pai produziu, num tempo eu que eu já o ajudava à missa dos brancos e dos saborosos tintos de meia curtimenta ou bica quase aberta.
A emalada mistura deu bronca: 
Talvez por se ter tomado de amores pelos livrinhos, o bagaço foi-se a eles, derramou-se em cima dos ditos (por debaixo é que não ficou, senão o resultado seria diferente), possuiu-os à fartazana.
Tal orgasmo tinha de dar nisto…
O Frederico, coitado, ficou neste estado...
O bagaço quis lá saber de "A Origem da Família, da Propriedade e do Estado".

Nada fazia prever este derramado destino quando comprei o perigoso livro em Setembro de 1971, na Livraria-Papelaria Elo, sita à rua José Maria da Costa, 40, em Mafra, onde os oficiais milicianos aprendiam a matar.
Agora que vai sendo tempo de registar a verdade histórica, ficam estas perguntas para o Santos, Alferes Miliciano de Operações Especiais:
1ª - Foi para isto que o regime investiu na formação dum garboso e, por sinal, bem apessoado oficial miliciano de infantaria, o qual – ainda por cima - foi a correr uns meses depois para Lamego, tomado de amores pelas Operações Especiais?
2ª - Atão foi a partir deste barro que te fabricaram no Centro de Instrução de Operações Especiais, ó ranger de meia tigela?
3ª - Que raio de explosiva paixoneta ligaria a tua amada G3 e o erótico cinturão de granadas e cartucheiras de 80 munições 7,62mm (fora as que levavas no saco), por exemplo:
- às “Citações do presidente Mao Tsé-tung”, que nunca leste e estavas cheio de razão, que o tipo não prestava para nada, dava-se a luxos burgueses, tinha maus hábitos de consumo e, ainda por cima, era um imoral: soube-se quando morreu que “comia” criancinhas às escondidas do povo, em vez de o fazer à vista de todos e de forma regrada, ao pequeno almoço, apanágio do verdadeiro comunista?
- e ao “Resumo”, do J.C. Ary dos Santos, comprado em 2 de junho de 1972, por uns míseros 35$00, no distribuidor Abegão, sito à Rua Gonçalves Zarco, 3 – Telef. 26624, em Coimbra?
- e ao “Provavelmente Alegria”, do improvável poeta José Saramago, comprado por 40$00 algures em Lisboa, em Fevereiro de 70?
- e à “antologia / poética I” do Nicolas Guillen, comprado com desconto para os sócios que, como tu, aderiram à antifascista UNITAS – Cooperativa Académica de Consumo, SCRL, com sede na subversiva livraria da Rua da Sofia, 73-2º, Telef. 27743, Coimbra?
- e aos “poemas” do Bertolt Brecht, comprado no mesmo sítio e condições, mas em Março de 1972?
- o mesmo dizendo dos “poemas políticos” do Paul Eluard, com prefácio do Louis Aragon, desta vez em 2 de Junho de 1972?
4ª - Que tara foi essa que te deu, ó meu, estavas tu a 8 dias de embarcar na defesa da ditosa Pátria que tais filhos tem?
- Só para te lembrar, que a História não perdoa: até o teu sogro, alentejano da classe média alta e que até gostava muito de ti, não se continha e chamava-te “bolchevista”!
Não contente:
5ª - Mal puseste os pés no sagrado chão africano e os olhos numa reluzente e fogosa funcionária do Casão Militar de Luanda [sim, nesse vulcão sempre em chamas, ou já te esqueceste!] e logo te arrimaste…
- aos “Poemas” do MAIAKOVSKI/Маяко́вский, comprados em Maio de 73, nas indústrias ABC, SARL, Telef. 23543, na linda e sedutora Luanda?
Parece que deixaste por Bustos outros livros, a quem disseste adeus até ao meu regresso. Por cá ficaram, à espera da tua retoma.
6ª – Retoma que te levou até ao anarco-sindicalismo, ao Trotsky e à Rosa Luxemburgo! 
7ª – Como se não bastasse, estragaste tudo quando te apaixonaste pela Alexandra Kollontai (A oposição operária 1920 – 1921) e, por fim, te perdeste de amores pela "História do Movimento Macknovista (A insurreição dos camponeses da Ucrânia)", do Archinov, movimentos supostamente contra-revolucionários que acabaram esmagados, sem dó nem piedade, pelo regime soviético.
Valha-nos uma coisa:
8ª - Extinto o vulcão revolucionário do pós 25 de Abril, acabaste por descobrir que, afinal, o único sol que alumia é aquele que teima em se esconder neste alvorecer do princípio de verão.

Como tudo tem um fim, 
a desilusão morreu uns anos depois do “che guevara”, livro de bolso em inglês, que o amigo Hilário Costa (filho), trouxe dos USA em Setembro de 72, quando vieste de férias ao Puto ver a filhota de 6 meses e a demais família.
Afinal, o herói maior, o quase deus da nossa juventude, fartou-se de limpar o cebo a camaradas que ousavam fazer-lhe frente! 
Rais parta a revolução e a libertação dos povos que nunca chegam a ser verdadeiramente livres!

Para responder a tanta mágoa a ensombrar a história das nossas vidas, só mesmo uns
blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
[ler o resto do poema, AQUI]
 *
______
- Poema de Vasco Graça Moura - ”Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa, Fev. de 2002.

domingo, 18 de maio de 2014

A vida é uma charada

Só nos prega partidas, a vida.
Pior que tudo: quando as partidas se sucedem sucessivamente sem cessar, mais vale Nosso Senhor levar-nos.
Sim, Esse Senhor, mil vezes preferível aos medíocres senhores que querem ser califas no lugar do califa. 

Preferível até a uma qualquer senhora com "s" pequeno, que as Grandes, essas, são vestais do Templo Sagrado e já estão no Olimpo à minha espera.
Se for o tal Grande Senhor, dou por garantido o céu e alguns prémios extra pelo desempenho. Noblesse oblige.
Antevendo a chegada às portas do céu:


Ao ver que sou eu quem ali se apresenta, o guardião Pedro corre, célere voa, entra na tenda da alfândega e anuncia:
- Benvindo, meu bom malandro das crónicas tão conhecidas!
Continuou o Santo Pedro, deixando perceber um sorriso cúmplice e malicioso:
- Deus ordena seres contemplado com as 200 virgens que pediste um dia destes no facebook, porque, no mais fundo de ti, Ele sabe que estás mortinho por te alambazares!



- E podes sentar-te à Sua direita, mas porta-se com juizinho e deixa-te mas é de te armares em cão que não conhece dono!
Cheio daquela coragem à Ranger, mas todo aos tremeliques por dentro e dominado por aquele nervoso miudinho que nos invade e inibe quando é a 1ª vez, respondi:
- Estou farto de comer ração de combate!
- A minha alma está desejosa, o meu coração e a minha carne clamam pelo almejado prémio, porque vale mais um dia neste céu do que em outra parte mil!
- Mas olha que faço questão de me sentar à esquerda Dele, que a direita tem outros donos!



Chegados aqui, perguntarão como é que eu consegui chegar tão alto? 
Às vezes a correr desenfreadamente, a modos que stressado da puta da guerra. 
Outras, devagar, porque devagar se vai ao Citius. 
Bem vistas as coisas, devo tudo à força do hálito, que é como o que tem que ser. E o que tem que ser tem muita força.
..
Em jeito de epílogo


Neste livro que vos deixo, fica a charada:
A quem pertencem ou a que aludem as citações escritas a cinzento?
Têm 24 horas para responder, sem direito à dilação ou justo impedimento que o Citius prevê.
Se o não fizerem no prazo aludido, ou é porque não sabem - logo, são uns ignorantes, ou porque têm andado distraídos.
O que me levará a concluir que, afinal, vocês não gostam mesmo nada de mim! 
E se for assim, são como um fingidor que eu cá sei!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Despedida

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
__
- Eugénio de Andrade, "Adeus", extraído de Poesia e Prosa (1940 / 1980), Ed. Limiar.
- Retrato do poeta, de Emerenciano (1988), extraído de "O Outro Nome da Terra", Outubro de 1988, Ed. Limiar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Regresso, agora com canção índia

Além desabrochava uma flor.
E essa flor, quando aqui a vejo, essa flor,
agora, ai, tão longe, faz-me chorar.
Essa flor, sempre que a vejo, essa flor,
desabrochava tão fresca:
desabrochava
bela, fresca, amarela.

 

- Poema dos índios de Tewas, América do Norte, extraído de "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro" /  Edição Porto 2001, Assírio & Alvim / 3ª edição, de Agosto de 2001 / Versão de Herberto Helder /pág. 172.
- Imagem extraída da contracapa de "Fort Whelling", de Hugo Pratt,Tomo 2, Edições ASA, 1ª edição, de Nov. de 2002.

Regresso com Maiakowski

...
E o sol então:
«Existes tu, existo eu,
Existimos, meu velho, nós os dois!
Subamos, pois, poeta,
à altura das águias,
cantemos
sobre os cabelos do mundo.
Sobre ele eu lanço esta luz que me é própria
e tu, a tua -
em verso.»
*
- Vladimiro Maiakowski / "Autobiografia e Poemas", Colecção Forma, da Editorial Presença. Edição sem data. Comprado em Março de 1972 na "Unitas - Cooperativa Académica de Consumo, S.C.R.L.", à Rua da Sofia, 73-2º, telef. 27743 - Coimbra.
- Foto extraída do blogue http://jamilkauss24.blogspot.com.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Festejar a República

Insisto muito no passado histórico. Faço-o, como diria José Gil, por uma vontade desesperada de me inscrever, de registar para dar consistência ao que tende a desvanecer-se.
O início da República que hoje se comemora assentou na defesa da liberdade e da fraternidade e na promoção da instrução (palavra hoje em desuso) e da solidariedade.
O exemplo mais vivo desses valores  pode ser encontrado na freguesia vizinha do Troviscal, que hoje se empenha na celebração da República.
É para lá que vou daqui a pouco, sem me deixar iludir pela representação misticista e exaltada da história da 1ª República.
Como escrevi no Notícias de Bustos, celebrar a República passa também pela lembrança de que foi por via dos erros cometidos entre 1910 e 1926 que nasceu a ditadura.
Conviria aos republicanos inscrever esse dado histórico nas memórias do real.
Não venha o voto popular excomungar-nos!
__
- Portugal Hoje / O Medo de Existir, de José Gil, Relógio D'Água Editores, Nov. de 2004.
- Capa do livro Troviscal Republicano - Banda excomungada Clero interdito, de Silas Granjo, 2010, publicação e comercialização do Sítio do Livro.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Comércio do Funchal

Não me refiro à retoma do comércio e turismo do Funchal depois do temporal de 20 de Fevereiro.
Lembro o jornalinho cor de rosa que me acompanhou desde os tempos da faculdade até aos anos da brasa da Revolução de Abril.
Fui assinante do extraordinário e quase miraculoso CF entre Fevereiro de 1970 e igual mês de 1975, de que guardo religiosamente todos os exemplares. Vale-me ter um sotão grande, do tamanho do meu mundo.
Imagine-se o que representou receber durante 26 meses nas matas do norte de Angola e de Cabinda o precioso jornal, um marco na luta contra a ditadura.
Que lufada de ar freco!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

VIDA E MORTES DE FERNANDO H

Depois do acto solene do sorteio das listas concorrentes às Autárquicas de Oliveira do Bairro fui almoçar ao imenso Papatudo, ali na Alagoa de Águeda.
Ademais, o amigo Fernando precisava dos serviços do escritório. Aproveitei para me fazer acompanhar das 2 (duas) candidatas da lista de Bustos, a tal nascida para a pedrada no charco da politiquice...
Às tantas, o sofá do 1º andar virou divã de psicanalista. Mal a longa conversa começou, comentei que o Fernando não precisava de mim nem do colega Aleixo, mas do irmão deste, psicanalista de renome em Lisboa.
Perceberão porquê.
A história do Fernando trouxe-me à memória um texto que me saiu dos caboucos da alma e que aqui postei em 16/9/2008: morrer de morte matada. Dêm um salto AQUI, que o caso não é para menos.
Mas ouçamos o Fernando H:
" A minha vida começou aos 16 anos: um dia pedi ao meu pai dinheiro para cortar o cabelo. Quando cheguei a casa para lhe entregar o troco, encontrei o meu pai enforcado.
Comecei aqui a minha luta pela vida. Fui logo trabalhar num matadouro: esquartejava por dia 100 bois, 400 a 500 porcos e umas 300 ovelhas.
Cerca de um ano depois fui para a construção civil, como ajudante de carpinteiro, mas só uns meses. Entretanto, acabei o curso de desenho técnico na Escola Ratton, em Tomar.
A seguir veio a Suiça. Até que resolvi apanhar (em Sierre) um autocarro que vinha para Águeda. Porquê Águeda? - Porque sim, ele estava ali, como que à minha espera e, lembro-me tão bem, parou mesmo em frente à Escola Marques de Castilho. Trazia uma mala na mão e dinheiro para alugar uma casa.
Trabalhei numa fábrica de fibras (3 meses) e depois 5 anos na Metalcértima (Oliv.ª do Bairro).
Depois veio o Zip Zip e o casamento com a filha do dono (1); depois, o restaurante Artur, no Silveiro, a pensão Parreira em Aguada de Cima, o Artur 2/Espeto do Boi.
E agora o PapaTudo.
Mas não sou de me ficar por aqui."
*
A restauração passou a ser a caçadeira de canos serrados do Fernando H/Faustino C.
Ao contrário do anti-herói que me arrebatou uma noite inteira para toda a vida, o Fernando merece a nossa piedade e o nosso respeito.(2)
E muita amizade.
Para toda a vida.
__
(1) Antes dum divórcio, há sempre um casamento ao virar da esquina. E disso percebemos nós, não é, Fernando?
(2) In, NOTA EXPLICATIVA de "VIDA E MORTES DE FAUSTINO CAVACO", da autoria de ROGÉRIO RODRIGUES.
- VIDA E MORTES DE FAUSTINO CAVACO: Organização de Rogério Rodrigues / Editora ER Heptágono, por subcedência de direitos de Euroclube, SA / Capa de Vitorino Martins / Composição: M. Esther - Gab. de Fotocomposição / Impressão e acabamento: Printer Portuguesa / Depósito legal n.º 27 480/89.
Com a devida vénia, que é muita e mais do que merecida.

sábado, 22 de agosto de 2009

Afrodisíacos...

Rebuscando nas memórias dum tempo cada vez mais longínquo e antes que a morte me pregue uma qualquer partida, vou-me apressando a devorar notas e apontamentos que o meu saudoso pai (1.8.1917 - 6.1.2005) ia registando num dos livrinhos que o acompanhou nas suas lides de ferrador e castrador diplomado.
A capa em cabedal castanho faz lembrar o clássico e lendário bloco "moleskine".
A páginas tantas, encontro esta preciosidade: o receituário de "Afrodisíacos Para o Cio".
Com indicação das doses para cavalo, boi e cão.
Já agora: quantos cc (centímetros cúbicos) seriam necessários para o bicho homem?
Afinal, hás uns 50 anos atrás a própria bicharada já tinha ao alcance da pata o seu viagrazito...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Abril de vida, Abril de memória

As comemorações oficiais do 25 de Abril na sede do concelho tiveram dois momentos particularmente brilhantes: a cerimónia evocativa junto do monumento aos combatentes da guerra colonial e o lançamento do livro “Arlindo Vicente e a Oposição – As eleições Presidenciais de 1958”.
Da primeira importa registar a leitura de poemas de Abril, da autoria de Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e do nosso Armor Pires Mota. A poesia da paz que Abril trouxe falou mais alto que a canção da guerra que Manuel Alegre chorou no seu 2º livro de poemas, O Canto e as Armas (Editora Nova Realidade, 1967 e Ed. Poesia Nosso Tempo, 1970).

No salão nobre da sede do município e após as usuais intervenções dos representantes dos partidos com assento na Assembleia Municipal e do Presidente desta, teve lugar a apresentação do livro de Arlindo Vicente, pintor, advogado e antifascista, nado e criado no Troviscal e que aceitou o desafio de enfrentar a ditadura salazarista no “simulacro cuidadosamente montado” das eleições presidenciais de 1958, para usar as palavras do também troviscalense Silas Granjo, coordenador e prefaciador do livro agora trazido a público sob a égide da Câmara Municipal.
Confirma-se o que ousei afirmar repetidas vezes em público e privado: o pelouro da Cultura do nosso município tem sabido cumprir o seu desígnio: são constantes as acções de promoção da cultura, da arte e do entretenimento.
Da autoria de Miguel Dias Santos, professor, investigador e autor de vários estudos sobre a nossa história contemporânea, o livro foi apresentado por um dos filhos de Arlindo Vicente, o prof. dr. António Pedro Vicente, que entre muitos recordares nos lembrou que

É através da memória que se constrói o futuro

- Título: Arlindo Vicente e a Oposição; autor: Miguel Dias Santos; Edição: Câmara Municipal de Oliveira do Bairro; tiragem: 1.000 exemplares; data da 1ª edição: 25 de Abril 2009.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

De como a justiça real era benévola para alguns

_
Imagem extraída da Collecção da Legislação Antiga e Moderna do Reino de Portugal \ Parte II \ Da legislação Moderna \ Tomo III \ Coimbra: Na Real Imprensa da Universidade \ Anno de MDCCCVII \ Por Resolução de S. Magestade de 2 de Setembro de 1786.
- Trata-se das Ordenações do Reino, no caso as Ordenações Filipinas, que estão divididas em 5 livros e estes em 3 tomos (volumes, na nomenclatura actual).
[para ler melhor ter em conta que a letra S tem aspecto estilizado. Mais ter em conta que barregã é a modos que prostituta, vendedeira de primaveras].

- Ver mais do mesmo no post de 27/8/2008, AQUI.

terça-feira, 31 de março de 2009

Há que chamar os bois pelos nomes


- Poema de J. C. Ary dos Santos\Resumo\Edição do autor\ Distribuição Livraria Quadrante\1972.
[comprado em Coimbra na Unitas - Cooperativa Académica de Consumo, em 2/6/1972]

quinta-feira, 19 de março de 2009

OS PAIS QUE PERDEMOS E A POESIA QUE NASCE

Perdi o Pai num Dia de Rei(s).
E um filho nos braços.
Só não perdi os meus filhos da guerra, porque os proibi de se irem de abalada sem ordens minhas: era proibido morrer.
Ironia: nenhum morreu (nunca mais esqueço: ó meu alferes, leve-me para a minha mãezinha, por amor de Deus!). E trazendo, levei, que o Ferreira era e é da terra do bom vinho.
Bem a propósito:
A minha conterrânea Marineide vai finalmente publicar o seu 1º livro de poemas. É já neste sábado - dia mundial da poesia, no Salão Nobre da Câmara de Oliveira do Bairro (e não na Biblioteca Municipal), pelas 10H00. Como é seu dever e propósito, o Notícias de Bustos vem lembrando o evento.
A Marineide perdeu o pai que tanto adorava, a maior razão de ser da sua vida.
O Mário ajudava-a estremosamente em tudo o que um filho carece quando as limitações físicas criam barreiras que parecem intransponíveis.
Há mortes que deviam ser proibidas por decreto divino. A do bom amigo Mário era uma delas.
Davam-me especial prazer os momentos de conversa, as mais das vezes à minha porta: tolerante ainda que empenhado política e religiosamente, o Mário era um cidadão duma postura, dignidade e abertura como pouco se vê.
Como admirava muito o meu Pai, hão-de estar juntos no sábado, a saborear lá de cima a concretização do sonho da Marineide.
Merecem ambos a melhor das tribunas, à mão esquerda de Deus como o meu Pai sempre quiz, que à direita os lugares têm outros donos.
Como escreveu o Carlitos Luzio, num dos muitos "bate-estradas" que me enviou de Moçambique, o que nos vale é ainda estarmos vivos
graças adeus.
E lúcidos.
_
Excerto dum dos poemas do livro da Marineide, Canto e Amanhece:
Espelhei nas palavras todo o meu Eu
Mesmo que as memórias me atormentassem
Viajei por Mundos cuja distância

Somente a Liberdade compreendeu
*
- NB (também pode ler-se noticiasdebustos), hora primeira do dia mundial da poesia:
Enquanto a malta anónima prefere ir desancando a torto e a direito nos comentários ao texto ali postado a 19 - Notas e desnotas duma reunião camarária, o altinod@poba persiste na causa mais do que nobre da POESIA/PÃO PARA A BOCA.
É Altino! E não é que somos uma espécie de combatentes da poesia!!
[e no teu Moçambique e do Carlitos, Altino, não se morria só de tédio, pois não?]
...
Já caminhei muita savana
Com uma espingarda na mão
Pesadas botas e a morrer de sede
Disparei contra ti com tanta gana
Metralha gasta em vão
Para acabar fuzilado contra a parede
Agora sou um guerrilheiro que já conheces
Desarmo minas com a ponta dos dedos...
Carlos Luzio, Pescador de Sonhos/Guerrilheiro, Ed. dos Amigos, Bustos 2005

terça-feira, 17 de março de 2009

hoje apetece-me Shakespeare

Acabei de chegar a casa muito shakespeareano.
Apetece-me citá-lo, não pela célebre frase de Hamlet: to be or not to be, that's the question (ser ou não ser, eis a questão).
Como uma imagem vale por mil palavras, vou lembrá-lo, sim, por via dum bandido espertalhaço do faroeste americano de meados do séc. XIX (1).
Aqui vai:
E para que não restem dúvidas sobre o profundo conhecimento do universo shakespeareano por parte de Frank James, irmão do famoso Jesse James dos hold ups (2),
aqui o cito de novo:

_
(1) Referência bibliográfica: Lucky Lyke - Jesse James, desenhos de Morris (aliás Maurice de Bevere, aliás Morris) e texto de René Goscinny; Liv. Bertrand, s/ data;
(2) hold up: assalto à mão armada em que o bando de Jesse James se especializou com grande sucesso e fartos proveitos.

mulher de rua

Às vendedeiras de primaveras

Joana é uma mulher de rua
Uma prostituta como outra qualquer
Um carro que pára
Uma entrevista breve à janela
Um chulo à espreita duma vida que é sua
Joana, apesar de tudo é mãe, é mulher
Joana vende o corpo a uma tarifa muito cara
Mas Joana vive uma vida que não é a dela
Joana agoniza no seu quarto arrendado
E maldiz tudo o que a rodeia
Especialmente a sociedade podre onde habita
Joana não está livre de pecado
Joana é apenas uma abelha mais na colmeia
Que faz amor e não se excita.
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- Carlos Luzio, Pescador de Sonhos/Joana; edição dos Amigos/2005.
- Imagem extraída de "Imaginário", texto e desenhos de Horacio Altuna, Ed. Meribérica, 1990.
- Em 70 conheci na cantina da Universidade de Lisboa uma estudante japonês que me disse que a tradução literal para português da palavra prostituta era vendedeira de primaveras.

domingo, 15 de março de 2009

pescador de micróbios


O Milton foi um grande, 
mas grande 
Amigo do Carlos Luzio. 
Como ninguém, 
percebeu o significado das famosas tardes do Piri-Piri  
de que o Carlitos tanto falava.


Sobre este outro pescador...
relatei de madrugada no 
noticiasdebustos uma soberba

pescador de sonhos

Poema para esquecer:
*
Lembras-te daquelas palavras doces
que não cheguei a dizer-te nunca?
Lembras-te daquele dia triste
em que não te dei aquelas flores?
Lembras-te, por acaso, daquela praia
ou daquela areia dourada, banhada pelo sol,
onde nunca nos banhámos juntos?
Lembras-te daquelas conversas longas
sentados no banco de um jardim
onde nunca estivemos?
Lembras-te daquele beijo tão suave
que nunca cheguei a dar-te?
Ou daquele dia chuvoso
em que não corremos de mãos dadas,
naquela praia em que não existia
aquele mar verde, sonhado?
Lembras-te daquela casita amarela
com campos de relva que nunca foi semeada?
Chamava-se “yellow fin”,
lembras-te?
Lembras-te daquela cama
onde nunca nos deitámos juntos?
Não nos lembramos de nada
e o tempo passa…
Já nem as recordações do que nunca existiu ficam…
Prometemos esquecer-nos de tudo e de todos…
Lembras-te?
*
CARLOS LUZIO
Inhambane, Moçambique, 15/12/1972
Praia do Tofo


**
- Do you remember, título dum poema de O Pescador de Sonhos, livro de poemas do Carlos Luzio, em edição póstuma dos Amigos de sempre; o óleo da capa é do Joãozito dos Barrocos; a coordenação e análise, da Michele Mota.
- Ver post publicado em 6/10/2004 no saudoso blogue Bustos - do passado e do presente.
- A homenagem partiu do Notícias de Bustos, algures por aqui.
- O Carlitos confidenciou-me que compôs o poema na praia do Tofo. A "yelloy fin" era uma casa de praia existente no local e que pertencia ao pai da moça que ele namoriscou num intervalo da dura guerra na fronteira norte; mais me disse que ali foram colhidas imagens de exteriores da novela Jóia de África.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cesário Verde: a poesia do quotidiano

Não fosse esquecer-me, o borda d'água para 2009 lembra-me no útil reportório de hoje o nascimento do poeta Cesário Verde.
Agradeço, porque
A mim o que me preocupa é o que me rodeia...
escrevia o poeta que amava o campo e desprezava o artificialismo da cidade.
...
E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!
...
No dia em que morreu minado pela tuberculose, o último dos irmãos dirige-se a ele pela última vez:
- Queres alguma coisa?
- Não quero nada. Deixa-me dormir.
__
Até o borda d'água se engana: Cesário nasceu a 23/2/1855; faleceu com apenas 31 anos.