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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Carlos Luzio: poesia de guerra/poesia de paz

No inesquecível almoço/espectáculo de encerramento das comemorações do Dia de Bustos, emocionado e envolvido, li o seu poema das águas, que podem reler no Notícias de Bustos.
A meu ver, mais do que a poesia do seu dia a dia de encontros felizes e infelizes, de encontros com a morte que sabia estar à sua espera de gadanha em punho, pronta para o ceifar no momento final...
...até mais do que a poesia do amor, que tão bem retratou a partir do próprio teatro da guerra colonial que viveu na fronteira norte de Moçambique no fantástico e inebriante Poema para esquecer...
...ou em Mulher da rua...
...o Carlitos deixou-nos poemas de guerra carregados de dor e raiva.
Por razões à vista, o que mais me marcou arrastei-o para o blogue que criei sobre a minha gloriosa unidade militar de intervenção em terras angolanas, a CART 3564, onde a palavra camarada fez verdadeiro sentido.
Esta companhia de criados para todo o serviço da ditadura salazarenta dependia dum tal Comando Operacional de Tropas de Intervenção (COTI 1) sediado com todas as comodidades em Luanda e que estava sob as ordens duns oficiais superiores com quem lidei diretamente durante 4 meses e que não passavam dumas grandessíssimas bestas, tudo gente tão convencida e oportunista como os nossos políticos de hoje, não fossem o ar condicionado e os demais luxos de Luanda ou de Lisboa altamente inspiradores.
O texto onde chamo o Carlos à minha guerra pode ser lido AQUI e recomenda-se.
*
Lembrar o Carlos Manuel dos Santos Luzio, o Carlitos Luzio, poeta de Bustos/de Bustos poeta...
...é lembrar que estamos vivos, mas mortinhos por viver e agir.
É lembrar que nada acontece por acaso...

...mesmo nada!
Até o futuro parece estar logo ali ao virar da esquina, a anunciar o caminho da primavera. 
___
- Fotos do autor e do sempre presente e envolvido Sérgio Pato, em Bustosgrafias.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Regressar às origens

A mal conhecida e envergonhadamente escondida história do movimento macknovista continua a perseguir-me, sempre pela positiva.
Vale a pena, vale mesmo a pena, lembrar um pouco da sua fantástica história:

Nestor Ivanovich Mackno nasceu na Ucrânia em 1888. Azar dele, tendo em conta que no decorrer a 2ª grande guerra (1939/45) muitos ucranianos - demasiados ucranianos - traíram a pátria soviética na justa luta contra Hitler, pondo-se ao lado dessa nojeira que foi o nazismo.
A partir de julho de 1918, Mackno passou a liderar um poderoso exército de matriz anarquista que se opôs ferozmente ao bolchevismo vermelho dos primeiros anos da revolução russa. 
Não fica mal lembrar que, antes, Mackno começou por se opor ao anticomunista exército branco que defendia o regresso ao czarismo. 
Nem branco, nem vermelho, o numeroso exército macknovista adoptou o preto, cor de eleição de qualquer anarquista que se preze.

Em maio de 1923, o anarquista russo Voline prefaciou este fantástico livro da autoria de Piotr Archinov.
O movimento macknovista foi - e passo a citar o autor do prefácio deste livro que guardo religiosamente desde 1976 - “produzido pura e unicamente pelas camadas mais baixas das massas populares, estranhas a toda a pretensão de esplendor, de dominação e de glória…
Desenrolando-se, quase sem intervalos, em condições de luta armada incrivelmente tenazes e penosas; rodeado de todas as partes de inimigos; com poucos adeptos fora das esferas não trabalhadoras; combatido sem quartel pelo partido dominante…tendo perdido, pelo menos, 90 por cento dos seus melhores participantes…o movimento deixou poucos documentos vivos.

Ao slogan bolchevista “a terra a quem a trabalha”, Mackno contrapunha um slogan muito do meu gosto: a terra é de quem a trabalha!
Se não for assim, com que alma vamos buscar forças para defender as nossas raízes?
Sem raízes nossas, plantadas por nós nas terras que nos viram nascer, sem essa matéria-prima, donde vamos alimentar a seiva que nos fortalece?
*
Em 1976, regressado da puta da guerra colonial há um par de anos, abracei de alma e coração o anarquismo puro e duro.
- É dele que guardo os restos que ilustram este blogue, aqui ao lado, na barra direita.
- Herdei dele o “cão que não conhece dono”, que o maldito vírus pirateou e agora não está lá mas há-de voltar.
- Dele herdei o contra senso da minha 1ª grande guerra, onde fiz tudo o que um verdadeiro anarquista odeia: a guerra, sem medo, por sinal armado em herói estúpido, de peito feito às balas, que a morte não era com o alferes miliciano ranger que eu exercitei, nem com os meus bravos, que um dia jurei trazer a todos, bons do corpo, mas abalados da alma.
- Por excelência, dele herdei o contraponto do Léo Ferré: "dans le coktail molotov il faut metre du martini, mom petit".
- No meio desta caldeirada de senso e de falta dele, também dele herdei uma certa imagem do torreão da ABC de Bustos, imagem retratada AQUI.

O Serginho, de sua graça Sérgio Micaelo Ferreira, bustuense de gema e agora a modos que retirado (atirado?) lá para os confins da serra interior, foi dos que acertou na mouche, me cheirou à distância e me tirou a preceito as medidas do fato que o Ti Adriano alfaiate da nossa juventude me fazia da raíz do tecido, quando anunciei pomposamente a criação do meu blogue pessoal e intimista. À data (6/8/2008), o Serginho saiu-se com esta posta.

Vê lá mas é se apareces, ó trânsfuga, que está por fazer a verdadeira revolução, a tal que ficou na gaveta quando o 25 de Abril saiu à rua!
Ou pensas que mudou o que de mais importante havia para mudar?
A mim parece-me que faz falta mudar as mentes e tantos usos e costumes do reino. 
Feita a mudança, é fácil acabar ou reduzir ao mínimo a podridão dos interesses instalados, do poder da manjedoura, dos compadrios, dos favores e da corrupção à fartazana?
Pensarás tu que tendo mudado de burro mudaste de moleiro?
Se pensas, estou como diz o povo: estás muito mal enganado!
_____
P.S. (salvo seja): do meu anarco-sindicalismo, até acabar no Mackno, disse muito AQUI.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Quando os filhos nos pertenciam - IV

Antes de voltar um dia destes para o paraíso em Unhais da Serra (H2Otel), voltei a revolver milhares de papéis, à procura eu sei bem de quê.

Voltei a encontrar preciosidades como esta, que irei publicando – cá, lá e pelo caminho – agora que o novo portátil parece estar a encarreirar, graças a um russo chamado Kaspersky. Benditos comunistas, apetece dizer.

No âmago das nossas vidas interiores, a tradição ainda é o que era:


Em contraponto, nas vidas do mundo geopolítico contemporâneo, a tradição deixou há muito de ser o que era.

Por cá, como quem assobia para o lado, os velhos do Restelo continuam a conduzir em contramão.
E não há meio de se irem embora!
É por causa deles que os nossos filhos emigram, não é filhota?
Até tu foste debandada para uma outra batalha em Waterloo, onde agora vives uma nova vida!

Se ainda estivesse na puta da guerra, desta vez (quem sabe?) não faria centenas de prisioneiros.

A ver se me percebem, embora eu seja muito de entrelinhas, subliminar
Isto anda tudo ligado.
Até as memórias da meninice dos meus filhotes, que são três, que foi a conta que Deus fez…

Fim de citações.

domingo, 6 de julho de 2014

Literatura de combate

Quando a 10 de Junho de 1972 embarquei no boeing militar que me levou até Angola, seguiam numa mala do porão alguns livros das minhas referências.
À mistura, ia uma garrafa da melhor bagaceira que o meu saudoso pai produziu, num tempo eu que eu já o ajudava à missa dos brancos e dos saborosos tintos de meia curtimenta ou bica quase aberta.
A emalada mistura deu bronca: 
Talvez por se ter tomado de amores pelos livrinhos, o bagaço foi-se a eles, derramou-se em cima dos ditos (por debaixo é que não ficou, senão o resultado seria diferente), possuiu-os à fartazana.
Tal orgasmo tinha de dar nisto…
O Frederico, coitado, ficou neste estado...
O bagaço quis lá saber de "A Origem da Família, da Propriedade e do Estado".

Nada fazia prever este derramado destino quando comprei o perigoso livro em Setembro de 1971, na Livraria-Papelaria Elo, sita à rua José Maria da Costa, 40, em Mafra, onde os oficiais milicianos aprendiam a matar.
Agora que vai sendo tempo de registar a verdade histórica, ficam estas perguntas para o Santos, Alferes Miliciano de Operações Especiais:
1ª - Foi para isto que o regime investiu na formação dum garboso e, por sinal, bem apessoado oficial miliciano de infantaria, o qual – ainda por cima - foi a correr uns meses depois para Lamego, tomado de amores pelas Operações Especiais?
2ª - Atão foi a partir deste barro que te fabricaram no Centro de Instrução de Operações Especiais, ó ranger de meia tigela?
3ª - Que raio de explosiva paixoneta ligaria a tua amada G3 e o erótico cinturão de granadas e cartucheiras de 80 munições 7,62mm (fora as que levavas no saco), por exemplo:
- às “Citações do presidente Mao Tsé-tung”, que nunca leste e estavas cheio de razão, que o tipo não prestava para nada, dava-se a luxos burgueses, tinha maus hábitos de consumo e, ainda por cima, era um imoral: soube-se quando morreu que “comia” criancinhas às escondidas do povo, em vez de o fazer à vista de todos e de forma regrada, ao pequeno almoço, apanágio do verdadeiro comunista?
- e ao “Resumo”, do J.C. Ary dos Santos, comprado em 2 de junho de 1972, por uns míseros 35$00, no distribuidor Abegão, sito à Rua Gonçalves Zarco, 3 – Telef. 26624, em Coimbra?
- e ao “Provavelmente Alegria”, do improvável poeta José Saramago, comprado por 40$00 algures em Lisboa, em Fevereiro de 70?
- e à “antologia / poética I” do Nicolas Guillen, comprado com desconto para os sócios que, como tu, aderiram à antifascista UNITAS – Cooperativa Académica de Consumo, SCRL, com sede na subversiva livraria da Rua da Sofia, 73-2º, Telef. 27743, Coimbra?
- e aos “poemas” do Bertolt Brecht, comprado no mesmo sítio e condições, mas em Março de 1972?
- o mesmo dizendo dos “poemas políticos” do Paul Eluard, com prefácio do Louis Aragon, desta vez em 2 de Junho de 1972?
4ª - Que tara foi essa que te deu, ó meu, estavas tu a 8 dias de embarcar na defesa da ditosa Pátria que tais filhos tem?
- Só para te lembrar, que a História não perdoa: até o teu sogro, alentejano da classe média alta e que até gostava muito de ti, não se continha e chamava-te “bolchevista”!
Não contente:
5ª - Mal puseste os pés no sagrado chão africano e os olhos numa reluzente e fogosa funcionária do Casão Militar de Luanda [sim, nesse vulcão sempre em chamas, ou já te esqueceste!] e logo te arrimaste…
- aos “Poemas” do MAIAKOVSKI/Маяко́вский, comprados em Maio de 73, nas indústrias ABC, SARL, Telef. 23543, na linda e sedutora Luanda?
Parece que deixaste por Bustos outros livros, a quem disseste adeus até ao meu regresso. Por cá ficaram, à espera da tua retoma.
6ª – Retoma que te levou até ao anarco-sindicalismo, ao Trotsky e à Rosa Luxemburgo! 
7ª – Como se não bastasse, estragaste tudo quando te apaixonaste pela Alexandra Kollontai (A oposição operária 1920 – 1921) e, por fim, te perdeste de amores pela "História do Movimento Macknovista (A insurreição dos camponeses da Ucrânia)", do Archinov, movimentos supostamente contra-revolucionários que acabaram esmagados, sem dó nem piedade, pelo regime soviético.
Valha-nos uma coisa:
8ª - Extinto o vulcão revolucionário do pós 25 de Abril, acabaste por descobrir que, afinal, o único sol que alumia é aquele que teima em se esconder neste alvorecer do princípio de verão.

Como tudo tem um fim, 
a desilusão morreu uns anos depois do “che guevara”, livro de bolso em inglês, que o amigo Hilário Costa (filho), trouxe dos USA em Setembro de 72, quando vieste de férias ao Puto ver a filhota de 6 meses e a demais família.
Afinal, o herói maior, o quase deus da nossa juventude, fartou-se de limpar o cebo a camaradas que ousavam fazer-lhe frente! 
Rais parta a revolução e a libertação dos povos que nunca chegam a ser verdadeiramente livres!

Para responder a tanta mágoa a ensombrar a história das nossas vidas, só mesmo uns
blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
[ler o resto do poema, AQUI]
 *
______
- Poema de Vasco Graça Moura - ”Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa, Fev. de 2002.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O trombone

Vocês já não se lembram do meu encontro com o Necas Caldeira.
Nunca me esqueço: foi numa 2ª feira, 7 de setembro, corria o ano de 2009, como podem conferir AQUI.
Pois não é que ontem voltámos a encontrar-nos? 
- Não para celebrar as 4 viagens dele ao mar dos bacalhaus, para fugir à guerra a que acabou por não resistir, tal foi o cansaço da faina.


- Muito menos para recordar a puta da guerra onde nos cruzámos, algures no norte de Angola, ia eu com os meus bravos ao assalto dum santuário da FNLA na serra da Mucaba, donde regressei de mãos vazias mas com os tomates no sítio.

- O objetivo era outro: tinha que ver com a campanha para as Europeias e o lufa-lufa dos suspeitos do costume.

Para quem não é do Sobreiro ou tem a memória curta, passadas as primeiras desilusões do pós 25 de Abril, o Necas, desiludido com as trapaceirices dos políticos do arco do poder, virou apoiante do Acácio Barreiros, em vias de ser eleito deputado da UDP na Assembleia da República, donde passou a disparar a torto e a direito "contra os ricos e fascistas". 

Está na cara que o meu fito era sondar o Necas, saber o que lhe vai na alma, se ainda tem ganas de voltar a pegar em armas, ou seja e em linguagem  de magarefe (retórica, pois claro), sacar do facalhão e partir para a matança dos porcos.

- É Necas! Ainda te alembras de colares um grande cartaz da UDP na parede nascente da tua casa? Coragem, foi preciso ter coragem, pá! - arrimei-lhe eu, para lhe tirar nabos da púcara.
Resposta pronta:
- Vai-te mas é coçar, ó cão sem dono!
-Tomaras tu que o Acácio que eu conheci ainda pertencesse ao mundo dos vivos!
- Não o Acácio que saltou prós braços do poder, mas o outro, que não calava a voz!

- Ouve lá, retorqui-lhe eu: o Acácio foi mas é um grande músico!
- Pois foi, pois foi! E o que faz falta não é um músico como o teu colega Marinho Pinto, que ponha a boca no trombone e varra esta merda toda? - saiu-se o Necas, enquanto fazia o gesto de quem pega no letal instrumento e o aponta ao inimigo.


- Sorri para mim, exultante pela emboscada perfeita: tinha acabado de apanhar o Necas em plena zona de morte. 
Sem hesitar um segundo, atirei-lhe a matar, bala direitinha ao coração:
- Não me digas que também vais votar nesse franco atirador?

Palavras para quê:
- Corremos para os braços um do outro, de lágrima ao canto do olho, como velhos companheiros que se reencontram no 40º jantar de confraternização de antigos combatentes!

A guerra é assim: faz de nós camaradas de armas para uma vida inteira, malgré tout.

domingo, 11 de maio de 2014

A minha saída limpa esteve por um triz

Parece que foi ontem que a Troika entrou aqui.
Decorridos 3 anos, a malvada foi-se embora e por isso aqui estou de novo, ainda que esmifradinho até ao tutano.
Digo isto só cá para nós que ninguém nos houve, porque, para dar nas vistas, anunciei ao mundo uma saída limpa, à Jorge Jesus na época passada.
Claro que continuo a depender do pãozinho deles para a boca, mas o que é que se espera de quem não tem poços de petróleo no quintal?
Por falar nele: 
(Lândana- norte de Cabinda)

Durante as generosas férias pelas matas de Cabinda (28/12/1973 a 14/2/1974) a malta da minha unidade de intervenção fartou-se de ver petróleo a sair das plataformas offshore. Azar dos azares, aquilo era do amigo americano. 
A nós, militarzitos de capitão para baixo, sobravam os olhos para o deslumbre noturno saído das labaredas libertadas pelos muitos tubos virados ao céu, logo ali a 1/2 milha da costa.
Dizia-se que a fartura era tanta que a Gulf Oil se dava ao luxo de libertar o precioso gás para a camada do ozono.
Na parte da responsabilidade que me cabe pela vinda da Troika, quero-me penitenciar por não ter patrocinado um golpe militar em Cabinda, até porque aquilo não era - nem continua a ser - Angola, quer pela alma das gentes, quer pelo código genético dum povo que até era amigo do Reino.
- No plano militar, teria sido canja para os meus bravos; 
- Economicamente, nos dias de hoje Portugal regurgitaria petrodólares, o que significa que a canzoada da Troika nunca teria cá posto os pés e que Miguéis de Vasconcelos só o de 1640 e mais nenhum; 
- Social e politicamente, seríamos um país sem taxas, mas com muitos tachos; inundado de banqueiros ricos e doutros "ricos"; de mil e uma PPP's e agências para isto e aquilo; de burocracia kafkiana para justificar o pleno emprego; 95% da população viveria de tachos e prebendas e os restantes 5% seriam emigrantes, importados para construir estádios, pistas de fórmula 1, centros comerciais gigantescos, rotundas e milhares, muitos milhares de quilómetros de autoestradas, a última das quais passaria aqui à minha porta, noblesse oblige.
- Eticamente, não haveria culpados, até porque a palavra "CRISE" teria deixado de fazer parte do léxico no novo acordo ortográfico;
- Politicamente, é certo que seríamos mais uma república das bananas, mas daí nunca veio mal ao mundo, que a ética e a honra são conceitos que, esses sim, foram abolidos do tal novo acordo ortográfico.

Infelizmente, 
a realidade foi outra 
e é por isso que 
o Cap. Salgueiro Maia está ali 
à minha porta 
a clamar por mim: 
- Anda mas é daí, 
ó Alferes Santos! 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vidas de muitas guerras e paz tão pouca

Gosto de leituras "entre linhas". De mensagens subliminares.
E assim respondo às interrogações de alguns/algumas amigos(as) sobre o post antecedente.
E gosto muito de poesia, sobretudo do meu Eugénio de Andrade, velho companheiro da mesa de cabeceira, como gosto de vaguear pela "Rosa do Mundo / 2001 Poemas para o futuro", um extenso e abrangente (no tempo e no espaço) trabalho de recolha de poesia feito para o "Porto 2001", Edição Assírio & Alvim.
Este gosto vem-me dos tempos da Coimbra de 1966/69, gosto que procurava conjugar (conciliar?) com a luta contra a ditadura, ali desde a rua estreita onde há cerca de 70 anos vive a Real República Bota Abaixo.

Claro que o poema "Despedida" nada teve ou tem a ver com a porca da política. Porca, por mor dos políticos de manjedoura, sejam eles peixes de águas profundas ou cá mais da beira-água.
Valha a verdade: o meu "padrinho" Sócrates - de quem tanto falei e com quem tanto brinquei e gozei neste blogue - despediu-se do poder com dignidade.
O rapazola que agora lhe tomou o poiso precisa de muito mais coragem para dar a volta ao regabofe em que o país se atolou do que aquela que aparenta revelar.
Desde logo, precisa de se livrar do padrinho de baptismo político. Como precisa de se livrar dos novos padrinhos e da legião de afilhados que não tardarão a bater-lhe à porta a exigir o folar da Páscoa, ansisosos de se tornarem "califas no lugar do califa."

Eu, limito-me a precisar de paz.
E de me ir libertando das muitas guerras que vivi e nas quais fui parte activa; por vezes, demais, armado em guerreiro e líder de Operações Especiais.

Preciso de me ir libertando dessa guerra que me persegue há 39 anos, feitos este mês e que continua alapada ao corpo e à alma, um pouco por culpa do tio Segismundo Freud. Lá me vou entendendo com ela, procurando gerir os diabinhos que me perseguem, brincando com eles.
Sempre, mas sempre, sem esquecer aquele lema: "Ranger uma vez, Ranger toda a vida", razão que julgo me faz manter de pé firme, como que predestinado a não morrer na praia, longe dos combates de que me recuso a fugir ou a deixar matar de morte matada. 

Mas o que mais preciso agora é de me libertar das outras guerras, sobretudo das que se intrometem e vandalizam as nossas vidas pessoais, íntimas e afectivas.

Por isso me soube tão bem aquela tarde inteira de paz que vivi ontem na casa da muito amiga Dina, sita mesmo à beirinha do mar da Costa Nova, logo ali ao atravessar da rua, onde até tempo sobrou para trabalhar.
Preciso de me reencontrar com o mar, paixão que me acompanha e impele dede os primeiros recordares da infância.

É do que estou precisado, segurando na mão esquerda [que a direita tem outros donos] a poesia do Eugénio de Andrade, esse  génio que tão bem soube conjugar a escrita com a terra e com o corpo.
...
Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.
...
___
- 1ª imagem: extraída de "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Notícias Editorial/2000.
- 2ª imagem: pôr do sol na Costa Nova, ontem.
- O poema, esse, saquei-o do XXX capítulo de "As Mãos e os Frutos", de Eugénio de Andrade / Poesia e Prosa [1940 - 1980], Edição Limiar, 2ª edição revista e aumentada.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O PESCADOR DE SONHOS

Nascido a 10/8/1947, o Carlos Luzio viveu a mesma infância e juventude que tantos de nós: entre escola, colégio e frenéticas férias do mais puro gozo, traquinices, malfeitorias e bailaricos de entesoar.
Mal teve tempo de acabar o então 7º ano do liceu em Oliveira do Bairro. Em Setembro de 1970 atracava disfarçado de alferes miliciano no porto de Nacala, região moçambicana do Cabo Delgado. Esperava-o, como a tantos de nós, aquilo a que chamava a puta da guerra.
Guardo desse tempo uma preciosa colecção de cartas (sobretudo, em forma dos célebres bate-estradas), que me ia enviando do código postal militar que não identificava o local da origem, não fosse o inimigo saber onde a malta estava a derramar a juventude.
Ciente disso e num rasgo único de fidelidade à Pátria e aos seus segredos militares, o Carlitos identificava-se assim no remetente:
Silvestre Rojo Sommel
Alferes Mil.º
SPM 1904
Acredito piamente que foi esse disfarce que o safou da merda que era levar com uma mina nos tomates.
Chegado a Mocímboa do Rovuma (fronteira com a Tanzânia), ajudou a construir o acampamento militar:
Parece um circo, um autêntico circo. Barracas de lona, luz eléctrica e palhaços, muitos palhaços, a começarem pelo capitão.
Estava eu a caminho de lhe seguir os passos na sagrada defesa do império quando o Carlos soube da notícia do meu casamento (o 1º de vários, a bem dizer...), notícia que o deixou particularmente entristecido:
...são logo dois azares juntos, a tropa e o casamento. O pior é que a tropa são só dois anos e o casamento é uma colhoada deles.
...
Homem de afectos e amizades mil, transferiu para os seus poemas muitos desses amores, entremeados pelo desejo de paz e liberdade:
Num quarto
Quatro paredes apenas

Lugar para uma janela
Que nunca se abriu
Lugar para muitas cenas
Que só em sonhos...

Lugar para se morrer
A sonhar com liberdade.
(Chioco, Moçambique - 12 JUN 71)
...
Faz hoje 6 anos que o Carlitos Luzio foi de abalada, que a guerra da vida não quiz a paz com ele. Despediu-se assim noutro dos seus poemas:
Chegou o momento de dizer adeus,
De emalar os meus sonhos
E tu os teus.
...
O Eugénio de Andrade diria que o Carlos foi com as aves.
Voa, voa, Amigo de tantos Amigos!
___
- Texto adaptado de "Carlos Luzio -  Pescador de Sonhos", 2005, Edição dos Amigos.
- Autor da foto: Carlos Micaelo.
- Ler  post com o Poema das Águas, no NOTICIAS DE BUSTOS.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pescador de sonhos

Com o aproximar de mais um aniversário da morte prematura dum amigo de sempre, recordo um bonito postal tridimensional que o Carlitos Luzio me enviou da puta da guerra, algures no norte de Moçambique.
Estava eu em vias de embarcar para Angola, onde também me esperavam "amantes" do calibre das que ele encontrou: algumas minas, emboscadas e, felizmente, alguns amores de ocasião.
Não fosse o inimigo dar com ele, nos muitos aerogramas (bate estradas) que me enviou, o Carlos identificava-se como
Silvestre Rojo Sommell
Alferes Miliciano
SPM 1904

sábado, 4 de setembro de 2010

As manifs de Maputo e o facebook

Recomendo este texto do ma-schamba sobre o acesso à informação no decorrer da revolta popular em Maputo, onde se prova que o facebook é muito mais que engate, é informação viva e partilhada.
Talvez pelos afectos que a África gerou por via da puta da guerra ou da paz por encontrar, o Ma-schamba esteve sempre linkado nos meus blogues preferidos.
Já agora, lembro uma frase de Amílcar Cabral: o colonialismo não tem cor.
__
- Imagem extraída de Cottage Style, via imagens do google.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Comércio do Funchal

Não me refiro à retoma do comércio e turismo do Funchal depois do temporal de 20 de Fevereiro.
Lembro o jornalinho cor de rosa que me acompanhou desde os tempos da faculdade até aos anos da brasa da Revolução de Abril.
Fui assinante do extraordinário e quase miraculoso CF entre Fevereiro de 1970 e igual mês de 1975, de que guardo religiosamente todos os exemplares. Vale-me ter um sotão grande, do tamanho do meu mundo.
Imagine-se o que representou receber durante 26 meses nas matas do norte de Angola e de Cabinda o precioso jornal, um marco na luta contra a ditadura.
Que lufada de ar freco!

sábado, 10 de outubro de 2009

Recordares de paz e de guerra

A cidade de Lândana, ou Guilherme Capelo, em Cabinda / Angola (princípios de 1974)



Operação Quitexe, no rio Lukengue, norte de Angola (Nov. de 1973)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Há mar e mar. Há ir e ficar

A descoberta do vídeo antecedente trouxe-me à lembrança um bom amigo e companheiro de Bustos: o Necas Caldeira, magarefe reformado. Mas também embarcadiço, para fugir à guerra a que acabou por não fugir.
Naquela madrugada, apeteceu-me bater-lhe à porta e perguntar-lhe: 
- Então, Necas e o teu mar? 
- E a guerra, Necas, a puta da guerra ali no Tôto, aonde nos encontrámos ia eu para para mais uma intervenção a pedido dos senhores da guerra de Luanda?
- E as campanhas no bacalhau, Necas? Conta-me, conta-me lá, que quero ouvi-las outra vez?

Acabei por encontrá-lo ontem, no sítio do costume, andava aqui o padrinho, mai'la madrinha e o afilhado, a colocar a 3ª tela do "Bustos em 1º". Foi na Barreira, à beira da casa do Altino.
Acabada a safra e umas atramoçadas minis de permeio na loja da Maria do Altino, viémos até casa lembrar tempos que marcaram a nossa juventude. 
E viajar pela net. Mar adentro. Até St. Jones, na Terra-Nova, Labrador.
Chegados lá, dispara-me o Necas:
"O Santa Maria Manuela era da pesca à linha. Saíam em Fevereiro/Março e regressavam antes dos temporais. Os primeiras linhas eram a alma da pesca à linha. Iam nos dóris para sotavento, zagaiando de vez em quando, a ver se ferravam peixe. Se viam que dava, largavam os tróleis de 10, 26, 28 linhas, na zona testada pela zagaia. Era um fartote!
 Carregados os dóris e deixadas as linhas assinaladas com bóias, vinham descarregar o bacalhau para bordo, que garfeavam para dentro da embarcação sem sair do dóris [tás a ver aqui, no filme? Cala-te mas é, e aprende!]
Arrastão Santa Princesa

Fui em 66 para o bacalhau, no Santa Princesa, um navio de guerra francês adaptado. Também andei no Santa Mafalda
Arrastão Santa Mafalda

Foram 4 viagens ao todo, entre 66 e 69.
Uma vez, o Ti Jacinto Merendeiro, da Gafanha do Carmo, morreu dum ataque quando íamos para St. Johns. Enterrámo-lo lá, mas o filho, emigrante no Canadá, trouxe-o para o chão da terra dele. Era gente de raízes!
Mas antes da malta ser enterrada em terra, muito antes de mim, fazia-se o "bota-abaixo": o corpo de quem morria a bordo dos veleiros era colocado em cima duma tábua e seguro por pesos para afundar. Deixado à água, o bota-abaixo só acabava quando se largava uma lamparina a boiar no local, a assinalar a morte.
[Tás parvo ou quê? Claro que a lamparina boiava à solta! Era uma cerimónia, a fazer de conta! Como o teu enterro e o meu, quando formos viver para a casa grande que fica em frente do Zé Valério!  Ou estás à espera de missa cantada e santa no enterro?
- Calei-me antes que ele me excomungasse...]

Não aguentei os 7 anos que a lei mandava para se livrar da guerra. Embarquei para Angola em 71, com o Batalhão 3855, 4ª Companhia, a 3437.
E a tua, que eras dessa merda da intervenção, sempre a saltar para onde elas escaldavam?
- Era a 3564, Necas - respondi-lhe eu - uma companhia independente, sob as  ordens directas do Comando-Chefe de Luanda.

Já agora, Necas: quando nos encontrámos no Tôto ia para uma intervenção na serra da Mucaba, a subir  de gatas, a pique, à espera das ameixas cairem. Fomos a seguir aos páras, que vieram de lá corridos. Aquilo era um santuário da Fenelá, uma espécie de cu de Judas.
Sabes, no percurso passei por uma pequena fazenda que se chamava Mamarrosa.
Lembrou-me a terra. 
A terra para onde tinha de voltar, Necas, nem que fosse cão!"

A nossa terra é o nosso chão. 
É aqui que estão as nossas raízes.
Todos os dias as rego com água.
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A net está cheia de blogues e sítios que nos transportam para o mundo perdido das frotas bacalhoeiras.
Bem hajam pela ajudinha!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

De como o mar está cheio de peixes que sabem nadar

Eles não precisam da canção do Zeca Afonso (O que é preciso é animar a malta!).
Eles sentem-se como peixe jovem que sabe nadar, e bem. Mas foi proibido de o fazer pelo avô-peixe.
Como ando atento ao mundo aquático que me rodeia e apesar das últimas pescarias em branco, foi meio escondido por entre pedras, navios afundados e sargaços mil que ouvi o interessante diálogo familiar. Oiçamos, pois.
Do alto do seu saber de experiência feita, anos e anos a nadar, a nadar, a nadar, (1)  assim falava o avô-peixe ao agitado cardume dos peixes-crianças:
- Vocês ainda são muitos novos! Ainda têm muito que aprender! Nós, os velhadas, é que sabemos o que é a vida!
E lá continuou, do cume do seu enegrecido rochedo:
- Com que então já querem atirar-se ao mesmo prato das saborosas minhocas do mar de que nos vimos alimentando há séculos e seculorum? 
Têm muito que esperar! Fiquem-se pela farinha maizena, pela papinha! 
Era o que nos faltava! Bem podem esperar sentados nas pedritas do mar!
A quererem ser livres neste mar que é nosso, ó fedelhos dum raio!
- Este mar que há-de ser nosso até eu cair da cadeira! [como o outro, o peixe-salazar]

Com um ar cada vez mais sério e teatral, prosseguiu: 
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu..."
[etc., etc., etc. e tal] (2)

Quanto mais o avô-peixe - qual D. Sebastião - se perdia por entre o nevoeiro e continuava a falar d' El-Rei D. João Segundo, da roda da nau que voou três vezes (voou três vezes a chiar), das cavernas e tectos negros do fim do fundo, do homem do leme que tremeu e disse «El-Rei D. João Segundo», mais o  numeroso cardume dos peixes-arraia-miúda se ia afastando, afastando. 
Afastando.
Até que perderam de vista o avô-peixe, o pai-peixe, a mãe-peixe,  a peixeirada.
Finalmente, pararam. 
Um deles, que me pareceu o líder, dirigiu-se aos demais. Em tom apaixonado, mas firme, começou assim:
No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinas
De quem sabe amar.
...
... 
Gosto muito de robalos, douradas, sargos e pargos. Desde que sejam "quileiros".
Os juvenis, esses, devolvo-os ao mar.
Que o futuro a eles pertence.
__
(1) Tal como o boneco das pilhas duracell, o avô-peixe nadou durante 160 anos e teima em voltar a nadar mais outros 160. O autor destas linhas, esclarece que, na morfologia peixeira, esta idade corresponde a 10 vezes a idade do homem-peixe-que-teima-em-voltar-a-nadar.
(2) Era óbvio que o avô-peixe citava "O Mostrengo", celebrado poema da "Mensagem", da autoria de Fernando Pessoa-Ele-Próprio.
Deixei de ter dúvidas: o avô-peixe continua agarrado aos fantamas do passado, à poesia do antigo regime, à vertente épica e passadista do Poeta dos grandes heterónimos.
O avô-peixe continuava a desprezar os Álvaros de Campos, os Ricardos Reis, os Albertos Caeiro.
E andei eu, guevarista de meia tijela, a ler poemas de Abril na Assembleia Municipal...
*
CITAÇÕES: 
- Mensagem, de Fernando Pessoa, Colecção Poesia * Edições Ática, 13ª edição, págs. 62 e 63;
- Poesias, de Álvaro de Campos, mesma editora, 1ª edição, pág. 19.
- Imagem da capa: Exigir o Impossível, de Herbert Marcuse / Ed. Lobo Mau / Editorial Teorema /25 de Junho de 1974.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Abril de vida, Abril de memória

As comemorações oficiais do 25 de Abril na sede do concelho tiveram dois momentos particularmente brilhantes: a cerimónia evocativa junto do monumento aos combatentes da guerra colonial e o lançamento do livro “Arlindo Vicente e a Oposição – As eleições Presidenciais de 1958”.
Da primeira importa registar a leitura de poemas de Abril, da autoria de Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre e do nosso Armor Pires Mota. A poesia da paz que Abril trouxe falou mais alto que a canção da guerra que Manuel Alegre chorou no seu 2º livro de poemas, O Canto e as Armas (Editora Nova Realidade, 1967 e Ed. Poesia Nosso Tempo, 1970).

No salão nobre da sede do município e após as usuais intervenções dos representantes dos partidos com assento na Assembleia Municipal e do Presidente desta, teve lugar a apresentação do livro de Arlindo Vicente, pintor, advogado e antifascista, nado e criado no Troviscal e que aceitou o desafio de enfrentar a ditadura salazarista no “simulacro cuidadosamente montado” das eleições presidenciais de 1958, para usar as palavras do também troviscalense Silas Granjo, coordenador e prefaciador do livro agora trazido a público sob a égide da Câmara Municipal.
Confirma-se o que ousei afirmar repetidas vezes em público e privado: o pelouro da Cultura do nosso município tem sabido cumprir o seu desígnio: são constantes as acções de promoção da cultura, da arte e do entretenimento.
Da autoria de Miguel Dias Santos, professor, investigador e autor de vários estudos sobre a nossa história contemporânea, o livro foi apresentado por um dos filhos de Arlindo Vicente, o prof. dr. António Pedro Vicente, que entre muitos recordares nos lembrou que

É através da memória que se constrói o futuro

- Título: Arlindo Vicente e a Oposição; autor: Miguel Dias Santos; Edição: Câmara Municipal de Oliveira do Bairro; tiragem: 1.000 exemplares; data da 1ª edição: 25 de Abril 2009.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

é preciso reformar a tropa!

Tem-se falado em instabilidade no seio das Forças Armadas. Parece que a malta quer melhores condições, que isto de vestir uma farda tem muito que se lhe diga.
Não é que eu seja saudosista, mas, gaita, esta nova geração do ar condiconado além do costumeiro aumento de vencimentos, quer o quê?
Se o Ramalho Ortigão fosse vivo desancava-lhes forte e feio no seu blogue pessoal e intimista...
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Scaner extraído das Obras Completas de Ramalho Ortigão \ Farpas Esquecidas \ vol. I \ Livraria Clássica Editora, 1946 \ pág. 105.

sábado, 4 de abril de 2009

Os bandeirantes e o genocídio dos povos nativos

Estes pequenos heróis da história colonial portuguesa sempre foram pouco divulgados entre nós. Não me lembro sequer de serem ensinados nos bancos da escola. Não acredito que o desconhecimento se deva ao facto dos Bandeirantes, a par do desbravar dos sertões brasileiros, terem semeado a morte e a doença entre os povos nativos que iam encontrando pelo caminho. A razão estará no patrioteirismo dos nossos historiadores, mais interessados na epopeia dos portugueses vista do lado nacionalista e expansionista. É que a par dos colonizadores portugueses, foram muitos os brasileiros envolvidos no rasgar do interior da enorme colónia que era o Brasil no séc. XVII.
Mas não deixa de ser interessante conhecer esta epopeia do colonialismo lusitano. Aqui bem perto, na Praça Marquês de Marialva, em Cantanhede, existe um bonito monumento a Pedro Teixeira, bandeirante, conquistador da Amazónia e filho da terra. E não falta na região norte do estado de Maranhão uma pequena cidade com o nome de Cantanhede, privilégio de que poucas terras portuguesas se podem orgulhar.
E agora digam lá que não somos uns patriotas!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ração de combate: os dias da fome

Era uma ou mais caixas destas que levávamos para as operações de 2, 3 e até 4 dias, mato adentro.
Safavam-me as latas sul-africanas de fruta em calda que comprava na cantina do buraco chamado "aquartelamento"; a maior parte do conteúdo das rações distribuía-o democraticamente pelos bravos do grupo de combate.
Tudo gente do melhor que havia ao cimo da terra, verdadeiros camaradas a quem tratava por "Sr. Silva", "Sr. Santiago" ou "Sr. Adão".

Gente a quem ensinei o que era a liberdade, a democracia e até a Convenção de Genebra (foram centenas os prisioneiros que fizemos em 26 meses de comissão). Mas também gente que decidiu não estar ali para morrer.
O stress das operações constantes e uma ementa destinada a quem não passava de carne para canhão tiveram o efeito desejado: uma úlcera duodenal atirou-me para o Hospital Militar de Luanda durante 40 dias.
Parece que a úlcera continua, que a guerra está para durar, durar...

sexta-feira, 27 de março de 2009

AINDA ESTOU VIVO


Já perdi o medo

A morte já não me assusta
Chegará no seu dia
Hoje levanto-me mais cedo
Madrugar nada me custa.
*
Ontem, Carlos,
os teus Amigos,
voltaram a lembrar-te!

Como num poema teu,
mais uma vez
,
chamámos-te à vida,
quando tu, desiludido,
preferias morrer.


Por isso nos rimos da morte enquanto estamos vivos.

_
O 1º quinteto e a última estrofe foram extraídos de Ainda estou vivo, poema escrito pelo Carlos em 29.1.2004, 8 meses antes de se ir embora (27.9.2004).
O poema que chamei à vida, Acaso não somos Amigos?, foi escrito no Chioco (Moçambique) em 1971.
[CARLOS LUZIO - O PESCADOR DE SONHOS\ Edição dos Amigos\ 2005]